Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Projeto InterComuniCare: uma transformação na saúde mental

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Escreve quem sabe

2019-01-15 às 06h00

Analisa Candeias

Viver de forma integrada e plena na comunidade que nos rodeia. Produzir de forma útil e sustentável. Sentir bem-estar e qualidade de vida nos nossos processos de transição em saúde. Sentirmo-nos acompanhados. Sentir que não nos encontramos sozinhos. Sermos responsáveis e podermos ser responsabilizados. Não deveriam ser estes pressupostos gerais para todos nós? Mas, no fundo, será que são?
Vivem-se dias difíceis no âmbito da saúde mental e da psiquiatria. Em geral, os portugueses encontram-se mais ansiosos, mais deprimidos e com elevadas taxas de demência. Encontram-se ainda sob o efeito de psicofármacos, em especial as crianças e os adolescentes. E isto tudo não sou eu que digo apenas por capricho – são dados estatísticos que fazem parte da informação disponibilizada pelos relatórios relativos ao Programa Nacional para a Saúde Mental. Não estamos piores em relação a alguns indicadores avaliados há uns anos atrás – os internamentos diminuíram, os registos ao nível dos serviços de saúde aumentaram. Estamos apenas a conhecer dados que nos permitem olhar para o presente com alguma apreensão e trabalhar para o futuro com maior afinco.

Mas, afinal, o que é isto da saúde mental? A Organização Mundial de Saúde define este conceito (no seu site) como um estado de bem-estar pelo qual todo o indivíduo realiza o seu potencial, apresenta estratégias de coping perante as adversidades normais da vida, trabalha de forma produtiva e frutífera, e é capaz de realizar uma contribuição para a sua comunidade. Difícil, não? Perante esta definição, será que todos nós conseguimos, em todas as etapas da nossa vida, ter uma adequada saúde mental?
São interrogações que deixo para reflexão, não para responder com fórmulas ou receitas que, muitas vezes, atrapalham as nossas próprias vivências. O que é certo é que existem pessoas com doença mental que vivem processos de transição de saúde/doença e que necessitam do nosso apoio. Tanto da comunidade geral como da comunidade de saúde. E é para elas que nós, os profissionais de saúde que trabalham em saúde mental e psiquiatria, nos esforçamos por aprender mais, tentando ajudar a melhores resultados e, consequentemente, a maiores ganhos.

Foi neste contexto que surgiu o Projeto InterComuniCare*. De uma parceria entre a Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho e a Casa de Saúde do Bom Jesus (Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus) foi desenvolvido um projeto de intervenção clínica e investigação que pretende trazer para a esfera da saúde mental resultados concretos, em especial no que diz respeito ao recovery da pessoa com doença mental. O recovery é um processo individual, único e que diz respeito à pessoa com doença mental que se encontra em transição para a comunidade, habitualmente após um internamento.
Em português, recovery significa recuperação e devia ser visto como isso mesmo: um recuperar de períodos menos bons de vida. Todos nós temos desafios e ameaças nos nossos quotidianos, mas também temos potencialidades e capacidades – que devem ser todos equilibrados durante o processo de recovery. Existem algumas palavras associadas a este processo que merecem algum destaque: esperança, controlo e oportunidade. Esperança com visão para o futuro, e a expetativa para que a mudança apresente sucesso; controlo sobre as dinâmicas e o desenrolar das situações, tendo em vista a utilização de competências individuas; e oportunidade para transformar, para renovar o que se encontra menos adequado.

O InterComuniCare foi desenvolvido durante 18 meses por uma equipa multidisciplinar. Esta equipa é composta por enfermeiras especialistas em saúde mental e psiquiatria, enfermeiras generalistas, psicólogas e uma assistente social. Para mim são a Ermelinda, a Filomena, a Ana, a Bárbara, a Carla, a Sílvia, a Catarina, a Irene e a Antónia – uma equipa bem formada no feminino, da qual também faço parte, composta por gente que trabalha na área académica e na área clínica. Fomos todas necessárias, aprendemos umas com as outras, mas, acima de tudo, aprendemos muito mais com as pessoas com doença mental que acompanhámos durantes os meses de intervenção domiciliária que realizámos. Sim, porque foi-nos permitido entrar na intimidade de cada um daqueles que aceitaram trabalhar connosco - e nos concederam o privilégio de assistir os seus processos de recovery.

A aposta na saúde mental e na assistência da psiquiatria deve ser aumentada. Os ganhos a médio e a longo prazo serão prova disso, em especial se a aposta for realizada através da operacionalização das políticas de saúde públicas e da promoção da formação de profissionais de saúde com especial dedicação ao tema. Sim, vivem-se tempos difíceis – mas o InterComuniCare veio provar que não são, de todo, impossíveis de gerir.
*Este projeto foi avaliado, aprovado e financiado pela FCT - Fundação para a Ciência e Tecnologia, e desenvolvido no âmbito do projeto (NORTE-01-0145-FEDER-023855), cofinanciado pelo Programa Operacional Regional do Norte (NORTE 2020), através do Portugal 2020 e do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER).

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