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Opções muito discutíveis

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Opções muito discutíveis

Ideias

2019-10-22 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

Independentemente dos números, sempre manipuláveis em função dos interesses de quem os utiliza como arma de arremesso político, a verdade é que o investimento no estádio municipal de Braga tem um peso significativo no orçamento da Câmara de Braga. Se as verbas alocadas ao cumprimento de tal compromisso comprometem ou não a gestão do Município, na exacta dimensão que Ricardo Rio constantemente clama, será questão bem diferente.
Na reunião de ontem do executivo camarário, o presidente da Câmara distribuiu, finalmente, o dossier das contas, documentos que lhe haviam sido solicitados pela oposição há já longos meses. Obviamente, tais documentos carecem de análise aprofundada e, por essa razão compreensível, não foram nem poderiam ter sido discutidos na reunião. Uma coisa parece absolutamente clara: o remanescente da dívida não atinge valores astronómicos e, ao que parece, deverá ser liquidado em poucos anos.
Mas mais do que a discussão, técnica e política, que o tema suscitará nos próximos dias, creio ser de realçar desde já a questão do referendo sobre a eventual alienação do estádio, tema polémico desencadeado há tempos por Ricardo Rio.

A cartada que o edil pretende lançar é, claramente, uma jogada política de alto risco. Desde logo porque, naturalmente, se desconhece se a resposta da consulta pública vai ser favorável aos seus intentos políticos. Mas, mesmo em caso afirmativo, parece-me que encontrar um comprador será tarefa ciclópica, quiçá mais difícil do que encontrar uma agulha num palheiro. Ou seja, uma hasta pública deserta…
Uma alternativa eventualmente menos audaciosa mas porventura mais inteligente seria apostar na criatividade para, em diálogo com o Sporting Clube de Braga, promover uma reflexão sobre as possibilidades de rendibilizar aquela edificação municipal, à semelhança, aliás, do que já sucede com recintos congéneres.
Compreendo a postura e a intenção, mas creio que a actual gestão municipal não pode continuar a utilizar o estafado alibi do estádio para justificar a sua inabilidade política e a sua incapacidade de cumprir as promessas eleitorais.

Nestes seis anos de governação autárquica, a coligação de direita apenas pode apresentar, como obras dignas de registo e de encómios, o rebaptizado Fórum Braga e o Complexo Desportivo da Rodovia. Reconhecendo, embora, a enorme relevância de ambos, há que admitir que sabe a pouco, principalmente se compararmos com o extenso rol de realizações que a lista de Ricardo Rio prometeu ao eleitorado.
Em matéria de mobilidade urbana, por exemplo, a coligação liderada por Rio quase não mexeu uma palha: a rede ciclável manteve-se inamovível no papel como ali se conservaram também os incentivos aos modos suaves de circulação. Aliás, no que concerne aos estímulos ao transporte público, e mesmo reconhecendo algumas melhorias no serviço prestado pela transportadora municipal, a verdade é que foram dados sinais claramente contrários: por um lado, com a posição hesitante e até ziguezagueante na política de aquisição de autocarros e, por outro, com a descida das taxas dos parquímetros a incentivar o uso das viaturas particulares. E nem será necessário abordar o laxismo da autarquia relativamente aos gravíssimos problemas de trânsito nas entradas e saídas da cidade os quais, face à inoperacionalidade dos responsáveis, se transferiram também para o interior da urbe.
Ora, estas são questões centrais, temas que afectam directamente a qualidade de vida das populações, e essa seria razão mais que suficiente para serem encaradas com a prioridade que de facto merecem. Contudo, infelizmente esse não tem sido o entendimento da maioria que governa o município.

Como os leitores constatam, a inércia da gestão municipal, nesta como em outras áreas relevantes, constitui a imagem de marca da denominada “Juntos por Braga”, coligação que frequentemente justifica o seu imobilismo, a sua incapacidade, com a esfalfada desculpa das contas do estádio. Estranhamente tal argumento deixa de ter acuidade quando se trata da organização de eventos de massas, alguns dos quais consomem centenas de milhares de euros. Para esses não parece existir qualquer condicionalismo de ordem financeira. Como também não existem quando se trata de pagar rendas altíssimas por instalações que o bom senso aconselharia adquirir, como são os casos do S. Geraldo e do edifício do Castelo.
É um facto incontestável que a conjuntura económica favorável tem vindo a reflectir-se positivamente nas receitas fiscais do município. Contudo, nem por isso a Câmara se abalança para os grandes desafios – aqueles que, afinal, inscreveu no seu programa de acção.

Refiro-me, por exemplo, ao sempre adiado Eco-Parque das Sete Fontes, um processo que Ricardo Rio assumiu pessoalmente (como aconteceu com as instalações da Fábrica Confiança), e que afinal não será durante a sua gestão que verá a luz do dia, e ao famoso Innovation Arena, também este um projecto continuamente adiado.
Em vez de avançar para projectos sustentáveis e com retorno para as populações e para o concelho, Ricardo Rio e a sua equipa dão prioridade a acções impactantes do ponto de vista mediático mas com resultados quase nulos na qualidade de vida das populações. Enfim, pode-se discordar mas são as (más) opções de quem governa.

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