Correio do Minho

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…Que não se muda já como soía…

“Novo tabaco” mata 600 mil crianças por ano

Escreve quem sabe

2018-10-10 às 06h00

José Hermínio Machado

Em Busca do tempo Perdido, foi leitura a que me dediquei a partir desta perspectiva de compreender a génese e o desenvolvimento de tradições no interior do movimento da contemporaneidade, ou seja, li a obra de Proust não tanto para compreensão de amores e desamores, mas por saber que o autor desenvolvia as histórias no interior de uma progressiva transformação social, fazendo emergir os valores de uma época e os de outra. Mostrando, nuns casos, entusiasmos rasgados pelo presente e pelo progresso que se anunciava - a obra de Proust testemunha o aparecimento do telefone, do automóvel, do avião, bem como testemunha as mudanças no vestuário e na urbanidade, - e mostrando, noutros casos, a reorganização de valores, numa espécie de procura de meio-termo, Proust tem recortes que nos ajudam à compreensão dos movimentos contemporâneos da animação cultural contemporânea. Tome-se o caso: «Os homens inteligentes e os artistas acharam Siena, Veneza, Granada uma chatice, e diziam de qualquer ônibus e de todos os vagões: - Isto é que é belo! - Pois esse gosto passou, como os outros. Nem mesmo sei se não se voltou ao "sacrilégio de destruir as coisas nobres do passado". Em todo caso, um vagão de primeira classe deixou de ser considerado a priori como mais belo que São Marcos de Veneza.»

Nesta citação, se o leitor mudar o ónibus pela parafernália tecnológica contemporânea, ou se o leitor se atrever a considerar o evento Web Summit, encontrará aqui este movimento tão necessário de saber ponderar vantagens, ganhos e perdas, na consideração dos factores do nosso desenvolvimento. Outra citação para ajudar: «- Como se chama esse seu casaco de tricô vermelho? É muito bonito. - Ela respondeu: - É o meu golfe. - Pois, devido a uma degradação costumeira a todas as modas, as roupas e os ternos que, alguns anos antes, pareciam pertencer ao mundo relativamente elegante das amigas de Albertine, eram agora usados pelas operárias.»

A migração dos valores materiais e simbólicos, como as roupas, os estilos de vida, a frequência de espaços, as decorações, as músicas e as danças, testemunham as transformações sociais, complexificam os paradigmas da estabilidade das representações. A procura de coerências apertadas entre os modos de vida e os seus estilos de ser e de estar nem sempre é trabalho conseguido e pode mesmo questionar-se a sua validade. As integrações, os recuos, os abandonos, as retomas, os empréstimos, as misturas, as cópias, as transgressões, deixam rastos por tudo quanto é gente e lugar de trabalho. Só mais uma, para terminar: «De modo que essas balbúrdias populares dos dias de festa são para o indivíduo voluptuoso tão preciosas como, para o arqueólogo, a desordem de uma terra onde uma escavação faz surgir medalhas antigas.» Diremos que precisamos de causas que nos garantam a adrenalina diária, a vibração entusiasmante para nos superarmos, sejam as dinâmicas festivas, sejam as redescobertas de valores deixados ao tempo, sejam as palpitações que emanam do progresso tecnológico, sejam as que emergem da retoma de tesouros redescobertos. Onde andará a virtude do sossego e onde estará o tempero dos desassossegos é que todos somos sempre convidados a fazer e a mostrar bem.

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