Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Vergonha e despudor

Escrever e falar bem Português

Ideias

2015-02-13 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

As notícias sucedem-se a um ritmo avassalador dando-nos nota de mais uma incursão da justiça, agora na PT, numa busca assente em suspeitosas ilicitudes. Mais claramente quanto ao investimento ou relacionamento íntimo com o BES, seus antecedentes e suas sequelas. Entretanto no Parlamento continua a desenrolar-se um inquérito parlamentar em que é figura de proa o ocorrido com o mesmo BES, tentando apurar-se, ou talvez não, responsáveis pelo descalabro havido.
E escrevemos apurar-se ou talvez não porque a história mostra-nos que os inquéritos parlamentares não passam de meras balelas sem resultados concretos e que se vejam, até porque, sendo levados a efeito por políticos, no final ou não se chega a conclusão nenhuma ou a alcançada não é mais do que um “arranjo” arquitectado e produzido em ordem a não desestabilizar e a “contentar” a maioria dos inquiridores, por norma do mesmo partido ou de qualquer coligação em vigor.
E tudo isto é vergonhoso e descredibiliza a política que vem dominando neste país já que vem vingando e tem-se o despudor de não se avançar direta e eficazmente para as realidades que se querem averiguar, procurando-se realmente descobrir a verdade e “chamando os bois pelos nomes”, mas, pelo contrário, tão só se vem avançando para soluções e conclusões de conveniência e de compromisso que mais ou menos agradem a todos os quadrantes. Como aliás tem vindo a acontecer com muitos outros anódinos e anteriores inquéritos parlamentares, para já não falarmos no recorrente, repetitivo e “assombrado” ou “embruxado” inquérito a Camarate, aliás já com várias “edições” (!?).
Aliás a verdade é que aos políticos e demais detentores de cargos públicos é de todo conveniente que não se alterem os procedimentos, leis ou as regras processuais no que concerne ao enriquecimento ilícito e que possam obstar à corrupção, interessando e sendo de todo “conveniente” e importante que não se tenha de explicar as origens ou as causas de “insólitos” aumentos de fortuna, “extravagantes“ formas de vida e até de avultadas somas de dinheiro que “milagrosamente” surgem, transitam e se acumulam. Que certamente não “brotaram” do nada e por “geração espontânea”, sendo que muitas das vezes escondem ou alapam “tramóias”, certos “jogos do poder”, “prendas”, ilegalidades ou mesmo crimes. O João Cabrinho, do PS, aqui há uns anos bem quis avançar com um projecto e leis que mais e melhor trouxessem clareza, limpidez e verdade aos “dinheiros” e “riquezas” dos detentores de cargos público-políticos, afastando-se corrupções e actos conexos, mas os seus pares parlamentares e outros não foram na conversa e o homem até foi colocado num Banco lá fora. Para o calarem ou para se verem livre dele?
Se lhe tivessem dado ouvidos e ultrapassado falsos “pudores” de constitucionalidade e outros de natureza processual-penal, não se ficando (nem se “fiando” ) nas usuais declarações “democráticas” hoje adoptadas e obrigatórias (!) quanto aos detentores de cargos políticos e seus interesses e rendimentos, de certo que não vínhamos assistindo hoje à pouca vergonha e à generalizada falta de pudor que têm vindo minando os nossos políticos e governantes (centrais, autárquicos e outros) que, aliás, só têm vindo a fazer crescer todo um descrédito e uma falta de confiança do povo em relação à política, aos seus mentores, dirigentes e demais responsáveis pela “res” pública. E por mais bacoradas que “alguns” venham bolçando contra a justiça e sua actuação, a grande verdade é que ela afinal, e ainda que inóspita e surprendentemente, tem vindo a funcionar e a querer fazer vingar um estado de direito, muito embora “condicionada” e seguindo as regras e leis que os mesmos políticos em tempo oportuno aprovaram, como é caso da conservação das escutas até ao fim dos respectivos inquéritos, dos RERTs I e II, do funcionamento e regras dos serviços prisionais, etc., etc..
E se o caso de Sócrates é paradigmático, pesem embora “os jeitos” e o “palavreado balofo” dos “seus” discípulos e de muitos outros “amigos”, eventualmente temerosos do próprio passado e ainda de certas “assombrações”, “feitiços” e “bruxedos” ocorridos outrora, por via de regra “sempre” embrulhados no celofane de ocas “conversas” e tão só para entreter e iludir, a grande verdade é que tudo quanto hoje se vem dizendo e escrevendo não ultrapassou ainda os limites das meras especulações, não de todo inocentes e desinteressadas, diga-se. Mas há que admitir e reconhecer, e sem medo, que as “estórias” contadas e avançadas, em si mesmo e na sua factualidade e envolvente lógica, de modo nenhum se configuram ou enformam tão só uma mera e simples “novela política” e muito menos uma qualquer cabala, habilmente “montada” e agora até “pretendida” porque conveniente. Os amigos, na verdade, são para as ocasiões, mas as duras realidades da vida vêm-nos mostrando que há de facto amigos e... amigos, mas nunca e em tempo algum deparámos com amigos “especiais”, dos que avançam dinheiros e entregam milhões facilmente sem um mas ou meio mas, e sem quererem, receberem ou terem aceite nada em troca. E tudo, pasme-se, sem uma simples nota de débito ou uma garantia de segurança para o futuro!... Aliás a “estória” é tão insólita e espantosa que o conhecido empresário e militante socialista Henrique Neto é o próprio a dizer que «aquilo que Sócrates conta não é normal. Pedir aqueles empréstimos ao amigo, de valor tão elevado ...» (C.Manhã, 27.1.15).
Mas se é de todo óbvio que há “crentes” para tudo e para todos os gostos, até por conveniência, diga-se, não estamos a ver o conhecido e falado Dom Bruxo de Vilar de Perdizes a “cozinhar” uma qualquer “mezinha” ou a fazer uma “queimada” que consiga “esconjurar” e pôr fim ao “bruxedo”, feiticismo e magia de uma “estória” tão mal contada, insólita, inaudita e extravagante. Aliás, a grande e triste realidade é que todos os dias vimos sendo confrontados com muitas outras “estórias” e “casos” extravagantes que, em termos matemáticos, têm contudo um denominador comum : os “maus” das “fitas”, que hoje enchem os tribunais e os media, são sempre políticos, em acção ou já na “reforma” após governações autárquicas, centrais ou outras, surgindo aqui e ali as denúncias de uma falcatrua, de um inopinado e valioso património, de um “jeito” num PDM, de uma “confusão” e “conluio” num “entrelaçar” de vidas pública e familiar, de “troca” de favores e “compadrios”, de “pagamentos” e certas “colocações” em lugares e empresas, de bruscos e surpreendentes “saltos económico-sociais, de “riquezas” inexplicáveis, etc., etc.. Mas cada um lá saberá as linhas com que se cose e tem a sua verdade, registando-se e sublinhando-se tão só, pelo seu significado e valia, a frase de Costa ao sair da cadeia de Évora ao dizer “que Sócrates está a lutar pelo que «acredita ser a sua verdade»” (C. Manhã, 15.1.15).
E ficamo-nos por aqui, e num simples mas significativo etc., etc., porquanto se nos afigura que, ainda que nos possam acusar de visão deformada, de inverdade, de injustiça e até de eventual calúnia, a grande maioria dos portugueses, tal como nós, considera que a grande generalidade dos nossos políticos e ex-políticos não são pessoas sérias, honestas, impolutas, com vergonha na cara e de carácter, e muito menos uns “anjinhos” que podiam ainda ir de fatinho branco à comunhão. Pelo que, e consequentemente, continuaremos a suspirar, defender e lutar por uma vida e sociedade melhores onde vinguem a justiça, a verdade, a honestidade, o carácter e ... um pouco mais de pudor e de vergonha na cara. Aliás, registando-se o já usual humor do nosso povo e ... não comentando, tão só damos nota de que há dias, na Arcada, alguém perguntava se “Fulano de tal”, um político por demais conhecido, já tinha ido visitar o Sócrates à cadeia, o que provocou logo uma gargalhada e a seguinte observação: “O homem pode ter muitos defeitos, ... de carácter, seriedade, honestidade e outros mas não é burro nenhum. É que ainda há lá algumas celas vazias e não convém abusar da sorte” !...

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