Correio do Minho

Braga,

Sobre a proximidade do interior e o desenvolvimento do território

Patologia respiratória no idoso

Escreve quem sabe

2018-11-11 às 06h00

Manuel Barros

A discussão e aprovação do Orçamento do Estado para 2019, seria um terreno fértil para fazer uma reflexão sobre as opções do Governo para o País. Ou sobre a falta delas, a avaliar pelos sinais que nos chegam pela comunicação social e pelo ambiente que vivemos na rua, e pela discussão e o debate, a que temos assistido na Assembleia da República. Nos órgãos dirigentes dos partidos, nas autarquias locais, nos sindicatos, nas organizações empresariais, nos hospitais, nos tribunais, nos transportes e nas escolas. Enfim, um ambiente de expetativa negativa, que pulveriza a generalidade dos setores que, estranhamente, não coincide com os sinais positivos, que são anunciados pelos governantes, para a nossa economia.
Um contexto político e social, que faz a síntese deste momento. Pelas manifestações e as greves ou o seu anúncio, pelas reivindicações, o descontentamento e o posicionamento dos partidos, a começar pelos que integram a atual solução governativa, a que se convencionou apelidar de “geringonça”. Um nervosismo coletivo, que nos últimos dias foi ofuscado pelo caso da certificação da presença dos deputados no Parlamento que, para além do desconforto ético e político, nos dá uma imagem da debilidade organizacional da “casa da democracia”, no tempo da “internet das coisas”.
Um pequeno desabafo que, no entanto, se enquadra numa breve reflexão a propósito de uma visita ao concelho de Oleiros com um grupo de amigos, em jeito de “viagens na minha terra”, sem a mestria do nosso Almeida Garrett. No entanto, também namoramos com romance, e com a pureza de Joaninha do Vale de Santarém”. Escolhemos este destino pela atratividade paisagística, cultural e gastronómica, a que juntamos a curiosidade solidária de visitar um território devastado por uma, tremenda, onda de incêndios. Uma visita, que não deixando ser de descanso, foi uma excelente oportunidade para constatar uma realidade, que exige de uma reposta, onde as aspirações e ambições dos habitantes possam ser asseguradas de forma sustentada, estruturante e duradoura.
Uma resposta que não poderá passar apenas pelo turismo, apesar da vasta constelação de negócios que se desenvolvem à sua volta e na orla da sua influência. A experiência impressiva que partilhamos, foi um excelente exemplo, por tudo o que vimos, ouvimos, degustamos, compramos e pelas sensações que vivemos. Uma ressaca que a natureza e as pessoas, apesar de resilientes e determinadas, ainda deixam transparecer uma atitude cautelosa em relação ao futuro, que nos impressionou profunda- mente.
As belezas da paisagem que se está a regenerar com toda a força, com a ressalva dos eucaliptos que estão a ganhar terreno à flora autóctone, com a tolerância de ser uma fonte de receita, para quem não abandonou aquelas terras. O cabrito estonado à moda de Oleiros, o vinho calum cultivado em algumas aldeias, a aguardente de medronho que se carateriza pelo baixo teor alcoólico e o maranho das margens da ribeira da Sertã. Fomos brindados com uma mostra dos frutos de Outono e de produtos tradicionais da região criados de forma inovadora. Estivemos no espaço de restauração - a taberna - com petiscos e bebidas, onde degustamos castanhas acabadas de assar e, no exterior, assistimos à destilação tradicional do medronho.
Uma programação bem estruturada, que culminou num concurso gastronómico “valorizar o medronho e a castanha”, em que os restaurantes do concelho foram convidados a criar uma ementa alusiva à temática. Uma iniciativa, a que se juntaram os artesãos e produtores regionais, com destaque para o queijo, o presunto, a broa, a música e as tradições. Um evento organizado pelo município, em parceria com os empreendedores locais, muitos deles a refazerem os seus negócios e as suas vidas, dos efeitos de destruição do incêndio.
Uma dinâmica que me motivou a retomar o tema sobre “o desenvolvimento do território e a proximidade do interior”, e a necessidade de aplicação de medidas adequadas, para este desígnio estratégico. Falta trabalhar, ou melhor, trabalhar de forma mais assertiva e organizada, a outra face do problema. Estivemos na aldeia de Figueira e na aldeia de Álvaro, que integram a rede de “aldeias de xisto”. Álvaro que ostenta uma comenda da Ordem de Malta, foi uma das aldeias cercadas pelo fogo, onde vimos a destruição de muitas casas e, uma floresta que começa a ficar a rodeada de eucaliptos, onde não nos apercebemos sinais de ordenamento, e é banhada pela albufeira da barragem do Cabril.
Um sentimento de admiração e respeito, pela atitude assertiva e motivada dos residentes, pela capacidade de iniciativa, na forma como aproveitam o fluxo de visitantes e/ou turistas, e estão a reorganizar as suas vidas, onde vimos escolas fechadas e não vimos crianças e jovens. Uma visão “prolixa”, que nos fez equacionar a dinamização do tecido produtivo local, a valorização da identidade local e promoção de dinâmicas territoriais de desenvolvimento. A afirmação e emancipação territorial, a qualidade de vida das aldeias, a transformação de recursos imateriais do território em mais-valias para o desenvolvimento, e a promoção dos aspectos positivos do território, foram outras dimensões que mereceram a nossa curiosidade.
Um território servido por uma excelente rede viária, a precisar de uma infraestruturação para satisfação das necessidades e expectativas dos residentes ou turistas, sintetizam os processos de desenvolvimento regional, que identificamos. Uma realidade socioeconómica e geográfica que deposita uma grande expetativa na criação da Secretaria de Estado para a Valorização do Interior, que absorveu a Unidade de Missão e foi instalada em Castelo Branco. Representa um sinal de discriminação positiva e de proximidade do Governo com os territórios de baixa densidade, que parece assumir o interior como um “diamante estratégico”, nas políticas públicas de desenvolvimento local e regional, a implementar em todo o País.

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