Correio do Minho

Braga, terça-feira

Orquídeas Bravas

Por um modelo de gestão pública de proximidade inteligente

Voz aos Escritores

2019-03-15 às 06h00

Fernanda Santos

Abre-te, Primavera!
Tenho um poema à espera
Do teu sorriso.
Um poema indeciso
Entre a coragem e a covardia.
Um poema de lírica alegria
Refreada,
A temer ser tardia
E ser antecipada.[…]
Miguel Torga

A primavera está quase a dar o ar de sua graça. Com ela, a natureza em flor. Poderíamos contentar-nos simplesmente com a contemplação da natureza, com a sensação agra- dável do sol pela manhã, o canto dos pássaros, as noites amenas, mas não, queremos acordar a natureza das palavras, dar--lhes voz e brilho. Assim, saudamos a primavera com imagens e emoções adormecidas no silêncio do inverno. Subitamente, abrem-se os livros, brotam das gavetas os poemas que hibernavam e os poetas podem, enfim, cantar.

Atrevemo-nos a dizer que a primavera mora na poesia. É como a aranha que faz da orquídea a sua casa, urdindo a teia dos seus versos.
As Orquídeas são flores belíssimas, exóticas e que inspiram os sentimentos mais profundos dos corações apaixonados e das pessoas que querem demonstrar uma afeição especial por alguém. Flores capazes de seduzir pelo olhar e de arrebatar pelo coração com sua beleza, colorido fantástico e sua aura de mistério e romantismo, tal como inferimos de “Orquídea” de Rosa Lobato Faria:

Exótica e esplendorosa,
a orquídea é flor bizarra
que nos deixa intimidados.
Porque é que a mãe natureza
pôs nela tantos cuidados?

Às vezes, não é preciso percorrer grandes distâncias para sermos surpreendidos pela magia da natureza. Por vezes, os pequenos grandes fenómenos naturais sucedem-se mesmo do outro lado da rua. Outras vezes, basta abrir a janela. Foi isso que aconteceu, quando saí de casa para fazer uma caminhada, ao deparar-me com uma pequena orquídea brava, escondida no meio da vegetação. Depois de olhar com mais atenção, reparei que não era uma, mas sim dezenas delas, povoando os terrenos baldios que cercavam o acesso à estrada. Pé ante pé, com muito cuidado, aproximei-me. Os meus olhos ficaram mudos com tanta poesia! Como aqueles versos iluminaram o meu silêncio de fim de tarde! E foi no meio do silêncio que reparei que uma das orquídeas estava a ser usada como ninho de aranhas que, de pétala em pétala, urdiam a sua teia.
São estes os desígnios que a natureza tece pela sobrevivência das espécies, enquanto eu percorro mais uma tarde de poesia. De repente, descobrimos que a vida pode ser declamada como pura poesia, basta a gente estar pronta e aberta a enxergar as pequenas coisas.

E lá está ela, a orquídea brava, uma autêntica donzela, com as suas saias rodadas de formas e coloridos vários. Exibe-se nas nossas frescas raízes, num misto de lascívia e inocência. No seu centro-miolo, há um olho mágico, que parece tudo ver e a sua pétala central lembra uma boca aberta, enigmática, sugestiva, que convida ao prazer e à alegria.
Por isso, parece-nos quase impossível isolar a orquídea brava da poesia, orquídea e prazer, orquídea e paixão, ela se funde e se confunde com estas palavras em sugestões imagéticas, em poemas - não ditos, sugerindo com sua presença uma noite de amor vivida em toda a plenitude.

Este espetáculo floral que, geralmente, se mostra uma vez por ano, guarda o segredo de versos que sabem expressar não somente sensações, mas sentimentos, os quais só a luz da tarde consegue desenhar.
Pássaros vêm saudar sua beleza, enquanto poetas tentam descrever sua beleza com palavras buriladas e, por outro lado, os cantores buscam rimas e ritos para cantar a poesia que vive nesta flor.
Assim como as flores em si, as músicas que citam as orquídeas são igualmente misteriosas e geralmente possuem um certo “quê” de sensualidade.

É interessante notar que as principais canções que citam orquídeas fazem referência ao feminino: são, na sua maioria, poemas de amor e autenticidade, como podemos ler nos versos do cantor brasileiro Zé Ramalho:
“Você é a orquídea negra
Que brotou da máquina selvagem
E o anjo do impossível
Plantou como nova paisagem”.

O poeta compara a paixão com a guerra. O termo “flor da agonia” faz referência às belezas da paixão que a palavra “flor” traz, mas também destaca o sofrimento que o amor pode trazer.
Por sua vez, Guilherme Arantes faz referência à pureza e à fragilidade femininas nos seguintes versos:
Bela orquídea/Pureza tão frágil mistério de toda mulher/Bela orquídea/Não vive da seiva roubada de um caule qualquer”.

Se a orquídea é considerada como um símbolo da feminilidade, a música de Stevie Wonder “Black Orchid” exalta justamente isso:
“Para construir mundos melhorados pela paz
Envolta no brilhante orvalho da manhã
Ela expressa a vida de novo
Que sai da terra sob seus pés
Ela é uma flor que cresce com a habilidade do amor
Ela é a feminilidade”.

Com o nome orquídea negra, Stevie Wonder não reforça apenas a negritude da pessoa amada, como valoriza o facto de ela ser especial.
Contudo, é na “Orchid” de Alanis Morissette que, tal qual a maioria das músicas da cantora, a canção fala muito sobre sentimentos internos e introspetivos. Neste caso, é como se a compositora se intitulasse de orquídea:
“Eu sou uma ‘peça rara’,
bem intencionada e sem encanto
Rotulada e mal compreendida, tratada
como uma rosa sendo uma orquídea”.
Como nos faz refletir esta canção!

É mesmo assim, a orquídea guarda em si mesma todos os mistérios da poesia.
Bravas e exuberantes, florescem com quase nada de alimento e água, conjugando o vigor com a beleza. As orquídeas bravas agarram-se às pequenas reentrâncias da pedra áspera e resistem. As raízes aproveitam um pouco da água de chuva que escorre pela rocha e a acumulam-na nos respetivos caules grossos. São autênticas flores de pedra.
As próprias soluções da natureza para armazenamento de água são poéticas e engenhosas! Os caules das orquídeas bravas são mais espessos, para guardarem mais líquido. Parecem catos do deserto. Mas armazenar só, não basta. Como qualquer planta, elas precisam de dióxido de carbono para a fotossíntese. Só que, se abrissem de dia, as células deixariam escapar água. Para evitar isso, elas abrem-se somente à noite.

E tudo recomeça em
Êxtase
Não há noite, nem há dia,
nesta alucinada orgia.
A lua desce e a alma despe.
Fosse eu agora para a rua,
iria nua.

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