Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Segredos, secretas e secretos

Muro de Gelo

Ideias

2011-10-28 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

Afinal tudo não será mais do que uma simples e banal “disfunção” morfológica e fonética num quadro de evolução gráfica e de género devido a uma incontornável interligação e inquestionável afinidade entre vocábulos. Actualmente muito na berra, reconheça-se, gerando mesmo indisfarçável e sentida preocupação dos nossos políticos e de todo um povo. Aliás se não causa estranheza toda uma preferência gastronómica por uns bons “secretos” de porco preto, bem temperados e habilmente preparados, já as secretas e os segredos de Estado e da política, “cozinhados” sempre no esconso “lume”do poder e do governo, não deixando de assustar, são sempre preocupantes.

Aliás a interligação e afinidade entre tais vocábulos não só subsistem por si como até de todo se compreendem e explicam pois os “secretos” do porco preto, por sinal bem apetitosos, logo nos fazem evocar as secretas, segredos e “secretos” da “porca” da política, de que fala o povo, com suas tetas a serem sugadas avidamente pelos mil e um “ bacorinhos”e outros mamões que assim se sustentam, fazendo vida.

“Secretas”, diga-se, que com os seus próprios segredos e toda uma muito específica, discutível e controversa forma de se imiscuir na vida dos cidadãos averiguando, recolhendo dados e “espiando” no interesse do Estado e para sua defesa (será mesmo assim?!...), vêm sendo actualmente objecto de forte discussão, indignação e perturbação não só por poderem pôr em crise segredos de Estado e sua segurança, mas ainda porque, para além albergar “quebras” e “fugas” em secretismo, fiabilidade e fidelidade, muitas das vezes desaguam em abusos e falhas no concreto da sua acção, violando direitos, suscitando dúvidas, alimentando preocupações e ... perturbando.

E se é natural e compreensível a preocupação de certos deputados que querem ir mais além nos seus poderes de fiscalização e “entrar” no conhecimento e controlo dos próprios segredos de Estado, muito mais natural é o receio, quase feito certeza, de que todos estamos a ser “esventrados” nas nossas privacidade e intimidade pelas secretas, que, aqui e ali, extrapolando da própria natureza e limites da função, diz-se, não apenas teriam indevidamente dado umas “dicas” e passado “informações” a quem não deviam como ainda teriam vindo a “escutar” ilegalmente quando não o podiam fazer.

Aliás os segredos das secretas são de tal forma secretos ( não confundir com os “secretos” de porco !...) que a audição parlamentar de um antigo chefe das secretas, hoje já na empresa a quem teria fornecido informações colhidas na sua actividade, até foi à porta fechada, tão só nos interrogando sobre quanto tempo temos de esperar ainda que um dos deputados da comissão dê com a língua nos dentes!... Como aliás é já habitual neste país de políticos enrodilhados em jogos de interesses partidários, a viver de “segredinhos” e “dicas” de conveniência e sempre em conúbio com os media, tal como tem vindo a ocorrer em relação a certos processos quanto ao segredo de justiça.

Mas para já tudo ainda está demasiado nebuloso apesar do envelope anónimo (tinha de ser!) recebido por Sérgio Pinto conter fotocópias de e-mails enviados por Silva Carvalho, então director do SIED, à Ongoing (onde é hoje um dos seus quadros) sobre dois empresários russos, para além de “cópias das listas de telefonemas e sms do jornalista Nuno Simas” ( O Sol, 9.9.11), importando tão só dizer-se que “Silva Carvalho negou ter passado informações confidenciais das secretas à Ongoing” e “ter pedido informações sobre o empresário madeirense Humberto Martins” a mando dum adninistrador do grupo, afirmando ainda “nunca ter recebido a listagem das chamadas e sms do ex-jornalista do Público”(id.).

Aliás muito estranho e mesmo curioso é dizer-se que “o envelope com cópias dos documentos remetidos inicialmente de forma anónima ao deputado socialista Sérgio Sousa Pinto terá sido aberto na Central dos CTT por «uma máquina que engata no picotado dos envelopes»” (JN, 15.9.11). Imagine-se o insólito!...

Um imbróglio de todo o tamanho, com as secretas cada vez mais embrulhadas em inquéritos, averiguações, audições e chamamentos ao Parlamento, importando todavia sublinhar-se a afirmação de Silva Carvalho de que “qualquer informação transmitida teve autorização superior”, e ainda o facto de admitir “continuar a ter contactos com funcionários dos serviço”(id). Assim, claro, ficamos todos muito mais tranquilos e seguros (!?) e .... perfeitamente esclarecidos!...

Aliás neste país de políticos, politiqueiros e oportunistas os segredos enrodilham-se sempre e cada vez mais em posicionamentos de conveniência marcados por todo um secretismo, desdobrando-se e enovelando-se noutros e mais segredos com o povo sem saber quem fala verdade e onde está a razão. O Bairrão, anote-se, apontado como ministro não chegou a ser nomeado e logo se disse que tal se ficou a dever a “informações” das secretas. E o certo é que nem o pronto desmentido (?!) conseguiu convencer!...

Mas a realidade é que o “espião” Carvalho foi parar à Ongoing a quem, diz-se, teria dado certas dicas enquanto chefão das ditas secretas, e lá tem o seu emprego, certamente muito mais seguro e rendoso do que como “secreta”, e ninguém tem nada a ver com isso. Aliás refira-se que é muito usual os políticos e outros próximos do poder “prepararem” a tempo e horas os seus “locais de acolhimento” para o dia seguinte quando, pressentindo o futuro, antevêem mudanças políticas e perdas de lugar, sendo certo que tal “habilidade” desde há muito se “travestiu” num rotineiro e generalizado hábito!...

Claro que isso das secretas terem acedido aos registos das mensagens e demais contactos do telemóvel de um jornalista para descobrir as suas fontes de informação não deixa de ser muito preocupante e deveras estranho num país sempre a babar-se em constitucionalidades, direitos à cidadania, à liberdade e à privacidade e a dizer-se em democracia. No entanto, admita-se, isso até daria certo jeito quando se perde, extravia ou se deteriora todo um histórico de mensagens, fotografias e contactos dum telemóvel.

Mas com tais anomalias e problemas nas secretas, e sua natural perversidade, como uma ilegal e indevida partilha de informações, disfunções funcionais e fugas de segredos, é com certa preocupação e justificado temor que ainda alimentamos a esperança de que não venha a vingar a ideia de fazer ressuscitar a velha, interventiva e profissional PIDE, que, não sendo tão discutida nem questionada publicamente, era por todos muito mais “sentida”, “vivida” e temida, como não é possível esquecer.

Aliás em matéria de segredos, secretas, afins e congéneres tão só defendemos e aceitamos, e com manifesta preferência e sem qualquer reserva, uns bem temperados, suculentos e bem cozinhados “secretos” de porco preto, natural e selectivamente bem “regados”. Evidentemente como todo e qualquer leitor de esmerado paladar, sem dietas e problemas de saúde, que não admita caminhos ínvios em termos de democracia e liberdade.

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