Correio do Minho

Braga,

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Prendas

A força do martelo

Ideias

2018-12-26 às 06h00

Vítor Esperança Vítor Esperança

Dia de Natal. Sente-se ainda no ar o ambiente da festa da noite de segunda-feira, festa feita na intimidade da família onde a ceia centra justificação de união, antecedendo o momento das prendas ansiosamente aguar- dado pelos mais pequenos.
A religiosidade de outros tempos tinha na “missa do galo” o remate da véspera da noite de Natal, deixando a distribuição de prendas para a manhã seguinte. Este costume que foi sendo substituído, em igual horário, pelo momento da chegada do “Pai Natal”, figura que hoje também vai perdendo protagonismo em favor da oferta, ou troca direta, de prendas adquiridas durante as últimas semanas.
Natal é sinónimo de prendas confirmando-se assim a afirmação que o Natal é a festa do comércio. Braga é uma das cidades premiadas com tal título, mas toda a localidade que se prese, participa nesta euforia de festa.
As luzes e decorações espalham-se pela cidade desde o início de dezembro, convidando todos a passeios pelas ruas, numa ardilosa forma de tornar os produtos expostos nas montras, em belíssimas e irresistíveis prendas de Natal.
Natal e prendas sempre andaram juntos, pelo menos, desde que as escrituras nos relatam a visita dos Reis Magos a Belém. Dos tempos em que as prendas eram oferecidas apenas aos “eleitos”, foram depois sendo beneficiadas as crianças das famílias com orçamentos mais desafogados, até aos dias de hoje, onde felizmente as prendas se tornam acessíveis a milhões.
No Natal da minha meninice sonhávamos com a prenda do “menino Jesus”, esperando boa avaliação do nosso comportamento. Apesar das dúvidas, irradiávamos de alegria no momento em que eramos convidados a deixar os nossos sapatos junto ao presépio. A ansiedade era tanta que só forçados íamos para a cama, pois das prendas só na manhã seguinte estávamos autorizados a aceder.
O dia seguinte seria um dia muito mais feliz. Acordávamos cedo e cheios de energia para ver a sorte que os nossos sapatos nos endereçavam.
Vivi ainda em criança a substituição da origem das prendas do “menino Jesus” para a figura do “Pai Natal” de quem se esperava resposta positiva às cartas que lhe enviávamos com a pureza da ingenuidade.
Quando soube a verdade sobre quem era o “Pai Natal” senti a primeira desilusão, apesar da felicidade em receber as prendas escolhidas pelos meus pais.
As prendas de Natal tinham um sabor muito especial, nem sempre doce, porque recebida em disputa com as dos irmãos e outros familiares. Tudo era ansiedade e felicidade.
Os tempos mudam os costumes, e dum tempo em que as prendas privilegiavam as crianças, passamos para uma época em que se dá prendas a todos, para de todos recebermos igual retorno.
A sociedade de consumo fixou novos costumes. Há que comprar prenda, de preferência barata, objetivo que certamente saberemos aproveitar num dos “black friday” promovidos algures por aí. É bom lembrarmo-nos também de nós, até porque temos necessidade disto, daquilo, ou apenas a astucia de julgarmos saber aproveitar a boa oportunidade das promoções.
Prendas!
Todos gostamos de receber prendas, apesar da prenda se ter banalizado um pouco na ilusão da fartura económica em que hoje vivemos.
Dar prenda deixou de ser uma oportunidade de premiar ou reconhecer outrem, para passar a ser também ela uma moda.
A raridade da prenda dava-lhe o sabor da exclusividade e a escolha do seu valor o reconhecimento sentido do ofertante.
Dar uma prenda é uma distinção material que fazemos a quem gostamos.
Oferecer prenda exige esforço de perda do valor que transferimos de nós para os outros, esforço que varia em função da posse de quem a oferece e da qualidade ou mérito de quem a recebe.
Tudo isto foi sendo possível, não porque nos tornássemos todos muito ricos, mas porque foi possível encontrar prendas para cumprir a obrigação de adquirir uma espécie de bilhete de acesso de participante aos festejos de Natal.
Mas no Natal somos todos merecedores de prendas e neste mundo de abundancia o problema do esforço da compra parece ter diminuído.
Parece pois que muita coisa vem mudando: Muda a qualidade da prenda; muda a distinção da sua escolha; muda a alegria do prémio recebido. Da qualidade ou mérito atribuída a poucos, passou-se à universalidade do direito a receber. Primeiro fomos abastecermo-nos nas célebres, mas já extintas, lojas dos 300. Depois vieram as lojas dos Chineses. Agora, não falta quem venda pechisbeques tipo para turistas de segunda. Bom para todos, menos para o valor da prenda. Mantem-se todavia o ambiente de festa, e nesta, como símbolo de referência, o seu jantar. Hoje em dia, não há empresa, associação, clube, grupo de amigos ou grupos disto e daquilo que não tenha o seu jantar de Natal. Natal sem prendas não existe e por isso, ali todos têm o direito a oferecer e a dar prenda.
Se assim é. Assim seja. Prendas e mais prendas.
Apesar de tudo a prenda transporta em si mesmo momentos de felicidade que somado à alegria da festa nos ajuda a ser melhores seres humanos.
O Natal é para vivermos a Felicidade que os tempos de paz nos permite, a fraternidade da família nos oferece a proximidade dos amigos nos distingue.
Neste Natal, ofereçam amizade, amor e carinho. Prendas também.
BOM NATAL !

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