Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Pranto do Céu, Sopro da Fúria

O exemplo do “livro de obra” …

Voz aos Escritores

2019-03-29 às 06h00

Joana Páris Rito

“Deus, atento ao mau comportamento da Humanidade, inunda a Terra e destrói a vida”.
O mar a vomitar, mar de vísceras revoltosas, indigestas de detritos tragados, águas de níveis sobrelevados, pelo sobreaquecimento da Terra provocados, pelos milhões de troncos decepados, pelas riquezas dos solos em poluentes transformados.

Vi bátegas de lágrimas pelo Céu derramadas. Carpir que não cessava. Choro que pela Terra se alastrava. Águas que tudo lambiam, águas que tudo engoliam. Caminhos tornados riachos, estradas tornadas rios, as águas subiam, subiam, subiam. Um mar barrento, um oceano de devastação, sem fim o tormento, sem fim a estupefacção. Os rios Púnguè e Búzi transbordavam, as margens galgavam, na enxurrada tudo acarretavam.
Vi corpos pela correnteza levados, vivos desesperados, de braços ao Céu erigidos, como crentes que rezam, como náufragos desvalidos. Moçambique, terra sem dique. Beira, terra sem eira nem beira.
Vi afogados em capulanas amortalhados. Barcos improvisados, jangadas atulhadas, frigoríficos adaptados, à mercê da aleivosa maré empurrados. Neles navegantes seguiam, marinheiros à pressa forjados, homens, mulheres e crianças sem norte, a fugirem à perseguição da morte.

Vi ilhotas de telhados povoados, gente acocorada, nos ramos altos empoleirada, em postes agarrada, restos da civilização, gente à espera da salvação. Pássaros de ferro que as sobrevoavam, as redes à gente lançavam, peixes agitados da maré enchente, cardumes que não sabem nadar a afastar o medo de voar, gente que se quer salvar, ir para outro lugar, a gritar socorro, a gritar, a acenar, a implorar.
O Céu estancou o pranto mas não cessou o quebranto. As colheitas arruinadas, as casas desmoronadas, as comunicações anuladas, a energia cortada, o saneamento bloqueado, a água infectada. Ricos e pobres no mesmo patamar, nada há a comparar, nada há que comprar. Ricos a sofrerem, pobres a padecerem, lado a lado ajoelhados, depois das chuvas, depois dos ventos, do resto do mundo apartados. As catástrofes naturais colocam os homens na rasura da sobrevivência, apontam-lhes o lugar de meros mortais de alma penada, subjugados à Mãe Natureza magoada.

Vi a ajuda humanitária a chegar. Filas imensas para o pão. A população tem fome. A população tem sede. A sequidão é tanta que bebem de toda a fonte, bicas de água inquinada pela cólera ameaçada. Urge a prevenção de epidemias, dos vómitos, febres e diarreias. Urge tratar dos feridos. Nos pântanos proliferam mosqui- tos, espreitam a malária, o dengue, a leptospirose, maleitas que crescem após as cheias. Urge a vacinação. Urge o consolo, a ajuda, a rendição.

Vi abrigos de gente amontoada, gente sem nada que em trapos se secava. Homens e mulheres das águas emergidos, águas pelos pescoços, nos ombros os filhos erguidos. Ecoam as histórias dos desaparecidos, dos falecidos, dos enterros dos entes queridos, corpos inumados em terra lodosa, a morgue lotada rodeada de gente abnegada, nação lacrimosa, terra desditosa. Na catedral Ponte Gea rezam-se missas pelas vítimas do Idai, suplica-se, E dai-nos, Senhor, a bonança, E dai-nos, Senhor, a abastança, E dai-nos, Senhor, a esperança.

Vi uma menina a estender as páginas soltas dum livro, único bem resgatado à desgraça, asas brancas a negro caligrafadas, ao vento esvoaçadas, pelos dedinhos pinçadas, sonhos que não quis afogar, histórias de alento onde se agarrar, de porvires a alcançar.

Vi uma mulher a dar à luz nas trevas. Uma menina a mulher deitou à Terra. Uma menina cujo choro inaugural nos inundou de confiança, nos mostrou que há vida para além da provação, há vida para além da desilusão. Uma menina que nos leva a questionar que Mundo aos nossos filhos queremos legar, Terra Mãe que estamos a estragar, filhos ingratos que a estamos a despedaçar. Homem é bicho que cospe na mão que lhe dá de comer. Homem é bicho que renega o colo que o fez nascer, o alimentou no crescer, lhe doou sombra, lhe doou refúgio, lhe doou de beber.

Vi-me de rosto alagado, pelas lágrimas ameigado, o corpo enlutado, o corpo tremente, o ouvir dum crente, a entrega do penitente que a voz de Deus pressente:
“Quando Eu cobrir de nuvens o céu e aparecer um arco-íris, lembrarei da aliança que fiz com os homens e os animais. E assim não haverá outro dilúvio que destrua todos os seres vivos e as gerações futuras.

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