Correio do Minho

Braga,

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O temporal que atingiu Braga em 1902

O amor nos tempos da cibernética

Ideias

2017-01-22 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

As baixas temperaturas que têm sido o apanágio destes dias justificam os avisos da proteção civil para os seus riscos, sobretudo na população mais idosa.
Há previsões, provavelmente exageradas, que indicam que este inverno poderá ser um dos mais frios dos últimos cem anos. Neste contexto, irei recordar um dos temporais mais violentos que se abateu em Braga.
No início do século XX, a nossa região vivia ainda muito dependente da agricultura e bastava uma pequena alteração climática para afetar as colheitas e, consequentemente, surgirem períodos de carestia e de fome.
Assim, o ano de 1902 ficou marcado por um inverno rigoroso, verificando-se o prolongamento das chuvas fortes até aos meses de maio e de junho. Os campos mantinham-se permanentemente alagados e as colheitas não prosperavam. Também as árvores de fruto, muito importantes para a abundância alimentar da época, foram muito afetadas por estas chuvas.
Quando se iniciou o mês de julho, a população ansiava pela melhoria do tempo e pela chegada, finalmente, dos primeiros dias de sol. Contudo, foram surpreendidas por uma inesperada intempérie, que afetou toda a região.
Nos dias 4, 5 e 6 de julho verificaram-se fortíssimas trovoadas em Braga, que mantiveram em alerta os seus habitantes durante o dia e, principalmente, à noite. Para o jornal “Commercio do Minho”, de 8 de julho de 1902, “Antes das 2 horas da madrugada de sabbado a fuzilaria dos relâmpagos foi acompanhada do temeroso ribombar do trovão e, para nada faltar n’este concerto formidoloso, veio o graniso, de tamanho pouco vulgar, danificando quanto encontrou na sua passagem”.
Para agravar esta situação, choveu torrencialmente durante horas, surgindo um fortíssimo ciclone que atingiu toda a região de Braga.
Os relatos da época são verdadeiramente impressionantes: no concelho de Braga ficaram dezenas de milhares de árvores destruídas, muitas delas arrancadas literalmente pela raiz! Também as vinhas foram destruídas, com cachos de uvas espalhados pelo chão. Uma das principais culturas desta região, o milho, ficou também totalmente destruída. Para completar todo este cenário diluviano, verificou-se uma forte queda de granizo, então comparada a autênticos ovos de galinha que caíam do céu!
Para além dos campos, também as habitações sofreram danos avultados. Foram raras as habitações que possuíam claraboias que mantiveram os vidros desta estrutura intactos! No Colégio dos Órfãos de S. Caetano, no Colégio de Montariol, no Colégio da Regeneração e no edifício do Seminário, por exemplo, foram poucos os vidros que restaram! No Hospital de S. Marcos, foram largas as dezenas de vidros partidos! O mesmo se verificou na maioria dos palacetes que aqui existiam: na casa do visconde do Paço de Nespereira, na rua dos Biscainhos, ficaram partidos 105 vidros! Na casa da célebre família dos Paivas, no Largo da Sé, ficaram partidos 90 vidros! O mesmo se passou no palácio do Visconde do Castelo.
A água torrencial que corria pelas ruas de Braga era de tal forma caudalosa, que levantou paralelos e rebentou muitos dos canos de esgotos! As ruas do centro de Braga, muitas delas já degradadas, em terra ou em calçada, ficaram quase intransitáveis. Na Avenida Central, mesmo no centro, não houve uma única árvore que não tivesse sido afetada!
Os prejuízos verificaram-se também em algumas empresas de grande projeção de Braga. Uma delas foi a fábrica de chapéus “Taxa & Faria”, situada na rua D. Pedro V, que sofreu com a inundação e destruiu centenas de chapéus de palha e muita da matéria-prima aí existente!
Numa cobertura metálica que existia na Praça do Município, e que abrigava na altura dezenas de romeiros que se preparavam para seguir para S. Torcato, a gritaria foi de tal ordem que assustou os moradores dessa praça!
Um acontecimento curioso verificou-se no Largo dos Penedos, quando aí se encontravam cavalos que trouxeram de Ponte da Barca um coche. Assustados com a trovoada, os animais iniciaram uma correria desenfreada, que os levou a atravessar a rua dos Chãos, o Largo dos Terceiros, a rua dos Capelistas, o Campo da Vinha, a rua do Carmo e ainda a rua do Carvalhal. Os gritos de medo vinham de vários lados, principalmente de uma mulher que não conseguiu sair do coche que tinha sido arrastado pelos cavalos!
Em todas as freguesias do concelho verificaram-se prejuízos enormes, quer ao nível de casas danificadas, muros derrubados, caminhos que desapareceram com o arrastamento de terras, campos agrícolas destruídos e milhares de árvores derrubadas, a maioria delas de fruto.
Os meses seguintes foram passados na tentativa de remediar os enormes prejuízos. De referir também que no ano seguinte a carestia, a miséria e a fome foram ainda mais sentidas por esta pobre gente!
Apesar de vivermos tempos diferentes daqueles que aqui foram recordados, o certo é que as alterações climáticas que atualmente se verificam, com extremos no inverno e no verão, deveriam proporcionar uma maior atenção por parte das autoridades, exigindo construções que melhor protejam os seus habitantes destes fenómenos climáticos.

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