Aida Alves: Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva é um pólo cultural de Braga

Entrevistas

autor

Rui Alberto Sequeira

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A Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva é hoje muito mais do que um simples espaço de leitura e requisição de livros, assumindo-se como um local de cultura aberto à população e ás instituições
da cidade. Em entrevista á Radio Antena Minho e ao Correio do Minho, Aida Alves, directora da BLCS assume o desafio de aumentar o numero de utentes inscritos e realça o papel na dinamização do livro e da leitura no concelho.

P - A Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva (BCLS) para além daquela que é a sua função enquanto espaço dedicado ao livro e á leitura, tem assumido desde 2004 e sempre em crescendo, uma vocação mais alargada, tornando-se uma referencia na programação cultural da cidade.
R - De facto desde que abriu as suas portas, a BLCS tem vindo a procurar posicionar-se localmente junto de todos os parceiros institucionais e de todos os segmentos de público, construindo o seu nome e por outro lado combatendo aquilo que é uma visão tradicional de biblioteca pública. Creio que em Braga até 2004 haveria a noção que a biblioteca pública era apenas um espaço de conservação e de património bibliográfico e em que o acesso às obras, por vezes, tornava-se complicado, difícil. Foi desejo da Universidade do Minho (UMinho) e da Câmara de Municipal de Braga (CMB) integrarem um novo polo de leitura pública na Rede Nacional de Leitura Pública (RNLP). Esta integração obrigava a cumprir um conjunto de requisitos e pretendeu criar numa biblioteca publica, um espaço não apenas de acesso livre, um acesso mais democratizado, onde não existam grandes barreiras físicas e barreiras no acesso á informação. Para se trabalharem todos estes aspectos é preciso disponibilizar os livros, os jornais as revistas, todos os recursos de informação ao publico e disponibilizar também postos informáticos de acesso á internet. Para além deste trabalho temos igualmente de criar estratégias de cativação de público. As pessoas hoje em dia precisam de mais e as bibliotecas públicas estão a caminhar para serem espaços de conhecimento, de recreio, de sociabilização, de apreensão, de informação que lhes crie bem-estar e qualidade de vida. Cabe às bibliotecas, não apenas ás de leitura pública, mas também a outras como aquelas que localmente temos como parceiras - as bibliotecas escolares - criar espaços de socialização em torno da informação de forma a que todos nós, gradual- mente, progridamos na aquisição de conhecimento para termos mais massa critica.

P - As bibliotecas deixaram de ser um local de passagem para serem tendencialmente um local para se estar?
R - A nível internacional verificamos que cada vez existem menos livros nas estantes e mais espaços de socialização. Há menos livros nas estantes, não porque as pessoas procurem menos os livros em papel, mas porque estão acondicionados em depósito o que permite a libertação de espaços de leitura, para conversação, tertúlia, despoletados pelos próprios interesses dos cidadãos. Creio que temos aqui uma dinâmica muito interessante que se tem vindo a criar nas bibliotecas.

P - É dentro deste pensamento que a BLCS tem a sua programação cultural?
R - Aquilo que se pretende é mostrar às instituições e ás pessoas de forma individual que podem usar um espaço da BLCS para promover momentos que levem as pessoas aprenderem outras competências. Existe um leque de áreas em relação às quais estamos muito sensíveis porque as pessoas procuram-nos e perguntam se nós vamos fazer. Amadurecemos as ideias e isso entra num programa que não é feito de forma instantânea. Todos os anos temos um plano de actividades que é aprovado pelo Conselho Directivo da BLCS que está seccionado, segmentado para diferentes tipos de publico, sobretudo em função de escalões etários. É um plano que não é estático, que se vai compondo, enriquecendo e diversificando ao longo do ano, também em função da abertura que a BLCS tem junto da comunidade. Temos um programa formativo, educativo e cultural, temos um conjunto de ofertas que já estão programadas anualmente. É um programa de iniciativas que não é fechado para as novas necessidades da comunidade.

P - Essa interacção com a sociedade é facilitada pelo facto de a Biblioteca ter um estatuto que será inédito em Portugal, ter como parceiros fundadores a UMinho e o Município de Braga, duas instituições com uma importante presença no território concelhio.
R - Naturalmente conseguimos aproveitar todas as interseções que existem entre as actuações destas duas entidades com forte peso institucional. A CMB tem uma proximidade muito grande com o cidadão responde às suas necessidades e cria políticas para comunidade e a UMinho tem o conhecimento ao mais alto nível cientifico. Penso que a BLCS será um espaço de encontro harmonioso entre as diferentes áreas de actuação quer do Município, quer da universidade.

P - Inicialmente o processo de conciliação de interesses e de articulação entre estas duas entidades para a formação da Biblioteca não foi muito fácil.
R - Todo o processo de arranque torna-se por vezes difícil de resolver porque existem muitas interrogações, muitas duvidas quanto ao futuro. Por mais que se tente fazer um planeamento a médio, longo prazo, há sempre muitos encargos que se colocam. Não sabemos muitas vezes como é que a instituição se vai projectar na comunidade e a comunidade na instituição.

P - Braga também partia de uma situação um pouco “sui-generis” que era ter a Biblioteca Pública como unidade cultural da UMinho.
R - Uma biblioteca pública dependente de uma universidade é inabitual. A BLCS é uma unidade diferenciada da UMinho porque resulta de um protocolo com a CMB. Por outro lado, também se pretende que exista a ponte com a comunidade e daí esta presença do Município de Braga que vem proporcionar essa faceta.

P - Para se perceber melhor a Biblioteca Pública de Braga como unidade cultural da Universidade mantém o estatuto de espaço de conservação de espólio até 1975…
R - Está com o acervo até 1975 na área da monografia, pese o facto de também ter alguns exemplares mais recentes e tem o grande património das publicações em série - uma grande riqueza em termos de memória colectiva.

P - Está previsto para breve reanalisar o protocolo entre a Câmara de Braga e a UMinho que levou à criação e gestão da BLCS?
R - Sim. Em 2018 vão ser novamente revistos os estatutos da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva.

P - Prevê alterações?
R - Eu não tenho nenhuma informação neste momento. Trata-se de um processo que está em análise. Não posso adiantar nada a não ser referir o bom funcionamento do Conselho Directivo que tem contribuído ao longo dos anos para que a Lúcio Craveiro da Silva continue a prestar o serviço à comunidade.

P - Com a experiência que tem acumulado ao longo dos anos em que está como directora (desde 2007) entende que este modelo necessita de algumas afinações ou ainda não está esgotado?
R - Da experiência que reuni, penso que neste momento estamos com um modelo devidamente consolidado. As duas entidades fundadoras entendem-se. Existe uma gestão interna daquilo que são os procedimentos administrativos, financeiros e há confiança, transparência entre as partes. Tem sido uma experiência tão positiva que lamentaria se ela não continuasse. Foi uma união de forças, de vontades que se revelou muito equilibrada, muito harmoniosa e proveitosa.

P - A BLCS tem a responsabilidade do depósito legal - desde 1975 - quer dizer que todos os livros que são publicados em Portugal estão na quase totalidade no vosso espólio. Em termos físicos a BLCS ainda tem capacidade para continuar a manter essa função por muito mais tempo?
R - O depósito legal está sob a tutela da Biblioteca Pública de Braga - Universidade do Minho e há um acordo em que o Fundo Documental Monográfico passaria por uma questão de interesse público e de leitura pública para a BLCS. Estamos a prever dificuldades nos próximos quatro/cinco anos de alguma saturação dos espaços físicos de alocação de publicações. Mas é um processo que está a ser negociado com a Biblioteca Pública no sentido de existir uma nova repartição de espólio documental mais antigo da BLSC, que possa transpor-se para a Biblioteca Pública para reequacionarmos os espaços físicos em termos de armazenamento.

P - Existe um fundo documental bibliográfico muito valioso na Biblioteca Pública de Braga que agora continua com a BLCS. A população em geral tem noção da riqueza deste património na cidade de Braga? E também as próprias instituições da cidade têm essa apreensão?
R - É uma informação que não chega a todos. Quem conhece melhor o nosso espólio documental são, principalmente, os professores, os investigadores, os estudantes de vários níveis de ensino. Temos neste momento quase 450 mil registos bibliográficos inventariados, em base de dados, disponível para consulta “on-line”. As pessoas muitas vezes não se apercebem, quando requisitam livros na Lúcio Craveiro da Silva, do valor patrimonial que levam em mãos. Sabem que as bibliotecas públicas existem, sabem que emprestam livros gratuitamente - até ao momento - ao domicílio. É uma sensibilização que temos de fazer diariamente junto dos nossos utilizadores. Existe uma percentagem significativa da comunidade bracarense que desconhece o que se passa na BLCS, nem tem noção das temáticas enciclopédicas que temos ao dispor. Temos livros sobre todas as matérias e que temos vindo a enriquecer a oferta com aquisições próprias no sentido de satisfazer a procura. Investimos principalmente na área da medicina.

P - Há uma adequação aos novos públicos que vão surgindo?
R - Necessariamente. As bibliotecas têm que estar atentas.

P - Podemos dizer que em Braga não há desculpa para não se ler.
R - Não há.

P - De onde vem o financiamento da BLCS?
R - As verbas vêm do Orçamento de Estado, 50% é reencaminhado pelo Município de Braga e os outros 50% pela UMinho. Uma parte do nosso orçamento é aplicado na compra de publicações em série e também em aquisição de fundo documental.

P - Disse que para já não está equacionado pagamento de uma taxa por parte de quem requisita um livro na biblioteca para levar para casa. É uma situação que está a ser pensada?
R - A nível europeu já se encontra em prática o pagamento de uma taxa por parte do leitor ou do estado. Trata-se de uma matéria em que Portugal está em incumprimento de uma directiva europeia. O nosso país recusou a aplicação de uma taxa porque vai contra as directrizes da Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias (IFLA) e da UNESCO que é proporcionar o acesso livre e gratuito à informação e à documentação, a todas as pessoas. Do meu ponto de vista e enquanto bibliotecária, acho que o estado agiu bem porque sabemos que existem famílias mais carenciadas e numerosas que são leitores, e por não terem dinheiro para comprar livros não significa que não leiam. É importante haver equipamentos culturais que possam emprestar gratuitamente livros.

P - Mas a transcrição dessa directiva comunitária, obrigará as bibliotecas a seguir esse caminho de aplicação de uma taxa pela requisição do livro?
R - Há uma análise profunda que tem de ser feita pela tutela e por outras entidades. Neste capítulo o que se discute é o pagamento dos direitos de autor.

P - Não estamos a falar de uma receita extra para as bibliotecas?
R - Não será porque a quase totalidade desse valor recebido pela requisição do livro seria para reverter para o pagamento dos direitos de autor.

P - Na sua opinião, sendo o estado a assumir o pagamento dessa taxa já seria admissível a cobrança desse valor de empréstimo do livro?
R -Seria um modelo aceitável.

P - A BLCS tem vários perfis de utentes?
R - Temos! Como existimos há 13 anos já estamos a acompanhar muitas vezes crianças cujos pais os inscreveram como utentes da Biblioteca, com o respectivo cartão de leitor. Nós temos uma panóplia de utentes que vai desde os mais pequeninos até à população sénior.

P - Mas há um público que é muito especifico e que tem crescido nos últimos anos, que são os estudantes. Em determinados períodos do ano a BLCS quase se transforma numa sala de estudo. Na sua opinião que factor é que atrai os estudantes, muitos deles universitários?
R - Fazemos anualmente inquéritos de satisfação e o que posso adiantar é que se temos actualmente 23 300 utentes inscritos, acredito que tenhamos quase outros tantos utentes não inscritos na BLCS e que utilizam os espaços. Tomo para mim e para a minha equipa o desafio de nos próximos anos aumentar o número de inscritos na BLCS. Os motivos que os jovens/adultos apontam para a frequência da Biblioteca tem a ver com a agradabilidade dos espaços, temos a rede 'wi fi' disponível e o fundo documental sempre que necessitem de fazer consultas. Os estudantes sentem que estão numa casa do conhecimento, na casa dos livros.

P - Desde a abertura em 2004 as tecnologias da informação evoluíram consideravelmente. Tem existido um acompanhamento da BLCS na evolução tecnológica ao serviço do livro?
R - Dentro daquele que é o seu orçamento, a BLCS tem tentado actualizar o equipamento informático no que diz respeito aos postos de utilização da internet. Temos feito gradualmente actualizações de software e de equipamento. Recentemente fizemos um reforço com novos computadores. Estamos atentos à produção de portais das novas ofertas ‘web’ que têm aparecido. Renovámos o nosso 'sitio' na internet para responder àquelas que são as práticas mais comuns a nível internacional de 'sites'. Desenvolvemos um conjunto de aplicações que os nossos utentes podem descarregar para os seus telemóveis no sentido de terem informação mais próxima sobre a Biblioteca e as suas actividades. Desenvolvemos mais alguns portais, um deles relacionado com a Bolsa Solidária de Manuais Escolares.

P - O projecto da bolsa solidária continua activo?
R - Sim. É um caso único a nível nacional. Uma rede concelhia de instituições que promovem e fornecem livros escolares para uma rede concelhia de manuais é única. Os manuais que chegam são imediatamente disponibilizados ao público. Nós tivemos uma visita do representante do movimento nacional reutilizar.org que inclusivamente referenciou-nos como um banco local de livros único, para ser seguido a nível nacional.

P - Tem uma ideia do número de manuais escolares que são disponibilizados anualmente?
R - Acolhemos no ano passado 20751 exemplares e emprestámos 4067 manuais escolares. Temos neste momento disponíveis na base de dados 16 mil livros e emprestámos cerca de 4 635.

P - São cidadãos que doam os manuais?
R - Oferecem. Temos instituições que nos ajudam a recolher localmente. As juntas de freguesia são pólos de recolha dos manuais escolares e depois de encaminhamento. A associação de funcionários da UMinho também é um ponto de recolha e de tratamento dos livros. Constituímos uma plataforma de maneira a que todos os parceiros institucionais que se queiram associar a esta iniciativa possam eles próprios fazer o tratamento técnico. Fizemos efectivamente um projecto comunitário em rede.

P - Quando questionávamos sobre as novas tecnologias da informação na BLCS o propósito era também saber ao nível dos conteúdos naquilo que poderemos designar como uma biblioteca digital.
R - A Biblioteca está a fazer um trabalho interno - que ainda não é visível para o público - de digitalização do espólio, principalmente de livros cujas autorizações dos autores já foram dadas, digitalização de textos e digitalização de algumas notícias. Estas digitalizações ainda não se encontram para consulta na internet porque ainda não conseguimos uma plataforma que seja sólida no processo de desenvolvimento. Não avançámos mais na questão dos e-books porque fizemos um estudo do mercado. Vemos que existem alguns fornecedores de e-books, mas reparamos também que cada fornecedor tem uma política específica de utilização daquele suporte, que não é compatível com uma biblioteca pública que pretende potencializar uma plataforma livre. Cada editora tem para os seus e-books requisitos técnicos diferentes. Na minha opinião tem de existir uma regulamentação a nível nacional que uniformize todos os processos de venda e de utilização, sobretudo em bibliotecas e outras instituições de interesse público. Acresce que os e-books têm um custo ainda muito elevado quase igual ao do preço físico do livro.

P - A Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva tem tido um trabalho no apoio às bibliotecas escolares no concelho de Braga.
R - É uma articulação que foi formalizada através de um protocolo entre o Ministério da Educação, autarquia de Braga, o Conselho Directivo da BLCS e os directores dos agrupamentos de escolas do concelho. Foram contempladas cerca de 32 bibliotecas escolares mais a Lúcio Craveiro da Silva. O trabalho que temos efectuado tem sido de parceria através de um plano de actividades comum e por outro lado criámos uma plataforma comum na internet designada Rede de Bibliotecas de Braga (www.rbb.blcs.pt) onde são publicitadas as actividades das escolas, das bibliotecas de escola, da BLCS e outras áreas de interesse da Rede Nacional de Leitura Pública. Temos um catálogo comum que representa o espólio documental existente em todas as bibliotecas do concelho de Braga. Recentemente recebemos o pedido para o apoio às bibliotecas das juntas de freguesia. A Junta de S. Vicente foi a primeira a pedir ajuda à Rede das Bibliotecas de Braga, ajudamos também a Junta de Freguesia de Tadim, a Casa do Professor foi outra instituição que solicitou a colaboração da BLCS para a organização da sua biblioteca. Estamos também com o colégio D.Pedro V e com a Junta de Freguesia de S.Víctor. Estas instituições na Semana da Leitura (27 de Março a 1 de Abril); à partida; podem vir a assinar um acordo de cooperação integrando a Rede das Bibliotecas de Braga. Também é do nosso interesse ajudar e inventariar o património bibliográfico local.

P - A BLCS tem para além do quadro de pessoal próprio (funcionários do Município e da UMinho), uma equipa de voluntários. Passa também por aí o sucesso da relação com a comunidade?
R - Temos cinco, seis voluntários que são nossos amigos e são os nossos animadores da leitura. A Maria do Céu Nogueira, José Machado, António Castanheira a Ivone Paz Soares são os nossos contadores de estórias não apenas na Biblioteca, mas em instituições que solicitam este tipo de iniciativa. Com o projecto voluntários da leitura, ao qual o Município de Braga aderiu, conseguiu-se colocar nas escolas pessoas que quiseram ajudar os meninos a desenvolver competências na leitura e na escrita.

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