Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Um amor incondicional ou dar sem ter que receber

Retorno!

Conta o Leitor

2019-08-22 às 06h00

Escritor Escritor

Porque curioso desde que me conheço por gente, conhecedor e amante das belezas desta região verde minhota vestida, com locais de visita obrigatória que se tornarão inolvidáveis, sempre preparado para a descoberta de novas preciosidades naturais, recantos que até então conseguiram passar despercebidos como se isso fosse agora possível, sequer, equacionar. Apenas por descuido ou por ter as atenções centradas em outras áreas que não as do prazer e da paixão pelo que nos pertence, que é de todos e nem mesmo assim cuidamos bem delas. E agora estamos numa espécie de pêndulo, de ampulheta onde já vislumbramos o tempo a fugir-nos como areia por entre os nossos dedos e sentirmo-nos imponentes perante alarmante grito de alerta do planeta. Só então se percebe que devias ter descoberto aquele oásis mais cedo para assim conseguir partilhá-las de modo a contagiar outros com a mesma alegria que tu sentes (também ela efémera?).
Tarefa mais alegre e convidativa a fazer-se em qualquer Verão que traga o astro rei no seu esplendor e com convites a dias quentes e de descoberta. Transportado por um Citroen “dois cavalos” gentilmente emprestado por uma amiga tracei desde logo um roteiro para cumprir à risca: Depois das primeiras descobertas matinais, e confortado o estômago, dar um pulo até à serra do Gerês e no final do dia aproveitar uma das muitas ofertas de turismo rural para o merecido descanso do guerreiro.
Queria ir de encontro a uma manhã bem passada pelas calmas paisagens dos montes em redor da majestosa serra geresiana. Opta-se por Santa Isabel do Monte de onde se tem uma vista privilegiada das cercanias do vale do Cávado, miradouro natural sobre o outro lado do “quadro” com montes idênticos, o espelho de água da Caniçada em cujas margens se vislumbram o casario rústico e tradicional e mais antigo, alguns centenários, com privilégios de Brasão, capelas, a par de outras de traços bem mais recentes que ora são pertença dos filhos da terra ou de forasteiros que escolhem estas paragens como forma de manter a saúde espiritual e corporal. As habitações de turismo rural também são já em número razoável e são resultado de construções em casas devolutas ou em ruínas, e que com a nova roupagem dão um ar mais requintado à paisagem. Com glamour, pode-se dizer, e a vontade da gente nova em tornar mais belo o que já era, tornando majestosas as casas agora “convertidas” em hotéis confortáveis e modernos de formas sóbrias e minimalistas. Sem dúvida alguma, a descobrir.
É ainda possível calcorrear caminhos que foram batidos vezes sem conta por Miguel Torga, aliás o mesmo deixa explicito “tudo se conjuga para que nada falte à sua grandeza e perfeição”.
Realmente parece que todo o elemento foi colocado pelas mãos divinas como se de um puzzle se tratasse, mesmo nos conjuntos graníticos de rochas que pelo seu amontoar “tosco” parece que vai cair em breve. E no entanto lá teimam elas em permanecer intocáveis à sombra das suas altitudes vertiginosas, há anos sem conta.
Trilhos que avistou com a sua fauna e flora e que lhe serviram de inspiração, caminhos que vêm da idade do bronze e têm histórias e mais histórias para contar, tal como acontece àquela pedra sobre pedra...
Uma paisagem e um povo orgulhoso deste seu cantinho mágico e personagens que pertencem a um quadro impressionista onde se realçam as cores vivas, tom natureza, em que podia ser uma noite estrelada ou uma jardim de verde musgo ou de cor granítica pelas pedras das calçadas, pelos dólmenes ou pela cor da tez do seu agricultor, com traços cravados nas faces do sol tantas vezes agreste e que não perdoa nos picos do Verão. Ou pela cor dos nevões de que é feito o Inverno das suas vidas. Gente que se orgulha de todo um património natural, cultural mas também com a vertente religiosa, gastronómica, artesanal, de costumes ancestrais e ao mesmo tempo de mão dada com o presente que temos de viver e sorver como se não existisse amanhã. Nunca fiando.
São estas as tradições e costumes que funcionam como músicas que fazem a banda sonora da vida de cada um e vamos crescendo dando sentido à nossa vida.
A mesma razão que me leva a dizer que te amo....é não ter razão... pois tornar racional algo relacionado com coisas do coração pode-nos levar a um ponto sem retorno, pode-nos causar dissabores se não se conseguir lidar com a situação.
A razão do amor é o amor, sem saber, sem explicar, só amar, incondicionalmente amor.
Então ele aparece para matar os desejos, para nos servir sem ter que retribuir apenas porque sim.
Hoje, sinto esta paixão luxuriante pelo Gerês e tudo mais à sua volta, desde o meu primeiro amor que sobreveio algures entre os céus e as águas das suas albufeiras, das suas cascatas e dos riachos e imagino-me mais uma vez a viver aqueles momentos mágicos que não trocava por nada neste mundo. Tão pouco a tua companhia nem que fosse por uma última vez, para voltar a sentir o pulsar do meu coração, ver o teu rosto rubro de paixão e ao mesmo tempo sofrível por sabermos que seria breve, efémero aquele momento. Ou não é assim que acontece com todos os momentos que nos fazem perder a razão no lugar de prever o que vai ser de nós dois.
Hoje, sinto-te a ti, àquelas montanhas mágicas ainda e sempre em espírito porque acredito que algo está sempre entre nós, que nos guiam, ajudam e protegem qual anjo da guarda e porque sim, sim, acredito que um dia, mais tarde, voltarei a estar com todos eles e havemos de voltar a sorrir, abraçar e falar de tudo que foi e que desta vez, voltará a ser, que havemos de ter novamente aqueles Natais de cada infância e então tudo terá valido a pena.
Ter passado por dificuldades na vida para aprendermos a nos levantar, ajudar o próximo, amar quem nos ama e como Ele oferecer a outra face para vivermos em paz. Ou então ter vivido momentos de pura satisfação, de puro prazer e amor para sermos lembrados, um dia mais tarde. Que não agora. Agora urge viver sem sequer tão pouco sofrer. Apenas viver. Ponto final.
Por isso queria levar comigo os seus sorrisos, sobretudo o teu. E depois voltar para amar como nunca amei. Sorrir como nunca sorri. Sei que voltarei a viver novamente e vou encontrar aqueles que tanto me amaram em vida…
Tomaram conta de mim.

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