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Rios de betão e asfalto

Dar horas ao patrão

Rios de betão e asfalto

Escreve quem sabe

2019-11-08 às 06h00

Jorge Dinis Oliveira Jorge Dinis Oliveira

Foz, nascente, ribeiras, leito, margens, água, sedimentos e leito de cheia. Por todos estes elementos e mais alguns é constituído um Rio. Um ser vivo que molda e se adapta ao meio. Cidades e civilizações nasceram nas margens dos rios, obtendo deles transporte, alimento, rega e fertilização dos solos. Cidades e civilizações inteligentes que souberam aproveitar, para benefício dos seus cidadãos e cultura, todas a virtudes que um rio tem para oferecer.
Cidades modernas continuaram o seu crescimento e, nesse processo, leitos de cheia constituídos por solos residuais, argilas, areias, seixos e conglomerados, foram sendo substituídos por camadas de brita, tout venant, betão e asfalto. Vegetação e solos presentes nas margens e leito foram sistematicamente removidos e substituídos por betão e estruturas antrópicas.

Fomos ocupando solos cuja aptidão não se destinava à construção de habitações e descartaram-se preocupações relativamente a condicionantes geológicas, geomorfológicas e hidrológicas.
Toda esta intervenção nos leitos de cheia, juntamente com a artificialização das linhas de água, provoca aumentos na velocidade de caudal, maiores processos erosivos, maior escoamento superficial, diminuição da taxa de infiltração das águas pluviais, aumento da vulnerabilidade à poluição e aumento da frequência e magnitude de cheias e inundações fluviais.
Braga, para o bem e para o mal, inclui-se neste grupo de cidades modernas. Sabemos que a hidrografia do concelho de Braga é caracterizada pelo rio Cávado e pelo rio Este, sabemos que o território é densamente povoado e densamente betonado e sabemos também que os meses de maior precipitação são dezembro, janeiro e fevereiro. Não poderá então ser surpresa para ninguém que os processos de cheia ocorram preferencialmente durante os meses de maior precipitação.

A construção não planeada juntamente com o uso indevido dos solos, aumentou consideravelmente a vulnerabilidade do rio Este perante a ocorrência de fenómenos de precipitação perfeitamente normais. Não é o processo natural da cheia que causa impactos mas sim a intervenção antrópica relacionada com a expansão urbana e progressiva impermeabilização dos solos e remoção da cobertura vegetal.
Os danos causados pelas cheias não podem ser imputados às alterações climáticas ou a um qualquer país poluidor distante mas sim a processos de decisão locais. Os decisores e executantes das desajustadas políticas de urbanismo caminham entre nós e os seus efeitos, visíveis anualmente, não são de fácil resolução.

Enquanto cidadãos não nos podemos também refugiar na responsabilidade alheia pois permitimos a implementação de políticas que ignoram saberes milenares acerca das diferentes fases e humores do rio.
Poderemos considerar Braga como uma cidade inteligente quando o rio Este foi todo ele submetido às vontades urbanísticas e nem os efeitos negativos visíveis conseguimos prevenir ou mitigar?
A inteligência de uma cidade não se deve medir somente pela quantidade de passadeira luminosas que possui ou pelo número de aplicações móveis por habitante mas também pela capacidade em compreender, aceitar e aproveitar os processos naturais das suas ribeiras e rios.

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