Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Os estudantes e o funcionário mais antigo do Liceu de Braga

Encontrão Ambiental

Ideias

2012-11-19 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes

O ambiente que se vive nos diferentes estabelecimentos de ensino em Portugal retracta, de um modo geral, o ambiente que se vive na sociedade. Épocas de crise económica e de valores (como a que vivemos), tal como outras épocas de crescimento e de prosperidade, são reflectidos nos estabelecimentos de ensino.
Numa altura em que a Escola Secundária Sá de Miranda (antigo Liceu de Braga) celebra 176 anos, e para que possamos fazer uma comparação com os dias de hoje, vou recordar como era o ambiente dos estudantes deste liceu há exactamente 100 anos.

Começo por recordar que o Liceu de Braga, em 1912, funcionava no Convento dos Congregados, bem junto à igreja com o mesmo nome, facto que determinou a proibição do toque dos sinos desse templo, para não prejudicar o funcionamento das aulas. Estava o liceu, portanto, bem no centro da cidade.
Quem via os estudantes chegarem ao liceu, reparava que uns vinham conversando atentamente sobre as aulas que iriam ter a seguir, outros falavam da melhor forma de enganar os professores e outros ainda, “tendo-se por grandes portentos, philosofando!”. (1)

Dentro do recinto do liceu, estavam grupos de alunos com diferentes comportamentos: uns brincavam, outros estudavam e outros preparavam as cábulas para os testes que iriam ter nesse dia. Mas o som geral era marcado por uma gritaria, que só terminava quando a “cabra sôa”! (id.)
Nos segundos seguintes, toda a gritaria que se verificava no recinto do liceu dava origem a um enorme silêncio, uma vez que praticamente todos os alunos dirigiam-se rapidamente para as suas salas.

Havia, no entanto, alguns que chegavam atrasados, porque “um, em vista da patrôa lhe dar o almoço mais tarde; outro que por se deitar a altas horas da noite não despertou a tempo; outro ainda porque tendo ido aos cigarros á sr.ª Anninhas, também soffeu do mesmo mal” (id.). No entanto, estes alunos atrasados lamentavam-se por não terem chegado a tempo das aulas.
Os 55 minutos seguintes, correspondentes a um bloco de aulas, ficavam então marcados por absoluto silêncio no Liceu de Braga: “Nem uma fala, nem uma risota se ouve. Aquella hora é silenciosa” (id.).

Durante o período de aulas, se percorressem os espaços do liceu, verificava-se “aqui mathematica na lousa, alli o grego das sciencias, além frases de francês, acolá o aborrecido latim, etc” (id.).
Terminados os 55 minutos de aulas, uma gritaria infernal era ouvida, novamente, no recreio do liceu. Aos grupos, uns alunos lamentavam-se porque tinham estudado muito, sabiam a lição de cor e o professor não o tinha interrogado, enquanto outros lamentavam-se que não tinham estudado nada e, por azar, o professor fez-lhes chamadas de avaliação orais! Um lamentava-se mesmo que “quando estudo nunca sou chamado e então quando não sei nada, com a lição em branco, zâz… estou lá cahido que ninguém me vale…”(id.).

Durante os intervalos, um motivo de grande discórdia entre os estudantes estava relacionado com os cigarros e com o vinho.
Como na altura era permitido fumar dentro dos recintos escolares, os jovens disputavam entre si os parcos cigarros que estavam à sua disposição. Um desses estudantes chegou a pedir um cigarro a outro: “Ó aquelle, dá cá um cigarro. - Não tenho mais, era uma beata que trazia no bolso…”. Ofendido, o estudante atira ao colega: “Deixa estar que nunca mais tornas a «pousar»… tu has-de bater á minha porta” !(id.)

Em relação ao vinho, um dos estudantes chegou a desafiar o colega: “ - Sabes quantas cana-das bebemos hontem? -Não; quantas?, respondeu o colega. - Cinco. Foi no Braga; eramos três e não sobrou nem gôta”. Esta conversa terminou com um sentimento de orgulho entre eles: “Ah! Sahimos de lá, mal podíamos…”!(id.)

Terminado o intervalo, marcado por toda esta alegria estudantil, lá regressavam de novo os alunos para mais 55 minutos de aulas e de… silêncio! Era assim que, há 100 anos, estes estudantes passavam o seu dia-a-dia no Liceu de Braga.
A terminar este texto, quero deixar aqui uma última referência.

A Escola Secundária Sá de Miranda, ex. Liceu de Braga, possui um grupo de funcionários de elevado profissionalismo e dedicação, cujas qualidades podem ser comprovadas por quem tem o privilégio de exercer funções neste estabelecimento de ensino. No entanto, quero destacar aqui aquele que foi, porventura, o seu funcionário mais dedicado. Trata-se de António Joaquim Ferreira Braga, que exerceu as funções de porteiro do liceu durante mais de 50 anos (toda a segunda metade do século XIX e inícios do séc. XX).

Quando faleceu, a 8 de Abril de 1904, com 80 anos de idade, ainda exercia essas funções. Foi um funcionário de grande dedicação, cujo reconhecimento foi feito por algumas gerações, quer de professores, quer de alunos deste estabelecimento de ensino.

1) Publicado no jornal ‘Echos do Minho’, de 4 de Julho de 1912

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