Correio do Minho

Braga, sábado

- +

Secretas, parcerias e promiscuidades

Lance de charme

Ideias

2012-06-22 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

O que tem vindo a ser noticiado sobre os “trabalhos” dos serviços secretos, políticos e jornalistas é demasiado Kafkiano para que possa ser ignorado ou esquecido.

E tudo isto se iniciou com o processo contra Silva Carvalho, um ex-director do SIE que não só se teria prestado a colher e a fornecer relatórios e informações sobre pessoas e empresas do interesse do seu actual patrão como ainda teria mantido depois contactos com certos elementos das secretas a quem solicitaria alguns dados. Um “ex-espião” que, com uma esperteza nada saloia, foi fazendo pela vida numa preparação do Amanhã como aliás é usual em quem ocupa ou ocupou certos lugares do poder.

Claro que naturalmente, não obstante a recente decisão(!?) da ERC, não será facilmente esquecida a canção desde logo entoada de um «Ó (R)elvas ó (R)elvas, demissão à vista» devido às suas suas relações com o tal “ex-espião”, aliás enrodilhadas numa trama de conhecimentos, encontros, SMS e influências mas sugerindo de todo uma nebulosa e promíscua parceria entre “secretas-política-interesses privados”.

No fundo o tal “ex-espião”, com aspirações a secretário-geral do SIRP e que manteve seus contactos, amizades e apoio logístico nas “secretas”, teria sugerido até nomes para certos cargos e usado os seus contactos e influência para obter relatórios e informações de interesse para a sua nova empresa, cujo patrão, agora também arguido, desde há muito estaria de candeias às avessas com Balsemão e a “Impresa”.

E nessa luta de interesses privados teriam sido usadas as secretas sob a égide do dito “ex-espião” numa recolha de dados pessoais de algumas personagens, o que revelou toda uma “promiscuidade entre serviços de informação, poder político e poder económico” (Heloísa Apolónia, JN, 31.5.12) e fez engrossar toda uma discussão política sobre uma perversa proximidade entre Relvas e Silva Carvalho.

Aliás as audições no Parlamento, alimentando insinuações, contradições, palavras soltas, discussões e acusações políticas, a par de “explicações” truncadas e pouco convincentes, só fizeram “crescer” todo um ensurdecedor arruído que logo se agravou com o facto de uma jornalista se ter queixado de o Relvas a ter ameaçado com a revelação na NET de dados da sua vida privada.

E de imediato se falou em condicionamentos e ofensas ao direito de informação, envolvendo-se a própria ERC em audições e decisões controversas, discutíveis e nebulosas, como a que acabou por tomar transmudando as ditas ameaças e pressões sobre jornalistas em algo de lícito (!), ainda que inaceitável do ponto do vista ético-político.

Mas a verdade é que tudo continua mal explicado, alimentando interrogações, dúvidas e perguntas sem resposta, até porque o conselho da redacção do jornal se demitiu, tal como a jornalista, esta desavinda com a directora. Estranhamente, note-se!.

Aliás se é compreensível que uma jornalista seja teimosa, tenaz, embirrenta, apressada e pegajosa na obtenção de uma resposta do ministro já não se compreende nem se aceita que ele tenha perdido a paciência, a ameaçado ou exercido pressões, muito embora ainda continue muito nebuloso o que real e efectivamente aconteceu entre os dois, mormente o que teria realmente incomodado a senhora. Os factos conhecidos do Relvas teriam sido obtidos graças ao“ex-espião”?

Tendo sido assim, então o caso é mais complexo e intrincado já que nos dossiês do dito processo (além doutros mandados destruir pelo MP “por ausência de suspeitas de crime, e para salvaguardar a exposição pública de dados pessoais dos visados” ( id.)) haveria intromissões, averiguações e devassas sobre a vida privada e profissional de jornalistas e empresários da comunicação social, a par de “perfis de figuras públicas que incluíam, entre outras informações, detalhes da vida privada incluindo preferências sexuais”. Aliás um pequeno “pormenor”, mas incómodo e muito perverso !...

Claro que jornalistas pegajosos, insistentes, tenazes, “doentiamente” embirrentos e persistentes é o pão nosso de cada dia, para mais em tempos de crise, recibos verdes e de luta por “novidades”, “escândalos” e “cachas”, mas impõe-se que sejam mais “higiénicas” e menos “promíscuas” as relações entre políticos e jornalistas, muitas das vezes travestidas em “parcerias” para lançamento de factos, revelação de segredos e propaganda , com o que se evitariam muitos problemas, discussões sobre a liberdade e o direito à informação, queixas à ERC e suas “ridículas” intervenções.

Mas são tais os “detalhes” e “avanços” das secretas, resvalando para áreas de íntimas “curiosidades” e “preferências”, que se torna imperioso toda uma cuidada reserva e uma profunda reflexão sobre as “monstruosas” perigosidade e perversidade duns serviços de informação no quadro dos direitos das pessoas.

E quanto às ditas “parcerias” entre políticos e jornalistas, em que alguns são piores que carraças, há que não perder a cabeça nem resvalar para ameaças ou atitudes insultuosas, e sobretudo nunca “responder” e “saudar” com a grosseria soez de um tal Lisboa num pavilhão desportivo, algo nunca censurado pelos Vieiras e seus acólitos!...

Um hábil silêncio, um ignorar da pergunta, um desviar da questão ou uma oportuna retirada serão sempre preferíveis a qualquer atitude menos respeitosa, correcta ou curial, até porque não deixarão nunca de existir tais parcerias e promiscuidades, algumas “intimidades” e certas “preferências” . Tal como decisões ridículas, questionáveis e controversas duma qualquer ERC a ilibar os Relvas do país transmudando quaisquer ameaças e pressões sobre jornalistas em atitudes lícitas (?!), ainda que inaceitáveis sob o ponto de vista ético-político.

E esta hem !?..., como diria o saudoso Fernando Pessa.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

14 Dezembro 2019

Neutralidade Carbónica 2050

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.