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Os olhos, convém abri-los

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Os olhos, convém abri-los

Voz aos Escritores

2019-11-08 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Estou como o Caeiro. Se, num dia de verão, abro a porta de casa, e espreito o calor dos campos com a cara toda, bate-me a natureza de chapa na cara dos meus sentidos. Mas atenção. Pessoa diz que não basta abrir a janela para ver os campos e os rios. É preciso, além disso, não se ter filosofia nenhuma. Abrir portas e janelas traz o sol, a natureza, aos nossos sentidos. Fechá-las, pelo contrário, costuma simbolizar a escuridão, o alheamento da natureza. Fechar, com efeito, significa fazer cessar o estado de aberto, normalmente com uma chave, uma aldraba ou uma tranca. Numa determinada gíria, fechamento é o que nos completa, nos dá a profunda luz interior, chamada «amor». Fechamento significa, também, cicatrização. Ao cicatrizar, a ferida deixa de o ser, e o corpo renasce para a vida. Entre fechar e abrir, o jogo simbólico move-se num labirinto: há quem feche as portas para renovar; há quem as abra para entardecer. Há ainda quem se enclausure, se encarcere, para cumprir processos de fé, para concluir decisões máximas de vida. Para bem compreender todos estes significados, procuro a origem da palavra. É muito difícil encontrá-la, mas deve ter andado pelo latim. Talvez se encontre no «fechar» espanhol, mas a «fecha» é a nossa data, e fechar significa datar. Aparentemente distante, pois, dos nossos significados. Fechavam-se os documentos, isto é, datavam-se, dando-se por concluído o que se havia dito. É uma explicação plausível, embora haja outras, não muito consistentes.

Com um gesto, rápido ou lento, se faz cessar o estado de fechado. Abre-se a porta e a janela, com ou sem filosofia, destapam-se panelas, abrem os cafés e as alas, as prendas e o gás, os buracos e as estradas, a caça e as conferências, as rosas e os sentimentos. De tudo o que abre ou se abre, as flores e os sentimentos, ao contrário dos muros ou dos airbags, são a supina representação do amor, desenhada em pétalas chorosas ou em flechas ferindo e pingando no dolorido coração. Como podemos abrir o coração a alguém, isto é, declararmo-nos sinceramente, ou desabafarmos, se há por ali uma ferida sangrando abundantemente? Como reage o outro perante todos os excessos, diante da inevitável tremura? Em condições ideais, abrir o jogo em explicitação de denúncias, em revelação de detalhes, pode conduzir a soluções eloquentes, ora no sentido do abraço, ora no da definitiva repulsão. Abrir os olhos, os nossos ou os de alguém, em alertas ou convencimentos, impõe-se como ação impreterível para a compreensão da vida. Andar na vida de olhos fechados, parecendo vantagem sublimadora, pode conduzir-nos a tristes becos sem saída. Convém abri-los, portanto, porque muros intransponíveis ou buracos fundos surgem-nos na vida de maneira muito rápida, exatamente entre o abrir e o fechar dos nossos tão sagrados olhos. Num abrir e fechar de olhos o que era bom se esvai; o que era mau, por artes da sorte, pode atingir as estrelas. Porque, como dizia Machado de Assis, de noite também se abrem flores.

O que significa, num contexto social narcísico, em que o «eu» se sobrepõe sistematicamente ao «nós», abrir mão de alguma coisa, renunciar ao que assumimos como nosso? Gosto daquele poema de Miguel Torga que se refere aos jovens como deuses, àqueles que se abrem à verdade: «E os jovens deuses abrem-se à verdade, sedentos de beber na mesma taça». Abrir-se ao mundo, aos outros, bebendo de uma taça comum, sentindo-se que o que é metafórico parte sempre do real, é, sintamo-lo assim, essencial à vida. Fechar pode, em formulação poética, abrir algum caminho. Mas é no abrir que a luz do sol se expõe. Procuremo-la, pois.

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