Correio do Minho

Braga, sábado

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Segunda mão

Coisas que se vão sabendo

Segunda mão

Escreve quem sabe

2019-11-11 às 06h00

Álvaro Moreira da Silva Álvaro Moreira da Silva

A calçada é estreita e o mendigo aproveita para apanhar e fumar algumas piriscas que por aqui repousam. A noite vem caindo, gélida; os chuviscos molham lentamente. Retiro do bolso uma pequena moeda e deixo-a cair em piruetas no seu copo. Agradece-me por entre lábios gretados e secos, saboreando a última réstia do cigarro. A estação de metro mira de frente a estação de comboios. Por entre ambas, as pessoas cruzam-se apressadas. Tal como eu, algumas seguem já molhadas. Procuro o abrigo e o conforto num pilar. Olho ao longe o povo que, em jeito de funil, sai do teatro, esmagado, para se mesclar com as gentes da calçada. A hora planeada passou, faltou-me a coragem para regressar ao hotel. Acredito que o meu amigo virá, mas a bateria do telemóvel pregou-me uma partida. Para minorar a frustada espera, aproveito para dar um breve passeio pelas redondezas e regressar, de seguida ao mesmo local.

Subo a ruela para norte vislumbrando uma pequena boutique de roupa colorida e estilo vintage. Curioso, aproximo-me. Miro a vitrine e leio, “venda de roupa a peso”. Sim, roupa a peso. Por ainda estar de porta aberta, aproveitei para entrar, tentando atenuar com algum calor os frios pingos de água que esta noite não pretendem descansar. Há factos que sobremaneira me interessam. Não pretendo descrever Kimball, nem tão pouco as aulas fabulosas do meu amigo e professor Orlando Belo, dos seus factos repousados em modelos dimensionais, em estrela e flocos de neve. Não. Falo das circunstâncias reais do dia a dia que nos aguçam o apetite. Daqueles factos que nos fazem ficar inertes e nos projetam milimetricamente para frações de tempo passadas ou até para circunstâncias linguísticas curiosas.

Aqui, passeando por entre cabides de roupa usada e algum cheiro a mofo, penso na palavra «molho» e nas suas variantes. Recordo a sua etimologia. Estou encharcado, acredito seriamente que amanhã vou ficar de molho. Uma cliente levanta um molho de calças, estende-as na prateleira e suplica ainda por desconto. Leva 1,200 kg das de ganga, tudo à molhada. Estranha forma de comprar. Relembro o Brasil, onde a venda do pão e a prática de venda de roupa a peso são artes não tão recentes e perfeitamente aceites. Não sei se existe este modelo de negócio aplicado a roupa nova, nunca o vi, mas também não me interessa para já.

Hoje analiso o mercado de segunda mão, onde se inclui não só a revenda de produtos usados, mas também os produtos utilizados para doações. Procuro enquadrar o modelo de negócio nos desafios recentes associados à economia circular, nas preocupações globais dos consumidores e empresas relacionadas com sustentabilidade. Através da leitura de diversos artigos interessantes e até de algumas estatísticas públicas, tento perceber o impacto no retalho nos anos vindouros, não só no físico, mas também no retalho em linha. Algumas referências e opiniões interessantes, não só enaltecendo o impacto na moda rápida e barata, como a Primark e a Zara, e na moda de luxo, como a Louis Vuitton e a Gucci, mas também, por exemplo, na eletrónica, com a marca Apple. Acredito que empresas como a Farfetch, cujo modelo de negócio se foca em produtos de gamas de luxo, esteja naturalmente atenta a este mercado em constante crescimento. De acordo com empresas como a Thredup, espera-se que o crescimento no vestuário de usados duplique até 2023, atingindo valores de 23 mil milhões de dólares em revenda e 28 mil milhões de dólares em doações.

Regressei apressadamente ao local combinado de mãos vazias. Descobri que, afinal, o meu amigo se tinha perdido pela cidade, desculpa aceite depois de ele assumir o custo do jantar. Há coisas na vida que vêm por bem, por isso devemos sempre aprender com circunstâncias menos positivas. O facto de ele ter chegado atrasado levou-me não só a desfrutar de um belo passeio, mas também a escrever este pequeno texto e a jantar de borla. Não sei se alguma vez irei comprar roupa usada, velha ou semi velha, nem tão pouco se irei ver por Braga alguma loja onde se vende roupa a peso. Fico a aguardar, com ansiedade, o Natal e os momentos em família onde nunca falta roupa nova no sapatinho nem roupa velha no prato, juntamente com saboroso alho e azeite bem português.

*com JMS

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