Correio do Minho

Braga,

- +

“Tive que voltar a aprender como se já não soubesse nada!”

A sabedoria do cuidar no Alzheimer

“Tive que voltar a aprender como se já não soubesse nada!”

Escreve quem sabe

2019-05-21 às 06h00

Cristina Palhares Cristina Palhares

Tenho 13 anos, estou a terminar o 9º ano e a vida sorri. Mas nem sempre foi assim. Não o foi de todo! E tu, minha folha branca, a quem resolvi contar serás a testemunha que eu sempre precisei e que nunca tive. Nunca, mesmo. Foi tudo tão rápido... coitada da minha mãe. Mas, nasci com 33 semanas, 3,300 Kg e 53 cm. Passei três meses a dormir e a comer. Deve ter sido fantástico! E uma das primeiras coisas que aprendi foi a olhar para a minha mão. Que engraçado! Passava horas a olhá-la, primeiro sem saber que era minha, e depois, percebendo que a minha vontade a fazia mexer, esticar, encolher, sem saber que seria ela causa de tantos dissabores nos primeiros anos de escolaridade. Desde as horas que passava a olhar para a minha mão até às primeiras palavras foi um pulo. Não dei conta do tempo passar. Pudera! Continuava uma menina bem comportada, que dormia a noite inteira e comia tudo num ápice. Até que, depois de muito balbuciar, e muita preguiça para me sentar, comecei a dizer as minhas primeiras palavras. Como eu palrava muito e não dizia nada de jeito, estas primeiras palavras foram um verdadeiro milagre.

Até já tinham dito aos meus pais que eu devia ser um bocado atrasada! Coitados! Foi a maior das surpresas. Nos dias seguintes as palavras novas já não cabiam no álbum que os meus pais iam fazendo. Ao fim de 30 dias já formava pequenas frases e foi assim que de atrasada passaram a dizer aos meus pais que algo devia estar a acontecer comigo. Vai lá alguém entendê-los! E pior que isso, tropeçava, caía, preferia arrastar-me do que andar a pé, e correr não era comigo. Passava os dias a falar sozinha, e por isso é que eu vos dizia o quão importante tinha sido, é, e será, a minha mão: sarrabiscava em tudo o que era folhas, livros, para desespero da minha mãe. Lembras-te que já tinha 4 anos? Pois era. Lembras-te de que eu já pegava muito bem nos lápis e adorava escrever as letras iguais às do meu puzzle? Não? Ainda não tinha dito? Pronto, disse agora. No Jardim de infância os intervalos eram os melhores momentos. Estava sempre com as minhas amigas da primária. Fazíamos teatros tão engraçados! Eu era sempre apresentadora. Passou tão depressa este ano! Estava ansiosa por poder passar o dia numa secretária (muito mais pequena que a minha) cheia de livros e cadernos iguais aos que eu tinha em casa.

O meu primeiro dia de aulas na primária foi o máximo. Adorei poder mostrar os meus livros e cadernos novos, a minha pasta nova e, principalmente o meu estojo. Eu mostrei tudo com muito orgulho, mas queria era começar a usar. E sabes? Afinal neste meu 1º ano pouco aprendi. Foi uma seca! Tive que voltar a aprender, como se já não soubesse nada. Mas ia sempre para a escola na esperança de um dia aprender coisas novas. Em casa comecei a dar algumas preocupações aos meus pais: dores de barriga, enxaquecas que eu sabia dizer tão bem, insónias, e daí a fazer um exame geral médico foi um passo. Análises ao sangue, ecografias, enfim, infelizmente estava tudo bem. Mas eu devia ter alguma coisa! Não descobriram pela certa! Eu adorava ir tomar chá para a cozinha da escola. Pelo menos o tempo passava mais depressa. E conversava, conversava, com a cozinheira, claro. Entretanto chegou o final do 1º ano, e no início do 2º, a diretora e a minha professora resolveram chamar os meus pais à escola. Propuseram que eu passasse para o 3º pois começava a portar-me muito mal. Só queria fazer contas difíceis, lia com muita velocidade, enfim, afinal já estava ao nível dos meninos que estavam no 3º ano.

E foi aqui que comecei a conhecer os psicólogos. Aqueles gabinetes eram mesmo bonitos! Perguntas difíceis, jogos engraçados, e passei a ir aos sábados ter com novos amigos, que eram todos um bocadinho mal comportados, irrequietos, faladores, como eu. Também havia meninos que quase não falavam, mas eu falava com eles na mesma! O 3º e 4º ano foram muito difíceis. Estava sempre de castigo, nem sei bem porquê. Até vinha com a minha secretária e cadeira para o corredor! A sério! Só ao sábado é que me portava bem, ou por outra, podia falar que ninguém me punha de castigo. Mas durante este tempo, voltei a fazer novos exames médicos. Eu devia ter qualquer coisa mas ninguém descobria nada. Eram mesmo incultos! Então como é que me doía tanto a cabeça ou a barriga? As minhas notas foram sempre muito boas, mas lá vinha na ficha de avaliação sempre, sempre o mesmo: irrequieta, mal comportada, nunca esperava pela minha vez para nada, respondia pelos outros, e, o que me acompanhou durante muitos anos, “tem capacidade para ser melhor mas não estuda o suficiente”. 5ºano. Tantos professores! Como foi difícil! Continuei a vir para a rua, principalmente com o meu diretor de turma, que teimava em não me deixar falar.

As minhas notas baixaram, passei a aluna média. Ah, mas também fiz alguns amigos importantes: a senhora do telefone, o porteiro, a auxiliar do ginásio. Foram anos em que chorei muito. De raiva, primeiro! Depois, de incompreensão. Bom, tenho que me despachar. A partir do 7º ano a minha diretora de turma foi excelente. Ela valorizava tanto tudo o que eu fazia! Passei a ter disciplinas diferentes: teatro, e oportunidade para contactar com alunos mais velhos, em filosofia. As minhas intervenções este ano, no 9º ano, foram de mestre! Lembram-se da minha mão? Aquela que eu tanto mirei em pequena, que cedo começou a escrever e que durante uns tempos parou para fazer apenas aquilo que queria, pois agora tornou-se outra vez o meu centro: eu era a redatora da escola! O mérito foi todo da minha diretora de turma, que apostou em mim! Hoje, tenho 13 anos, estou a terminar o 9º ano e a vida sorri. Ups…Que engraçado! Estou num palco, representando, com um microfone, falando a uma multidão!

E ainda, na redação de um jornal, noutra, de caneta azul na mão! A minha caneta azul! Lembras-te dela? E agora, que velhota!!! Estou numa missão qualquer, internacional, pois está tudo com auscultadores de tradução simultânea! E ainda, ouvindo, num pequeno gabinete, crianças, pais, professores, rabiscando algumas notas. Talvez passando o meu testemunho, ajudando aqueles que, como eu, também choraram na escola, também tiveram notas menos boas, também encontraram professores menos bons, mas, ajudando aqueles que, como eu, também sorriram na escola, também tiveram boas notas, também encontraram professores bons, e, como eu, se tornaram maiores que a própria vida.

Deixa o teu comentário

Últimas Escreve quem sabe

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.