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Ideias

2017-04-27 às 06h00

José Manuel Fernandes José Manuel Fernandes

Os radicais de direita e de esquerda estão a aprisionar os moderados. Tenho repetido esta frase, confirmada pelos resultados da primeira volta, do passado domingo, para as presidenciais em França. Foi o banqueiro Emmanuel Macron, ex-ministro de François Hollande, mas que se afirma independente, nem de esquerda nem de direita, defensor dos valores da UE, que venceu a primeira volta com 23,9%. Terá a acompanhá-lo, na segunda volta, Marine Le Pen, que obteve 21,4% dos votos. François Fillon teve 19,9%, o candidato de extrema-esquerda Jean-Luc Mélenchon teve 19,5%, e o grande derrotado foi o candidato socialista Benoît Hamom, que teve apenas 6,3% dos votos. A conclusão é simples: os radicais cresceram e aproximam-se, em termos de votos, dos moderados.

A França está estagnada. Os partidos moderados franceses não têm tido coragem para modernizarem a economia concretizando as reformas necessárias. Têm medo da rua. Estão aprisionados.
Fillon era o favorito mas foi penalizado por ter dado, enquanto deputado, emprego à esposa e aos filhos. A revelação cirúrgica ocorreu após ter vencido as primárias contra Alain Juppé. Deveria ter tido a coragem e a ética suficiente para se ter retirado. Mas a hecatombe veio do lado socialista. A derrota estrondosa não é um caso isolado. Na Holanda, nas recentes eleições, o PS passou de 38 deputados para 9. É muito preocupante o declínio dos socialistas na UE. Perante a perda de eleitorado, a tentação, que também ocorre na direita moderada da UE, é a de se radicalizar o discurso para se ocupar o espaço dos extremos. Esquecem-se que um moderado nunca consegue copiar, ou competir na argumentação, com um radical.

Perante os maus resultados eleitorais em França, ficamos satisfeitos porque podiam ter sido péssimos! Efectivamente, vivemos tempos difíceis e estranhos. É verdade que teria sido um desastre para a França e o fim da UE se tivéssemos na 2ª volta a radical de direita Marine Le Pen e o radical de esquerda Mélenchon. Ambos disputam uma boa parte do mesmo eleitorado, apresentando propostas idênticas, invariavelmente proteccionistas, contra o euro, contra a globalização e de índole nacionalista. Procuram a desagregação da UE e o caos. Não admira que o candidato Mélenchon da extrema-esquerda, depois de conhecer os resultados, não tenha excluído apoiar a Marine Le Pen da extrema-direita!

No essencial, a extrema-direita e a extrema-esquerda votam da mesma forma. Não há grande diferença entre o discurso de Marine Le Pen e o do PCP ou do Bloco de Esquerda. Os resultados da governação de extrema-esquerda, em termos de liberdade e em termos económicos, são bem visíveis na Coreia do Norte ou na Venezuela.
Não dou por adquirida, ainda que seja provável e desejável, a vitória de Macron na segunda volta. Todos sabemos que Putin financia Marine Le Pen. Veremos se teremos interferências russas na 2ª volta, a que se podem juntar possíveis ataques terroristas. Noto que, aparentemente, o último atentado de Paris, na véspera das eleições, não teve impacto nos resultados. Mas ajudam sempre a passar a mensagem da extrema-direita.

A tarefa de Macron, depois de eleito Presidente, será de enorme dificuldade com uma assembleia legislativa que não lhe será favorável. As legislativas, que também se disputam a duas voltas, têm data marcada para o início de Junho, sendo que, se o resultado das legislativas costuma reflectir o resultado das presidenciais, dificilmente isso acontecerá este ano, com Macron candidato independente com um movimento que nunca tinha disputado eleições. Lembro que caberá, depois, ao presidente eleito escolher o primeiro-ministro que reunir o apoio da maioria parlamentar.

Não valorizamos a Paz, a liberdade, a tolerância e o multiculturalismo, a solidariedade, o modelo social europeu. O que está a render votos é o egoísmo, o ódio, o nacionalismo, o orgulhosamente sós.
Não temos paciência para esperar por resultados. Queremos o imediato, vamos atrás da promessa fácil. O momento está favorável aos Trump, Putin, Duterte, Wilders, Le Pen. Olhamos para a Turquia e ficamos impressionados com a utilização da liberdade de voto para se derivar para uma ditadura!
Estamos a destruir alegremente as conquistas da Paz, liberdade, direitos sociais. Temo que só tomaremos consciência desta destruição quando perdermos o que temos. Será demasiado tarde!

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