Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Um dia a escola muda – eu acredito!

Sonho psicadélico

Ideias

2019-06-18 às 06h00

Cristina Palhares

Mais uma vez nos encontramos num final de ano letivo e com ele a azáfama das reuniões de notas e de atas justificativas das notas dos nossos alunos. Infelizmente, e porque tantas vezes aqui dito nas minhas crónicas, ainda temos muitos professores assim-assim. Ainda temos muitos professores menos bons como escrevi a alguns meses atrás. Ainda temos professores que aquilo que mais gostariam de fazer na vida era justamente não ser professor. Infelizmente também, e para eles ainda mais, as escolas têm que continuar a contar com estes professores: porque nada podem fazer para mudar.

Não é fácil mudar de profissão, deixar de fazer o que já se faz há tantos anos (ou poucos), mas o ordenado no final do mês é necessário. Sem dúvida alguma. E por isso a minha pena ainda é maior. Os professores querem mudar mas não podem. E por isso continuam a ser professores assim-assim, professores menos bons. E sabem quem são? São aqueles professores, como tão bem dizia Reboul, que deixaram de ser mestres. Os mestres, esses, “têm competência para ensinar o que não se encontra nos livros”, o professor será “mestre rebouliano” pelo menos, por tudo quanto acrescenta ao livro : “senão um saber novo, pelo menos uma forma nova de transmitir o saber; pelos exemplos que inventa, pelas perguntas que faz ou que leva os alunos a formular; pelas respostas que dá aos pedidos mais insólitos. Mestre, sobretudo pela sua arte de adaptar o saber ou a técnica à personalidade de cada aluno”. Pois, mestre que retira do aluno tudo aquilo que ele sabe e é e o ajuda a crescer e desenvolver. Mas não…. O professor assim-assim, o professor menos bom, está sempre à espera da falha do seu aluno, de o apanhar em falso ou para confirmar alguns vaticínios iniciais: “nunca há de ir longe”; “os pais é que desejam que ele seja o que eles não foram”; “nunca deveria ter avançado…é tão imaturo”;… enfim, um sem número de preconceitos e juízos sem qualquer fundamento credível, apenas e só no senso comum de profissionais que um dia deixaram de aprender para ensinar. E por isso, o professor que deixou de aprender para passar a ensinar é seguramente um professor assim-assim ou um professor menos bom. Lembram-se do espanto aristoteliano?

O espanto, sinal sonoro que se produz quando algo passa a fazer sentido no nosso pensamento e por isso passa a conhecimento? Esse espanto? Pois…. Os professores, alguns, já não sabem. Nem fazer com que os seus alunos se espantem, nem se espantam com os seus alunos. Já não retiram de cada um o que de melhor eles têm. Não. Esperam sempre pelo pior do seu aluno, para justificar os injustificados preconceitos colocando sempre fora de si, da sua culpa, o locus do problema. Quando os alunos têm sucesso na escola (e entenda-se aqui muito boas notas) há sempre uma frase a completar: “…mas imaturo.
Não devia ter acelerado.” Esquecendo-se de tudo o que levou à aceleração, anos antes, que transformou aquele menino, a sua família e amigos, e que foi a melhor opção para todos os professores da sua turma, naquela altura. Volvidos alguns anos, este menino, brilhante nas suas aprendizagens e fora delas, leva com mais um rótulo para justificar a falta de orgulho e de capacidade dos professores em dizer: “…mesmo acelerando um ano tem excelentes notas.”

A maturidade não é apanágio dos alunos que nunca aceleraram….não se adequa aos alunos que frequentaram todos os anos de escolaridade. O aluno que tenha tido uma aceleração pode ter a mesma idade do aluno mais novo da sala, deverá diferir apenas alguns dias. Mas enfim… é-nos muito difícil vibrar e orgulhar com a excelência. Que venha o próximo ano letivo… e com ele os bons professores que todos os meninos e meninas merecem, porque um dia a escola vai mudar: eu acredito!

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