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Professores de primeira e professores de segunda

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Professores de primeira e professores de segunda

Voz aos Escritores

2019-05-03 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

As Atividades de Enriquecimento Curricular são uma pedra no sapato do sistema educativo, há anos, por diferentes motivos.
Foram pensadas para preencher os tempos livres das crianças do 1º ciclo, numa escola de massas e para massificar o tempo, enquanto os pais trabalham cada vez mais e não têm onde deixar os filhos, numa sociedade estruturada para a produção, competição e resultado. Tudo e mais qualquer coisa, menos para a família e para a criança.
Com mais ou menos teor lúdico, elas existem há mais de uma década, com os professores contratados a terem de ter a mesmíssima licenciatura e competências adquiridas, a terem de preparar as aulas e materiais, atividades diversas, fazer avaliações e todos os trabalhos inerentes à atividade docente. No entanto, na maior parte dos casos, trabalham pouco mais de meia dúzia de horas por semana porque, como o horário dos professores titulares de turma, por algum motivo, é sagrado, só podem lecionar a partir das 15h30 ou 16h00. Sim, todos sabemos que as aulas da manhã rendem mais em termos de trabalho e de concentração. Mas as restantes poderiam ser mais flexíveis. Noutros casos, ou noutras Câmaras, onde os horários são de facto maleáveis, estes professores conseguem chegar às 12 ou 15 horas de trabalho semanais. Depende das Câmaras Municipais. E das escolas também.
Na sua maioria, ganham pouco mais de 200 euros, o que mal dá para cobrir as despesas de deslocação (manutenção automóvel e combustíveis). Nem vou entrar pelo discurso dos recibos verdes versos contratos, a contagem do tempo de serviço, conforme estão numa situação ou noutra. As injustiças inventadas ao minuto, contadas na mesquinhez da vida.
Muitos trabalharam e trabalham por adorarem ensinar e não se verem a fazer outra coisa. Aquele vício de algo inexplicável que muitos têm, por combustível o brilho da descoberta e da conquista nuns quantos pares de olhos que se deparam à frente. Muitos para acumular um bocadinho de tempo de serviço na esperança de entrarem no concurso de contratação. Muitos desistiram. Todos tiveram a vida suspensa, anos e anos, na ilusão de qualquer coisa ou no desgaste de algo que se perdeu pelo caminho. Quantas vezes, a vida estraçalhada. Espalhada em memórias pelos cantos de Portugal.
A batata quente passou do governo central para as autarquias, por tuta e meia de apoio que não chegou nunca para cobrir as necessidades.
Algumas autarquias agarraram o problema e fizeram dele uma prioridade e geriram da melhor forma que conseguiram com os recursos disponíveis e recursos que foram buscar a outras áreas. Outras não. Prolongaram e agonizaram o problema. Surgiram empresas como cogumelos para cumprirem estas horas, num sistema de sub-contratação. Há turmas do 1º ciclo que têm 3 professores diferentes para a mesma disciplina, no mesmo ano. Um para cada dia da semana em que os alunos têm a referida disciplina. Nem sei o que comentar sobre esta situação. Acho que fala por si.
Tentaram depois passar a batata quente para os agrupamentos, o que também não resultou. Agora têm falta de professores. Não conseguem contratar professores para as necessidades. Nem imagino porquê. As ofertas devem ser tão generosas que só um louco as poderia dispensar.
Às Câmaras regressa agora a batata quente. Pelo menos, cá em Braga. Até quando este jogo do empurra, quando poderia ser resolvido com simplicidade e sentido prático? Até quando esta divisão entre professores de primeira e professores de segunda? Isto beneficia alguém?
Só num país incoerente e injusto poderá haver cidadãos de primeira e de segunda. Seja em que profissão for. Seja em que contexto for.
E para quando olhar para as pessoas como pessoas e não como números?
E pôr a criança em primeiro lugar?
E a família?

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