Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Vem aí o lobo

Quando Salazar proibiu a ‘Time’

Escreve quem sabe

2019-03-15 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha

Quando era criança e corria pelo sobrado com os meus irmãos, o meu tio-avô, Eduardo, avisava-nos que vinha aí o lobo; e a minha tia-avó, Beatriz, acrescentava que as bruxas espreitavam do lado de fora das janelas, prontas a entrar com a vassoura. E nós parávamos cheios de medo da escuridão que rodeava a casa da quinta.
Agora os lobos são outros que ameaçam devorar-nos.

E o primeiro grito vem das mulheres, objeto de violência doméstica, que sublinham que Neto De Moura volta a atacar. Se o juiz em causa fosse caso único, não haveria preocupação; desta espécie existem em todas as profissões. O problema é que muitos magistrados pensam desta maneira. Os seus valores são de outra época em que a mulher casada era escrava do marido.

Há um problema grave com a magistratura: o sistema de recrutamento e seleção é inadequado e o processo de formação em vez de criar magistrados respeitadores da lei e dos valores que informam o pensamento moderno, produz sacerdotes de uma igreja que se assumem senhores da verdade absoluta. E, depois, defendem-se mutuamente. Basta ouvir o Presidente da Associação Sindical para ficar claro o corporativismo e a falta de bom senso.
Estou a acabar de ler o livro de Frédéric Martel, NO ARMÁRIO DO VATICANO: PODER, HIPOCRISIA, HOMOSEXUALIDADE. Esta obra resulta de uma investigação jornalística aprofundada que mostra que “existe no Vaticano uma maioria de homossexuais; por vergonha, por medo e por carreirismo, esses cardeais, esses arcebispos, esses padres querem proteger a sua vida secreta e os seus poderes”. A acrescer grassa a pedofilia e os abusos sexuais, dizendo alguns com alguma piada que o versículo do Evangelho segundo S. Mateus: “Deixai vir a mim as criancinhas porque deles é o Reino dos Céus” deve ser reescrito porque os representantes de Cristo são o inferno das crianças.

O outro grito de terror vem dos contribuintes, aterrorizados com novos episódios bancários. Agora é o Novo Banco, mas virá a seguir o Montepio. Por mais que me esforce não percebo nada disto. Vejo os banqueiros a passearem-se como se nada fosse; os devedores de milhões nada incomodados; os gestores a passearem-se de banco para banco. O Governador do Banco de Portugal, a quem pertence a regulação e a auditoria do sistema bancário assiste a tudo do seu pedestal. Até quando os contribuintes estão calados e não se revoltam. E o governo dá explicações que ninguém percebe, nem aceita.
Finalmente, ficamos a saber que as esmolas de milhares de portugueses para acudir ao desastre dos fogos de 2017, continuam armazenadas. E já lá vão quase dois anos. Parece que o Ministério Público entendeu que está tudo bem. Eu não entendo nada disto, ou melhor, entendo.

Podemos estar perto de um qualquer populismo, já que os cidadãos começam a estar fartos de serem ludibriados. Para Clara Ferreira Alves, não corremos esse risco porque Portugal inventou o “nacional-porreirismo” que patrocina a estagnação do sistema. E o Presidente da República, de tanto chamar à tolerância, pode ser um dos feitores desta podridão e marasmo.

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