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Um Português, um Espanhol e a Produtividade

André Soares – o nosso patrono!

Um Português, um Espanhol e a Produtividade

Escreve quem sabe

2019-11-22 às 06h00

Rui Martins Ferreira Rui Martins Ferreira

Há 10 anos atrás fiz Erasmus na Lituânia e, entre estudos e copos, conheci dois amigos: Um Português, o outro Espanhol. Embora fossem da mesma idade, não podiam ser mais diferentes um do outro. O Português era um marrão à séria. Não faltava a uma aula e só ia beber uma cerveja se fosse obrigado. O Espanhol era o oposto. Gostava mais do outro lado da vida universitária, e só raramente aparecia numa aula.
Eu gostava de andar com ambos. O Português mantinha o meu lado responsável vivo. O Espanhol o meu leque de boas memórias preenchido.
Dez anos depois, numa reunião de amigos descobri não só que, ambos trabalham no mesmo setor, como as empresas onde trabalham faziam negócios juntas. O meu amigo português é gestor de uma empresa têxtil. O meu amigo espanhol é gestor de marca numa empresa espanhola.
Impressionado com a coincidência, fui investigar como é que o negócio tinha sido gerado.

Quando perguntei ao meu amigo espanhol, ele respondeu-me que estavam à procura de um parceiro bom e barato a quem pudessem contratar a produção. Quando perguntei ao meu amigo português, ele respondeu-me que estavam à procura de um parceiro estável com quem pudessem ocupar uma máquina menos preenchida.
Quando perguntei ao meu amigo português o que é que vendiam à empresa espanhola, ele respondeu que faziam casacos. Custavam-lhes 5€, mas conseguiam vender por 12€. E como eram muitos casacos, faziam algum dinheiro.
Fui falar com o meu amigo espanhol e questionei-o se os casacos do site a 60€ eram aqueles produzidos em Portugal. “Sim, são. Se estiveres interessado, diz-me e arranjo-te um desconto de 40%. Há margem para isso”.
Lembrei-me desta história quando há dias ouvia o programa “Tudo é Economia”. A dada altura, a propósito da discussão sobre o salário mínimo, a solução de um dos economistas para aumentar a produtividade (e sustentar a subida dos salários) era modernizar o setor produtivo, adquirindo novos equipamentos e máquinas.

Posso estar enganado, mas tenho a sensação que isso resume toda a discussão sobre a produtividade: Comprar máquinas e produzir mais ao mesmo custo ou, “com sorte”, mais a um custo inferior.
No entanto, a verdade é que o meu amigo espanhol, a trabalhar numa empresa sem qualquer processo produtivo, e vendendo exatamente o mesmo produto, acaba por ser muito mais produtivo que o meu amigo Português.
Talvez seja uma solução ingénua da minha parte, mas porque é que não centramos a discussão da produtividade em vender a um preço superior aquilo que fazemos? Seria definitivamente uma solução mais eficaz.
Como? Deixando de vender “apenas” produtos para vendermos marcas, porque é aí que a predisposição das pessoas para pagar sobe. As soluções ditas “racionais” são bem-intencionadas, mas não são as únicas capazes de melhorar a produtividade.
Aliás, como o Rory Sutherland refere no seu mais recente livro, “Alquimia", o espaço de melhoria nestas soluções já é muito reduzido enquanto nas soluções com uma vertente emocional – necessária para a criação de uma marca - o espaço é muito superior. E para isso o marketing pode dar uma ajuda.

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