Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Voando nas asas do sonho

A avestruz risonha que tocava Strauss

Conta o Leitor

2011-08-05 às 06h00

Escritor Escritor

Por Elmanu

Era um pássaro vulgar que não se distinguia em nada de outros pássaros vulgares como ele. Talvez apenas na idade pois era dos mais velhos que por ali costumavam aparecer. Via-se isso na sua penugem já gasta, descolorida e com falhas a notarem-se em algumas partes do seu corpo. As unhas, compridas e retorcidas, eram mais um sinal da sua velhice e as cicatrizes, algumas, que se notavam aqui e ali, denotavam uma vida já vivida, sinais de lutas passadas, umas ganhas e outras perdidas. O tempo tinha deixado as suas marcas e, olhando nos seus olhos, notava-se-lhes alguma nostalgia do tempo passado. Sentia-se que não era um pássaro feliz. Talvez devido à solidão ou talvez devido à vontade que sentia de, sempre que via outros pássaros que por ali passavam chilreando alegremente e voando livremente de árvore em árvore e de galho em galho, ser capaz de ser como eles. Ele, o velho pássaro, já há muito que deixara de chilrear igual aos outros e os seus voos eram cada vez mais curtos, nunca se afastando muito pois tinha receio de não aguentar e de não ser capaz de voltar à sua casa, ao seu ninho. Era ali, no seu canto, que ele encontrava a paz e a segurança. Aquele era o seu refúgio seguro. Uma vez por outro fazia uma tentativa de acompanhar os mais novos mas as suas energias já não eram as de outrora e ele rapidamente tinha que desistir. Não ficava triste com isso pois sabia que o seu tempo tinha passado e que esta era a hora de descansar. Mas tinha saudades do tempo em que podia voar livremente por todo o lado. Não exactamente do tempo, mas de voar. E pensava para si se, algum dia, ainda seria capaz de fazer um daqueles voos de antigamente, de voltar aos lugares até onde já tinha ido ou, até, a outros onde não tinha chegado nunca. Na sua imaginação ele sentia que poderia, que seria capaz. Isso ajudava-o a mitigar a enorme solidão em que se sentia. Entretinha-se a fazer as coisas que todos os velhos pássaros fazem mas não sentia nenhuma realização nessas coisas. Não era o género de pássaro de pensar muito no passado mas, quando isso acontecia, lamentava a quantidade enorme de erros que cometera, dos voos em falso que dera, dos amigos que perdera. Demasiado entretido com coisas que não eram importantes, sentia que a vida lhe passara um pouco ao lado.
Mas, um dia, algo novo veio alterar a sua rotina. Reparou num pássaro diferente que voou até uma árvore perto de si. Este não era um pássaro vulgar como os outros, era distinto. Tinha um voo mais elegante e leve, as penas eram mais coloridas e graciosas e o chilrear era mais melodioso. Perguntando aos outros acabou por saber que era uma andorinha. Começou a observá-la e reparou que andava numa azáfama constante, voando rápida e elegantemente de um lado para o outro, certamente na busca de alimentos para os seus e desaparecendo tão rapidamente como aparecia, pouco tempo permanecendo por ali. Estava uns tempos sem aparecer mas, de repente, lá estava ela de novo na árvore perto dele e por ali se deixava ficar por breves instantes. Talvez para descansar e recobrar forças para novos voos e novas buscas. Ou talvez apenas para conviver um pouco com os outros pássaros que ali costumavam parar.
Olhando o seu voo elegante e a rapidez com que se deslocava começou a crescer no velho pássaro a vontade de voar junto, de sentir de novo a liberdade de quando era mais jovem. E tentava mas logo uma voz interior lhe dizia: “tem juízo, já não tens energia para esses voos, nem idade para a acompanhar”. E ele, sabendo que essa devia ser a sua realidade, desistia voltando para o seu canto, ficando apenas a observar. Durante os tempos em que ela permanecia ausente ele sentia a sua falta mas também, curiosa e simultaneamente, algum alívio. Era uma mistura estranha de sensações que a andorinha despertava nele: sentia-se bem com ela por perto, não queria afastar-se dela mas, quando era obrigado a regressar ao seu canto ou quando ela se ausentava, sentia que talvez fosse melhor assim. Sem a presença dela era-lhe mais fácil resistir à necessidade e à tentação de fazer coisas para as quais já não tinha capacidade.
Mas o inevitável aconteceu. Um dia ela apareceu por ali depois de um longo tempo de ausência e ele sentiu algo de estranho. Uma energia nova e diferente começou a crescer dentro de si, sentiu-se rejuvenescido e decidiu tentar acompanhá-la nos seus voos. Hesitante a princípio, foi criando coragem a cada momento e, quando deu por si, voava como nos tempos passados. Não sabemos o que a andorinha pensaria desta nova companhia mas não pareceu opor-se a que ele a fosse acompanhando. E ele lá foi, voando de novo, sentindo-se jovem outra vez e quando, ao findar da tarde, regressava ao seu ninho, regressava feliz, tão feliz como há muito tempo não se sentia, como se tivesse voltado a viver novamente. Não só voltara a chilrear como até foi capaz de trinar. E, trinando, compôs mesmo algumas melodias que, pensava ele, eram belas melodias que ela certamente apreciaria embora não as comentasse. Nunca saberemos se gostava delas ou se apenas as escutava por delicadeza para com o velho pássaro.
A vida para ele voltava a valer a pena e até já sonhava com novos voos.
Os dias e as semanas foram-se sucedendo e a felicidade e a alegria que haviam começado a despertar nele permaneciam iguais ou até, talvez, mais intensas porque lhe parecia que a andorinha, por alguma razão estranha, parecia sentir prazer na sua companhia. Muitas vezes acontecia de ele pensar para si próprio que teria de parar qualquer dia, que aquela não era já a sua vida, que mais tarde ou mais cedo a andorinha teria de voltar à sua vida e que, então, ele não a poderia acompanhar. Mas rapidamente afastava esses pensamentos. Não queria ter que pensar nisso ainda e ia adiando o momento que, inevitavelmente, teria de chegar. E foi continuando os seus voos e os seus sonhos. Não reparava que estava voando nas asas desses sonhos e não com as suas próprias asas.
Mas os sonhos, todos os sonhos, terminam um dia. Para todos acontece fatalmente o acordar. E o velho pássaro teve de acordar. E, quando esse momento chegou, percebeu que a sua realidade não era a que ele tinha estado a sonhar, mas uma outra era bem diferente. Dolorosamente diferente. E aí teve que tomar a decisão que talvez lhe tivesse custado mais em toda a sua vida: a de se afastar, de voltar para o seu canto e deixar de viver uma ilusão que não podia ser a dele. Percebeu que o seu sonho chegara ao fim e que teria de deixar que a andorinha prosseguisse livremente o seu voo e regressasse para junto dos seus.
O velho pássaro vai certamente continuar a voar por mais algum tempo mas sabe, agora, que apenas o poderá fazer com as suas próprias asas e apenas até onde estas lhe permitirem ir. Irá certamente continuar a vê-la passar por ali mas sabe que não mais poderá voar junto pois o seu tempo não é o dela. Vai procurar ser feliz com aquilo que a vida lhe reservou. Vai continuar a viver mas agora com uma doce recordação a acompanhá-lo: a de, por momentos, lhe ter sido possível sonhar.

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