Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Transportes Públicos Elétricos: uma “tradição” secular

Encontrão Ambiental

Ideias

2019-03-20 às 06h00

Hilário de Sousa

No âmbito da Semana Europeia da Mobilidade, que decorreu entre 16 e 22 de setembro de 2018, foram apresentados em Braga seis autocarros elétricos, a primeira fase de um projeto que pretende assegurar o funcionamento mínimo de 30% da frota dos TUB (Transporte Urbanos de Braga) até 2020. Este assunto, aparentemente “fora de tempo”, está associado a uma experiência pessoal, há apenas escassos dias, numa viagem nestes transportes modernos e ecológicos, situação que não deixou de trazer à memória a história do “elétrico”, uma “novidade” com mais de 100 anos, estando agora a popularizar-se enquanto meio de transporte individual e coletivo, certamente ao ritmo da procura dos consumidores e da descida dos preços.
É muito interessante analisar estas (r)evoluções tecnológicas, sociais e económicas e identificar os principais fatores que em cada época histórica as influenciam, constatando-se que a Humanidade evolui num constante e aparente(!) aprender… (des)aprender… (re)aprender, saltando de geração em geração e sempre ao ritmo… da economia! Assim, no início do século XIX, inventores na Hungria, Países Baixos e Estados Unidos começaram a brincar com o conceito de um veículo movido a bateria e criaram alguns dos primeiros carros elétricos. No entanto, os que alcançaram verdadeiramente sucesso estrearam-se nos EUA por volta de 1890. Em 1900, já estavam no seu apogeu, representando cerca de um terço de todos os veículos em circulação.
Ora, em Portugal, corria o ano de 1895 quando surge a tração elétrica na cidade do Porto, um pouco antes de Lisboa, que fez o mesmo em 1901. Já em Braga, que sempre se destacou, desde o tempo do Império Romano, pela modernidade no transporte das populações e mercadorias (veja-se o caso da Via XVIII, construída no séc. I, que ligava Braga e Astorga, equivalente às atuais autoestradas), a Companhia de Carris de Ferro de Braga solicita em 1905 à Câmara Municipal autorização para instalar e operar uma linha de tração elétrica, de forma a substituir os carros americanos e as locomotivas a vapor, incapazes de dar resposta a uma população de cerca de 60 mil habitantes.
Todavia, somente em 1913, com a contratação de um engenheiro alemão, começa a conversão da linha 1, desde a estação ferroviária até ao Bom Jesus, instalação concluída em 1914. Com a posterior contratação de dois engenheiros ingleses para supervisionar a colocação do sistema elétrico que iria fornecer energia aos novos veículos, foram finalmente disponibilizadas aos bracarenses, a 19 de outubro de 1914, as linhas 1 e 2 (Monte de Arcos – Parque da Ponte). Nos anos 20, estas fundem-se numa só, dando origem à do elétrico central, que se prolonga desde a estação dos caminhos de ferro até à entrada do Elevador do Bom Jesus. Esta linha percorria toda a área central da cidade, com uma extensão de cerca de seis quilómetros.
Rezam as crónicas que os carros elétricos, ao contrário dos movidos a gasolina e a vapor, eram silenciosos (imagine-se!), fáceis de conduzir e não emitiam poluentes com mau cheiro. Essa foi uma das razões por que se tornaram tão populares entre o público citadino. Quanto mais as pessoas tinham acesso à eletricidade, a partir de 1910, mais fácil se tornou carregar os carros elétricos, aumentando assim a sua popularidade.
Eis senão quando, em finais do século XIX (1899), surge o primeiro carro elétrico híbrido do mundo, alimentado a energia elétrica e um motor a gasolina, o Lohner-Porsche, pelas mãos de Ferdinand Porsche. É verdade! Porém, a produção massiva do Modelo T de Henry Ford em 1908, movido a gasolina, muito mais acessível, foi um golpe fatal para o carro elétrico. O seu declínio é indissociável da descoberta de petróleo no Texas, começando a surgir postos de gasolina em todo o país. À volta de 1935, os veículos elétricos tinham praticamente desaparecido.
Mas ei-los de novo, cerca de um século depois, numa era de estímulo à utilização de transportes públicos amigos do ambiente, não para voltarmos a ver em Braga os saudosos “elétricos”, mas os novíssimos autocarros da CaetanoBus. Este novo começo para os veículos elétricos surge com mais vigor no início do século XXI motivado, fundamentalmente, pelas preocupações ambientais e pela subida do preço dos combustíveis. Quanto ao futuro… olhemos para a História… e cada um dos estimados leitores reflita e dê o sentido que entenda à expressão “a tradição já não é o que era”!

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