Correio do Minho

Braga, sábado

Um porquinho chamado Libório

Plástico - Pequenos passos no caminho certo

Ideias

2014-06-29 às 06h00

Carlos Pires

Um porco, melhor, um porquinho - atenta a dimensão do bicho -, preto, de seu nome Libório, foi a estrela das festas sanjoaninas bracarenses deste ano. Tudo devido à tradição medieval que a organização das Festas de São João quis agora recuperar - a ‘Corrida do Porco Preto’ -, número pelos vistos muito considerado nos séculos XVI e XVII no âmbito destas festividades. Nesses longínquos tempos, diz-se, um porco preto - símbolo de animal feroz - era largado no Monte Picoto e disputado, em correria até ao rio Este, por dois grupos da cidade, os moleiros e os sapateiros. O ritual viria a ser proibido pelo governador da cidade. 2014, Braga: a diversão iniciou bem antes da noite da corrida propriamente dita, desta feita com a “troca de galhardetes”, exponenciada nas redes sociais (v.g. facebook), também entre dois grupos: de um lado, os apoiantes da ‘Corrida do Porco Preto’; do outro lado, aqueles que pugnavam pelo seu cancelamento. A que não ficou alheio, naturalmente, e à mistura, algum (conveniente) aproveitamento político.
O grupo dos apoiantes apela à ‘tradição’ e alerta que nenhuma violência ou crueldade são exercidas sobre o porco. A fação contrária, por seu turno, conota a corrida como um ato medieval não compatível com uma cidade que se quer moderna e civilizada, e recusa aceitar a utilização de um animal num espetáculo de entretenimento.
A ‘Corrida’ acabou por ocorrer, na noite do passado dia 20, e o Libório viu-se obrigado a percorrer as artérias da cidade que lhe estavam destinadas, ao som de gritos, gargalhadas e alguma confusão.
Eu não presenciei o evento, mas tive oportunidade de assistir a reportagens da televisão, bem como recolhi a opinião de algumas pessoas que assistiram ao evento. O que me pareceu? Elitismos à parte e com toda a sinceridade? Um desfile do ridículo! Decadente. Uma parada que mais parecia uma cena do filme de Ettore Scola, “Feios, Porcos e Maus”. Tive vergonha “por osmose”, confesso.


Passemos pois a uma rápida análise do acontecimento. Desde logo, podemos questionar: o que é “Tradição”? Podemos defini-la como transmissão de práticas ou valores do passado, que nos identificam, e que por isso continuam a ser aceites no presente.
Há pois critérios mais importantes do que o tempo para definir o que é - ou deve ser - tradição.
Primeiro: só porque algo é ou foi praticado há muito tempo não tem que ser necessariamente objeto de respeito e aceitação. Segundo: toda e qualquer tradição não é necessariamente algo de bom. A visão contrária legitimaria, por absurdo, a “guerra”, como uma tradição que dever-se-ia ressuscitar.
As práticas ancestrais são pois sempre passíveis de serem questionadas. Para que haja evolução é preciso que haja de igual forma mudança na forma de pensar e no modo como agimos.
Ora, a ‘Corrida do Porco Preto’, fazendo parte da “cultura do pão e circo”, não constitui uma prática com a qual a generalidade dos bracarenses se identifique nos dias de hoje, pelo que não nos merece respeito e devemos rejeitá-la, porquanto desligada do mundo e do seu tempo.


O Homem acha-se o dono da Terra e não acha que deva respeito e proteção às demais espécies. À luz desta verdade percebemos que se continue, nomeadamente, a destruir o ambiente e que, na contemporaneidade, sob a justificativa da história, da tradição e da cultura, e para fins de divertimento humano, ainda se aceite que as regras de utilização do animal não sejam pautadas pela ética e por princípios morais.
É preciso despertar para um novo paradigma de manifestação elementar de cidadania: abandonar antigos e ultrapassados entendimentos de subjugação das demais espécies; estabelecer uma nova ética: a da vida digna a todos os seres sensíveis e não apenas ao Homem, a ser observada e ensinada nas famílias e nas escolas.
Mesmo que se afirme que ao porquinho Libório não foi infligida dor, certo é que não existe ética em subjugar um animal indefeso, tratado como um objeto desprovido de dor, de sensibilidade, enquanto a plateia, ignorante e indiferente ao sofrimento, diverte-se e aplaude. Tal não pode ser visto como lazer e muito menos como manifestação cultural. Não há pachorra!

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