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Sincronia e diacronia

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Sincronia e diacronia

Voz aos Escritores

2019-01-18 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

«Sincronia» e «diacronia» são duas palavras portuguesas muito usadas em estudos linguísticos. Quando estudamos a evolução da língua portuguesa, podemos fazê-lo comparativamente: ou nos fixamos no momento em que vivemos, isto é, no nosso momento histórico, na nossa sincronia; ou, fazendo-o, comparamos com o que aconteceu ao longo do tempo, desde a origem da língua, isso é, na diacronia. Estudar a língua no nosso momento histórico não é fácil, dado que os seus movimentos são, no curto espaço de tempo, quase impercetíveis. Num espaço de tempo mais alargado, com atestação documental, é bem mais fácil e produtivo. Andava eu por estes meandros quando deparei com as palavras viço e vício e me pude aperceber da mutação semântica, isto é, relativa aos significados, que aconteceu desde o latim até ao presente. O étimo é o mesmo (vit?um), e significaria algo como mimo ou excesso de carinho. No período arcaico da nossa língua, mantendo-se esta significação, começam a separar-se semanticamente as duas palavras, o que pode ver-se no Leal Conselheiro: «per o que se afirma o viço ser sempre acompanhado com o vício, e que o homem folgado acabará em proveza». No estado atual da língua, viço significa prioritariamente a força vegetativa das plantas, enquanto vício significa defeito ou imperfeição grave de uma pessoa ou coisa, ou tendência para praticar qualquer ato negativo ou nocivo. A língua moveu-se, portanto. Fenómeno do mesmo tipo aconteceu, por exemplo, com a palavra manco, palavra a que qualquer utente da língua atribuirá o significado de coxo, aleijado dos pés, mas que contém, na sua origem, o elemento man(u). Manco seria, portanto, o aleijado das mãos.

No capítulo sobre o metamorfismo na linguagem (em Sobre a Língua Portuguesa, 1872), Adolfo Coelho já explicara que, ao longo do tempo, arcaísmos, neologismos, alterações fónicas e no sistema gramatical, alterações sintáticas e semânticas, acontecem com maior ou menor profusão, e que, por conseguinte, a acirrada luta purista, contribuindo embora para o equilíbrio do sistema, estará sempre condenada ao fracasso. Referindo diversos arcaísmos caídos absolutamente em desuso, explica de que forma alguns são recuperados, ou pelo povo, ou pelos escritores, no seu afã de vitalizar a língua. Exemplos, já referidos por Duarte Nunes de Leão, como afã, afincar, algo, algures, aquecer, estugar, hoste, confortar, desempenhar, renasceram no tempo de Adolfo Coelho e mantêm-se vivos, e bem vivos, na nossa sincronia. Como este autor diz, «o que hoje se aprova amanhã é condenado pelo uso, o que se supõe hoje morto amanhã reaparece vivo na linguagem».

No capítulo lexical, a tendência é para o desaparecimento de palavras por morte dos referentes. Assim, desaparecido o barbeiro que fazia sangrias, aplicava sanguessugas ou ventosas, morre o «alfageme». Do mesmo modo, anulado o serviço que, na Idade Média, o jovem fazia ao rei, acompanhando-o sempre, morre o «pajem». Em contrapartida, porque acontecem novos fenómenos, inexistentes no passado, nascem novas palavras. A palavra «futebol», aportuguesamento de «foot ball», está mais ou menos datada. As palavras «futebolês», «internetês», «amarar» são também palavras recentes, datadas, neologismos registados nos dicionários referenciais da nossa língua.

Ao nível sintático, se a mudança de longo alcance é identificável (comer de, cujo era) mudança de curto alcance é muito difícil de identificar. Por vezes, modismos de época podem contribuir para alterações sintáticas pouco visíveis (caso de «prontos» exclamativo, de «portanto» conclusivo em início de frase, ou do recente «então é assim»), mas que, ultrapassado o modismo, se anulam. De Fernão Lopes à atualidade, com ligeiras alterações do regime preposicional e do movimento de pronomes, a língua portuguesa é sintaticamente a «mesma». Referimos a oralidade, individual e espontânea, cuja marcação estrutural é reconhecida por toda a comunidade, mesmo quando se projeta em expressões fixas ou idiomáticas cristalizadas pelo tempo. A escrita repete a mesma marcação estrutural, com os desvios que a literariedade, ou a poeticidade, autorizam.

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