Correio do Minho

Braga, segunda-feira

“Vá… toca a por a pé.”

O mito do roubo de trabalho

Escreve quem sabe

2018-09-11 às 06h00

Cristina Palhares

Um beijo…. Uma festa no meu cabelo. “Meu querido, acorda… é hoje. Chegou o primeiro dia da escola. Está na hora. Não podemos chegar atrasados.” Levanto a cabeça, ensonado. Não sei se chore, não sei se ria. Tenho o meu urso de peluche, a olhar para mim do mais fundo dos seus botões pretos no lugar onde deviam estar os olhos, e desta vez a dizer: “Vá…toca a pôr a pé.” Afasto os lençóis, e, sentado na cama pego no meu urso, e, crescido como fiquei de repente, abro a arca dos brinquedos esquecidos, deito-o depressa por cima de todos os outros, fecho a tampa da arca, e, penso alto: “Chegou o primeiro dia.” Levo comigo todos os meus materiais novos, os meus cadernos, lápis, estojo, tintas, plasticina, tablet, carregador, régua e esquadro, papéis de muitas cores. Levo comigo toda a minha sabedoria, as letras que já sei, os números que me encantam, um sem número de curiosidades que descobri. Levo comigo a vontade de querer saber muito mais, de aprender todos os dias, e de nunca, mas nunca mesmo voltar para casa sem trazer algo de novo. Levo comigo o que sou, mas acima de tudo o que serei. E levo já. Rápido como o é a vontade. Veloz como o é o meu corpo. Feliz como o é o meu sonho.

O meu primeiro dia. Passou depressa… volto para casa. Corro ao meu quarto, tiro o meu urso de peluche da arca de brinquedos, pouso-o bem sentado em cima da minha cama e olhos nos olhos, mais ou menos porque os dele são feitos de botões, e de dedo em riste, ameacei-o com um valente “Tinhas razão. O meu primeiro dia foi o máximo!” Deitei-me na minha cama, olhar fixo no teto do meu quarto e com o meu urso bem agarrado a mim, deixei que a minha memória voltasse ao primeiro momento em que entrei na minha escola, na minha sala. Sala grande, com meninos e meninas de muitas cores, de muitos tamanhos, de muitos feitios; sala grande com mesas e cadeiras, com tapetes e almofadas, com prateleiras e caixotes no chão, com muitos livros e muitos tablets; sala grande com quadros pretos, quadros brancos e quadros interativos; sala grande com bancadas de água, tintas, plasticinas e pastas de modelar; sala grande com papéis de todos os tamanhos, de muitas cores e brancos, colados na parede; sala grande com projetores multimédia incidindo em vários locais das paredes e no teto. Sala grande onde todos os meninos e meninas, grandes e pequenos, de todas as formas e feitios, dançaram, cantaram, tocaram, saltaram, correram, jogaram, experimentaram, aprenderam, escreveram, leram… viveram.

O barulho era diluído na vontade de tudo experimentar e querer saber, a admiração pelas descobertas e o espanto que elas provocavam serviam sempre para querer ir mais além, e o silêncio o momento de integrar o que as palavras não conseguiam dizer. Trabalhei, joguei e brinquei com todos os meninos e meninas da minha sala. Tivemos momentos de silêncio, momentos de barulho, momentos em pequenos grupos, momentos em grande grupo e momentos a sós. Os professores sempre disponíveis para as nossas dúvidas, orgulhosos das nossas descobertas, incentivando as nossas atitudes, mediando as nossas aprendizagens, fazendo brilhar os nossos talentos, levando-nos a admirar a nossa sala e a vida que ela continha. Apertei ainda mais o meu urso de peluche.

Queria tanto que ele percebesse tudo o que eu lhe estava a contar….Queria tanto que ele acreditasse em tudo o que tinha vivido naquele dia…queria tanto que ele soubesse como os meninos da minha sala eram grande e pequenos, de todas as formas e feitios…Queria mesmo. Queria que ele percebesse o quanto os meus professores me levaram a aprender, acreditando em tudo o que eu já sabia…Queria que ele percebesse o quanto os professores me espantaram, me fizeram admirar e que, por isso, eu aprendi. Queria tanto! Queria tanto que ele conhecesse os amigos todos da minha sala. Aqueles amigos de todos os tamanhos, de muitas cores e de muitos feitios. Queria sim! Apertei o meu urso de peluche ainda mais um bocadinho. Os meus professores acreditam em tudo o que eu sou, e aceitam-me assim. Os meus professores acreditam em tudo o que já sei, e levam-me a aprender o que ainda não sei. Os meus professores acreditam nos meus sonhos, e ajudam-me a admirar o meu mundo.
Um beijo…. Uma festa no meu cabelo. “Meu querido, acorda… é hoje. Chegou o primeiro dia da escola. Está na hora. Não podemos chegar atrasados.” Levanto a cabeça, ensonado. Tenho o meu urso de peluche, a olhar para mim do mais fundo dos seus botões pretos no lugar onde deviam estar os olhos, e desta vez a dizer: “Vá…toca a pôr a pé.”

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