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A Filosofia tem sido maltratada
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A Filosofia tem sido maltratada

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Entrevistas

2018-11-03 às 06h00

José Paulo Silva

Director da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Católica Portuguesa há pouco mais de um mês, José Manuel Martins Lopes , aponta a internacionalização como marca do seu mandato. Em entrevista ao Correio do Minho e Rádio Antena Minho, o sacerdote jesuíta releva o empenhamento da Companhia de Jesus em valorizar o ensino da Filosofia, alargando-o a novos públicos e interligando-a com outras áreas do saber.

P - É sacerdote da Companhia de Jesus. Na sua tomada de posse foi focado o regresso dos jesuítas à liderança da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais (FFCS) da Universidade Católica Portuguesa (UCP). Que significado tem este regresso?
R - Por circunstâncias várias, nomeadamente por os jesuítas serem cada vez menos, ficámos numa situação um pouco difícil. Alfredo Dinis foi um grande homem e académico que esteve à frente da Faculdade, que faleceu de uma forma um pouco precipitada. Nessa altura havia muitos jesuítas em doutoramentos e ficou complicado ser um jesuíta a assegurar a direcção da Faculdade. Há sete anos atrás, Miguel Gonçalves foi o escolhido...

P - Até agora, o único leigo que esteve à frente da Faculdade.
R - Exactamente. Eu fiz parte dessa direcção, porque o reitor da UCP, Manuel Braga da Cruz, de alguma maneira exigiu que um jesuíta estivesse na direcção. Foi nestas circunstâncias que o provincial da Companhia de Jesus propôs Miguel Gonçalves.

P - E agora houve condições para o regresso da Companhia de Jesus?
R - Houve. Foi um compromisso da Companhia face à reitoria da UCP que preparíamos jesuítas para assumir aqui uma comunidade mais académica.

P - A Companhia de Jesus faz questão de ter uma marca muito forte na FFCS. Há um reforço da presença dos jesuítas?
R - A Filosofia é uma marca da nossa formação. A FFCS é a menina dos olhos da Companhia de Jesus em Portugal. Se virmos a História da Companhia, o apostolado intelectual é uma marca ao longo dos séculos. Nós acreditamos que tudo o que acontece na sociedade começa por pensarmos bem. Todos pensamos, mas pensar bem e criticamente não é fácil. A Filosofia, que tem sido maltratada, mesmo a nível dos governos, é uma área científica que pode ajudar a construir um bom pensamento e uma sociedade bem pensante.

P - Esse maltratar da Filosofia tem consequências na formação dos cidadãos?
R - Sem dúvida. Conseguir um pensamento crítico não é fácil. Nós somos gregos e latinos, nós filosofamos, mas se perdermos as nossas raízes... Nietzsche anda por aí, só que não o conhecemos, nem sabemos por que é que ele disse sobre determinadas coisas. O mesmo com Aristóteles, Platão, Sócrates e outros. Temos de ir às nossas raízes para percebermos quem somos. Se perdemos a nossa memória, perdemos tudo.

P - A nível do ensino, a Filosofia é das áreas menos procuradas.
R - É.

P - Qual é a responsabilidade do Estado?
R - Acho que o Estado está a investir pouco. Há alguns anos para trás, a Sociedade Portuguesa de Filosofia insurgiu-se contra a marginalização da disciplina. Lembro-me do Alfredo Dinis se insurgiu contra o rumo que alguns governos queriam dar à Filosofia.

P - Isso reflecte-se na procura da Filosofia a nível do ensino superior?
R - Sim. Quando estudava em Coimbra, há coisa de oito, nove anos, os finalistas de Filosofia eram três. Isso para dizer que não há muita procura da Filosofia. Vamos ter problemas para conseguir professores para o ensino secundário.

P - E qual é a realidade na FFCS?
R - Há pouca gente. Nós não temos a tradição dos países anglo-saxónicos em que tira Filosofia depois de outros cursos.

P - Em Portugal olhar-se muito para os cursos superiores numa perspectiva muito profissional?
R - Sim. Temos na FFCS projectos de serviço à comunidade. Temos algumas empresas que nos estão a pedir formação a nível filosófico, o que acho muito interessante.

P - Empresas da região?
R - Sim. Da área da construção civil, da arquitectura.

P - O que leva essas empresas a pedir essa formação?
R - O mesmo que leva a Google a contratar filósofos. Penso que os filósofos têm uma maneira diferente de ver a realidade com um pensamento crítico.

P - Com uma maior humanização?
R - A UCP tem um projecto educativo e uma ideia de pessoa. Ainda não percebi o que significa o ensino neutro. Se não há uma ideia de pessoa, estamos a educar para quê? Só para dar conceitos? Nós, jesuítas, falamos muito do saber e do ser, da ciência e da sabedoria. A pessoa que tira 20 a tudo e não tem coração, o que é? Um egoísta? ?O que é que este pessoa serve para a sociedade? Uma pessoa que tem óptimo coração e não tem competências, também não serve para nada. É como o tal santo que olha para o céu e não transforma nada. Para nós, uma pessoa bem educada é aquela que dá o máximo a nível intelectual e que está ao serviço da sociedade, daqueles que não têm voz, que são mais débeis.

Estamos a repensar curso de Filosofia e Desenvolvimento da Empresa

P - Voltando ao reposicionamento da FFCS, o que é preciso fazer para contrariar a tendência para um número residual de pessoas que procuram a Filosofia?
R - Nós estamos a atravessar momentos muito difíceis. Estamos a tentar passar este momento muito difícil por que passa a Filosofia mas também as Humanidades. Acreditamos que isto vai mudar. A licenciatura de Filosofia tem alguns alunos e temos três mestrados com um pouco mais de alunos, mas estamos a fazer da Filosofia uma disciplina transversal a outros cursos, desde a Teologia, passando pela Psicologia e Ciências da Comunicação. Achamos que a Filosofia tem um papel fundamental para a formação destes profissionais.

P - Apontou atrás a procura por um público empresarial. Poderão também ir por aí para suster o projecto da Filosofia aqui em Braga?
R - Em vez de estarmos à espera das pessoas, temos de levar a Filosofia à sociedade. Através do mundo empresarial, podemos mostrar de que forma a Filosofia pode ajudar à reconstrução das próprias empresas. Estamos a ser procurados.

P - A FFCS chegou a ter o curso de Filosiofia e Desenvolvimento da Empresa. Um projecto desses poderia ser repensado?
R- Estamos a repensar esse curso e outros. A UCP tem vários pólos e podemos jogar um pouco entre nós. Temos um pouco de nostalgia por aquele curso.

P - Pode haver uma parceria com a ‘Católica’ do Porto, que tem uma escola de Economia prestigiada?
R - Vamos ver. Achamos que foi uma perda o fim do curso de Filosofia e Desenvolvimento da Empresa. Perdemo-lo por questões estratégicas da altura e talvez por uma certa incompreensão.

P - Foi um projecto que surgiu antes do tempo?
R - Achamos que sim. Foi um projecto do padre Pereira Borges, um homem muito viajado e que era um visionário.

P - Esta direcção da FFCS aposta em projectos diferenciados. O que é que o futuro reserva?
R -Tomámos posse há pouco tempo. Estamos a fazer uma aposta muito grande na relação com as universidades jesuítas. Temos a International Association of Jesuit Universities e a Higher Education for Social Transformation e, através delas, aprender o que se faz pela Europa.

P - Haverá uma ligação com outras universidades da Companhia de Jesus?
R - Sim. Aqui ao lado, em Espanha, temos as universidades de Deusto e Comillas. Estamos a organizar com a Universidade Gregoriana de Roma um congresso, de 10 a 12 de Outubro. Estamos a desenvolver muito na Filosofia da Natureza.

P - Esta rede de universidades jesuítas pode proporcionar a vinda para Braga de estudantes estrangeiros?
R - A ideia é um bocado essa. Não só alunos, mas também professores. Fazer talvez cursos mais breves e intercâmbios, não só a nível da Filosofia, mas também das Ciências da Educação, Serviço Social, Psicologia ou Turismo.

P - Ainda se mantém a procura do curso de Serviço Social?
R - Sim. Este ano teve 29 candidatos. O padre Alfredo Dinis, por quem eu tenho uma grande admiração, achava que a criação da Faculdade de Ciências Sociais foi um pouco canibalização que se fez à Faculdade de Filosofia. Por isso é que, depois, unimos as duas faculdades.

P - Como é que a FFCS convive com um curso de Filosofia na Universidade do Minho que, quando foi criado, não foi muito bem percebido, concretamente pelo padre Alfredo Dinis?
R - Temos óptimas relações com a Universidade do Minho, que tem óptima qualidade. Temos também uma relação muito afectiva, porque o primeiro reitor da Universidade do Minho foi jesuíta, o padre Lúcio Craveiro da Silva.

P -Mas teria sido desnecessário nessa altura criar um curso de Filosofia no ensino público?
R - Nós tínhamos cá o nosso curso de Filosofia. Sei que o padre Alfredo Dinis questionou muito, mas dadas as relações com a Universidade do Minho, a questão ficou pacífica.

P - Disse, na sua tomada de posse, que importa a qualidade da educação, não quem a presta. É uma crítica à forma como o ensino privado é tratado?
R - Fui aluno de uma universidade estatal. Fiz Direito na Universidade de Coimbra. Tenho uma óptima experiência da qualidade de ensino da Universidade de Coimbra. Quando vamos a um serviço público o que é que queremos? Qualidade, naturalmente. Interessa-me quem o presta? Não. Interessa-me que o serviço tenha qualidade. Neste momento confunde-se público com estatal. Acho que há uma invasão de uma esfera por parte do Estado que é abusiva. Sabemos que há lobbies que gravitam à volta do Estado com muitos interesses. Para serviços de qualidade temos de ter uma concorrência leal.?Se não há concorrência leal, a UCP tem de ter propinas elevadas, se quiser manter um corpo docente capaz.

P - E a situação vai agravar-se, atendendo a que as propinas nas universidades públicas vão baixar?
R - Pois. Eu acho que os reitores das universidades públicas estão preocupados ao nível do financiamento.

P - A redução das propinas no ensino público vai obrigar a UCP a exigir outro tipo de contrapartidas?
R - Acho que a reitoria está a fazer um bom trabalho, mas tudo passa por vontade política. A UCP só tem uma alternativa: é oferecer qualidade. Eu acredito que quem investe na educação pode gastar mais para ter retorno futuro.

P - Mas pensa que o Estado deveria tratar as universidades privadas, nomeadamente a UCP, da mesma forma que trata as públicas? Os critérios de financiamento e as condições de acesso deveriam ser os mesmos?
R - Se o Estado quiser ensino de maior qualidade, deve dar possibilidade aos alunos de escolherem a sua escola. Fala-se muito no cheque-ensino. Com a concorrência todos ganham em qualidade. Haverá quem tenha medo de que os pais e alunos tenham a possibilidade de escolher uma escola e um projecto educativo. A situação de muitas famílias não é fácil e muitos alunos não conseguem terminar os seus cursos, até no ensino estatal.

P - Há muita procura da FFCS por parte de alunos de países de língua portuguesa?
R - Há. O problema para alguns países é que as propinas são um pouco elevadas.

P - A UCP e as suas faculdades esperam muito a ajuda da Igreja Católica. Aqui também há razões de queixa?
R - Bom, cada instituição tem de se valer por si própria. Não podemos estar à espera que seja a Igreja hierárquica a vir em socorro, porque há muitas instituições da Igreja a passar por dificuldades bastante grandes. Há muitos colégios a fechar e instituições de solidariedade social a passar por dificuldades. Há algumas instituições a fazer autênticos milagres com aquilo que recebem. A nível social, se algumas instituições da Igreja fechassem, ia ser muito complicado.

P - Dentro da Igreja, há consciência da importância do que designou por apostolado intelectual?
R - Os nossos bispos estão conscientes disso. Para a Companhia de Jesus é claríssimo que a educação é um apostolado nuclear e essencial para o que entendemos como sociedade. Fomos crescendo nessa consciência. O Papa Francisco é jesuíta e está sempre a falar nisto. Por alguma razão a Igreja Católica continua a ter colégios a funcionar. Através da educação, passam valores e princípios de vida.

Falta reconhecimento social à FFCS

P - Recentemente, o presidente do Centro Regional de Braga da UCP dizia que a cidade não tem consciência de que acolhe a melhor Faculdade de Filosofia do país. Também tem a ideia de que não há esse reconhecimento da sociedade ?
R - Não conheço assim muito Braga. O que posso dizer é que quando fui para a Universidade Gregoriana os professores diziam que que vinham de Portugal eram dos melhores preparados a nível da Filosofia.

P - Isso é a opinião em Roma.
R - (risos) Em Roma era claro.

P - Falta o reconhecimento social da FFCS?
R - Parece-me que sim. Estamos a fazer uma aposta grande na formação de jovens jesuítas para virem para cá. Há vários em doutoramento. Isto já é um grande esforço da Província Portuguesa da Companhia de Jesus. É uma aposta clara que queremos continuar a retomar o que foi esta Faculdade no passado, que tinha muitos alunos e óptimos professores como o padre Fragata, Diamantino Martins, o padre Freire, Vitorino Sousa Alves, o Costa Pinto, que ainda aqui está. Eu vim do Direito e a minha vida mudou com a Filosofia. Temos aqui professores que têm de mexer com uma pessoa. Lembro-me da maneira como eram ensinadas as ‘Confissões de Santo Agostinho’.

P - Há uma estratégia clara da Companhia de Jesus em pegar novamente na FFCS?
R - Nós nunca deixámos a Faculdade. A própria reitoria da UCP quis muito que a Companhia de Jesus tivesse mais gente na Faculdade, apostando na internacionalização e na força mundial que a Companhia tem. Nós temos muitas universidades e algumas de ponta.

Neste momento a Filosofia aparece quase como contracultura

P - Na sua tomada posse defendeu a valorização da Filosofia como disciplina essencial para se fazer uma leitura mais crítica da realidade. Não é um desafio demasiado ambicioso, quando estamos no mundo do pensamento rápido, da internet, das redes sociais, em que as pessoas estão menos disponíveis para a reflexão e mais para a reacção sobre os acontecimentos?
R - Penso que neste momento a Filosofia aparece quase como contracultura. Pararmos para pensarmos já é complicado. É necessário sabermos pensar segundo as regras lógicas. Neste momento, construir um pensamento filosófico é quase contra cultural, na minha opinião. Nós acreditamos que a Filosofia, tendo esta função de interligação com as várias áreas científicas, pode ser um contributo muito grande para a formação da própria pessoa. Não falo só da Filosofia, falo também da Teologia e das Humanidades. Se tivermos força através da Antropologia Filosófica e da Antropologia Teológica, todos temos a ganhar. A?UCP tem a responsabilidade de formar pessoas para uma sociedade que tem de ser diferente.

P - Está prevista fazer uma avaliação dos cursos existentes na FFCS ao longo deste ano lectivo. Podem fechar curso e criar outros?
R - Esta direcção está muito empenhada em trilhar novos caminhos. Uma universidade também tem a função de antecipar as coisas. Neste momento, já temos três ou quatro novos cursos pensados, mas estamos sempre na contra-corrente. Acreditamos que a Filosofia e as Humanidades hão-de regressar com força. Formar nas universidades só para a especialização não chega. O homem não é só isso. Queremos continuar a apostar na Filosofia, interagindo com outras disciplinas. A Filosofia tem muito a dar a essas disciplinas. Somos teimosos nesse sentido.

P - Isso já está a acontecer?
R - Os cursos estão a ser ponderados pela A3ES - Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior e temos de obedecer a rácios e perceber como é que as coisas podem ser feitas.

P - Pode haver dificuldades em introduzir essas formações contra corrente?
R - Através de pós-graduações também tentamos mostrar o interesse da Filosofia.

P - O desafio é antecipar aquilo que a sociedade precisa?
R - Claro. É um desafio. É uma questão antropológica que temos por trás, que ideia de pessoa é que queremos. O que nos preocupa neste momento são as questões fracturantes e voltar a ter uma palavra nestas questões. Neste momento estamos um bocadinho a viver no imediato. Já começámos a respirar e queremo-nos meter mais nestas áreas de vanguarda. O que é que FFCS tem a dizer sobre estas coisas? Esta é uma vertente em que queremos reinvestir.

P - Uma maior intervenção social?
R - Exactamente. Nos últimos anos temos estado com outras preocupações.

P - E qual é o papel da investigação nestas áreas da Filosofia e das Humanidades. Também há possibilidades de crescimento?
R - Há muita investigação só para fazer carreira. Nós acreditamos que a investigação só tem sentido para servir as pessoas. Nós apostamos muito na investigação que fala ao mundo. A Filosofia e outras áreas da FFCS têm de ir por aí. Uma universidade que não tem investigação parou.

P - Mas a investigação precisa de financiamento...
R - Nesse aspecto somos apoiados, porque temos o Centro de Estudos Filosóficos e Humanísticos. Temos sérias dificuldades porque os professores têm dar muito tempo integral ao ensino. Apesar disso, temos professores que publicam imenso.

P - E a área da pós-graduação tem tido desenvolvimento?
R - Sim, tentamos perceber onde podemos ir para servir a sociedade. Temos bastantes pós-graduações nas áreas clássicas e da psicologia, mas deveria haver mais sensibilidade da população para aderir.

P - Não falta algum marketing por parte da FFCS?
R - É provável. O marketing também é caro. Se calhar, podíamos ser mais agressivos.

P – A FFCS é de matriz católica, muito marcada pela Companhia de Jesus. Não escolhe os seus alunos por critérios ideológicos ou confessionais?
R – Nem alunos, nem professores. A Universidade deve ser um espaço de debate aberto. Há um projecto educativo e as pessoas sabem qual. Um professor muçulmano pode leccionar aqui. Tem é de perceber que nós temos um projecto educativo.

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