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Péssimo momento

O amor nos tempos da cibernética

Ideias

2013-03-28 às 06h00

José Manuel Fernandes José Manuel Fernandes

A UE aprovou instrumentos para resgate de Estados-Membros da zona euro, aumentou a supervisão, avançou para a União Bancária, caminhava para o reforço da solidariedade, da credibilidade e confiança das instituições bancárias… até que surge o resgate ao Chipre.
Falamos de um Estado-Membro com 1.1 milhões de pessoas e uma economia infimamente representativa, com um peso de apenas 0.2% do PIB da zona euro!

No entanto, a inépcia, a falta de bom senso, a decisão disparatada que pretendia taxar os depósitos abaixo dos 100 mil euros, quando estes estão protegidos por legislação da UE, revelou-se um acender de rastilho de consequências desastrosas.

Impressiona-me e preocupa-me que os Ministros das Finanças da zona euro, presumidamente técnica e politicamente competentes, não tenham visto o óbvio. Era evidente que taxar depósitos abaixo dos 100 mil euros gerava desconfiança em todo o sistema bancário e violava as normas da UE!

Não imaginaria esta tomada de decisão que não é alheia ao facto do Eurogrupo ser presidido pelo ministro das finanças holandês, que já se disse e desdisse várias vezes relativamente a este assunto, chegando a afirmar que a solução para o Chipre podia ser usada noutros Estados-Membros, para de seguida se desmentir. A confiança no sistema bancário leva um forte rombo e demorará até que se aviste uma recuperação.

Se a União Bancária estivesse em vigor, seriam os próprios bancos a serem financiados junto do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE).

O Eurogrupo e Chipre, depois de vários impasses, chegaram a acordo. Haverá um empréstimo de 10.000 milhões de euros e Chipre reestruturará o sector bancário - reconvertendo activos, reestruturando e recapitalizando os bancos em eminência de falência - e taxará com altas taxas os depósitos acima de 100.000 euros. Recorrerá para tal ao auxílio do BCE, ao contributo dos stakeholders dos bancos, a um fundo de investimento criado para o efeito e à restrição da circulação de capitais.

Com a solução de se taxar os depósitos, o que se alega é que se pretende internalizar os custos de falência bancária nos próprios bancos, utilizando os respectivos depósitos para não penalizar os contribuintes cipriotas e europeus. Há ainda um argumento de ordem moral: penalizar os investidores, sobretudo russos, que usaram os bancos cipriotas para lavagem de dinheiro. Mas a solução encontrada não é boa, nem a menos má, porque não é justa nem a melhor.

Acaba por ser uma solução remediada, mas que mantém a desconfiança no sistema bancário, algo que nunca deveria ter sido posto em causa. Para que fossem os bancos a suportar os seus erros, devia-se ter penalizado os bancos, os seus accionistas e credores, e não os seus depositantes. Mais uma vez, ficamos aquém de uma decisão ajustada. É evidente que as falências desordenadas dos bancos cipriotas seriam desastrosas e contagiantes e que um resgate que fosse feito com o endividamento do Estado cipriota seria incomportável, pois colocava a dívida pública na ordem dos 200% do PIB.

As autoridades europeias e cipriotas estavam já há muito alertadas para a possibilidade de lavagem de dinheiro no país, bem como o peso excessivo da banca cipriota (cerca de 800% do PIB do país). Adicionalmente, a excessiva exposição dos bancos cipriotas à dívida grega acarretou perdas nefastas, na ordem dos 4,5 mil milhões de euros. Agora, muitos justos pagarão pelos pecadores.

A UE vive um péssimo momento.
A Alemanha está concentrada nas eleições de Setembro e está em alerta perante a recolha de assinaturas para a construção de um partido denominado a 'Alternativa para a Alemanha', liderado por um economista (ex-membro do partido de Angela Merkel), que sendo apoiado por celebridades que tiveram cargos relevantes, pretende igualmente abolir o euro. Uma sondagem recente mostrava que 26% dos alemães apoiam a saída do euro, por considerarem-se injustamente incumbidos de pagar os resgates. Caricato será também pensar que 60% dos cipriotas queriam igualmente abandonar a moeda única.

Em Itália, a instabilidade governativa levará a novas eleições. Portugal, Grécia e Irlanda estão sob assistência financeira e a Espanha está também dependente de ajuda externa e com um crescente descrédito das suas instituições. O Reino Unido está a ceder ao populismo e manifesta atitudes que raiam o racismo e a xenofobia. O primeiro-ministro David Cameron anunciou medidas de restrição para os imigrantes, começando pelos comunitários, no que respeita aos apoios sociais e ao sistema de saúde, o que considero que viola as normas comunitárias. A França, por sua vez, está em declínio e o prometido crescimento económico do Sr. Hollande não se vislumbra.

A solução seria o federalismo, mas as opiniões públicas não estão para aí viradas, até porque os sucessos da UE são sempre nacionalizados e os insucessos europeizados.
Resta esperar que Setembro chegue depressa, ou seja, pela reeleição da Sra. Merkel, e ter esperança que depois disso possamos obter sensatas soluções europeias.



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Gosto

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