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André Coelho Lima: "Para este Governo o distrito de Braga não existiu"
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André Coelho Lima: "Para este Governo o distrito de Braga não existiu"

Trabalho colaborativo é para continuar

André Coelho Lima: ´Para este Governo o distrito de Braga não existiu´

Entrevistas

2019-09-26 às 06h00

José Paulo Silva José Paulo Silva

André Coelho Lima lidera a lista dos candidatos do PSD pelo distrito de Braga às eleições legislativas. Afirmação e proximidade são os pilares que sustentam as propostas do seu partido. Na área do Quadrilátero Urbano, defende a intermodalidade rodoviára em vez do investimento mais pesado na ferrovia.

P - É o líder de uma lista de candidatos e candidatas do Partido Social Democrata nas próximas legislativas, todos oriundos do distrito de Braga. Foi um acaso ou uma opção?
R - É, claramente, uma opção do líder do partido. Rui Rio foi autarca e valoriza a descentralização e os territórios. Todos os cabeças de lista do PSD são naturais dos respectivos distritos. Eu tenho dito que há dois pilares que caracterizam esta candidatura do PSD no distrito de Braga, proximidade e afirmação. A questão que me colocam recai no primeiro pilar.

P - No caso de Braga não é só o primeiro nome, é toda a lista de candidatos e candidatas que são do distrito.
R - A nossa lista é integralmente composta por pessoas que vivem, nasceram no distrito de Braga e são reconhecidas pelas respectivas comunidades. Eu dou sempre o exemplo do número dois da lista, o bracarense Firmino Marques ou da vereadora Gabriela Fonseca, da Câmara da Póvoa de Lanhoso (terceira na lista), ou seja, pessoas que fizeram um percurso, que eu muitas vezes digo que devia ser um requisito quase obrigatório para quem anda na política nacional e que é ter uma experiência de política local. Quem anda na política deve perceber em que medida a sua actuação pode resolver problemas concretos às pessoas.

P - Essa proximidade acarreta ainda mais responsabilidade?
R - Sem dúvida, mas essas são as boas responsabilidades. Quando fui convidado por Rui Rio para liderar a lista do PSD, afirmei que mais do que um reconhecimento, era uma responsabilidade.

P - Mas a responsabilidade que deriva desta proximidade exige aos eleitos defenderem mais as questões de âmbito local ou regional, em detrimento de decisões políticas nacionais que muitas vezes vão contra os interesses das populações de uma região.
R - O pilar da afirmação, que mencionei anteriormente, é precisamente o da afirmação dos valores locais, isto é, de uma mensagem política claramente com incidência regional. Mas também não devemos resvalar para a demagogia. Sabemos que o círculo eleitoral é distrital, mas o parlamento é nacional. Há, isso sim, uma dimensão de proximidade que pode ser incentivada pelos agentes políticos.

P - Firmino Marques referiu que era preciso melhorar a representação do distrito na Assembleia da República. Os deputados são eleitos pelo distrito mas passam depois a ser deputados nacionais. Existe aqui alguma contradição?
R - Não existe contradição e essa questão é fundamental. Nós sabemos que a nossa responsabilidade primeira no Parlamento é perante o programa nacional do PSD, com o qual somos eleitos. No entanto, há matérias de incidência local que podemos e devemos levar para conhecimento do partido. Vou dar exemplos: no mandato actual, a proposta de construção do Hospital de Barcelos foi incluída na proposta do PSD de Orçamento de Estado por interferência dos nossos deputados. Na semana passada estive reunido com o presidente da Câmara Municipal de Vizela que me deu dois dossiers que quer ver resolvidos: a despoluição do Rio Vizela e a ligação à auto-estrada. Estes são cadernos de encargos que os deputados do PSD podem assumir com relativa facilidade.

P - Qual é o peso que essa acção política pode ter?
R - Como o nosso objectivo é vencer as eleições e o PSD ser governo, a responsabilidade é ainda maior. No caso do Hospital de Barcelos, há um compromisso escrito de um anterior governo socialista, entretanto o PSD governou de 2011 a 2015 nas condições económicas que sabemos e sem planificar investimentos. Este governo do PS não fez rigorosamente nada.

Distrito precisa de bandeiras e capacidade reivindicativa

P - Em 2011, o PSD elegeu nove deputados no distrito de Braga, em 2015, numa coligação com o CDS, elegeu oito. Expectativas em 2019?
R - Dezanove (risos). Eleger os 19 deputados a que o distrito tem direito. Eu tenho a convicção de estar certo naquilo que apresento e naquilo que o PSD representa para o futuro do país. Tenho a utopia de convencer quem nos ouve e lê. Depois, tenho respeito pela reflexão individual das pessoas. Daqueles que nos lêem, se calhar metade ainda estão indecisos sobre o sentido de voto no próximo dia 6 de Outubro. Não podemos partir do princípio de que as pessoas já escolheram em quem votar.

P - Se o PSD eleger 18 deputados pelo distrito de Braga já é uma derrota?
R - (risos) É uma derrota!

P - Mas insistido, manter a actual representação parlamentar do PSD pelo distrito é um bom resultado?
R - As expectativas têm de ser elevadas, sem desrespeito pelas pessoas. Houve condicionantes no caminho que nos trouxe até aqui e, por isso, eu diria que a manutenção dos oito deputados é algo que ninguém espera.

P - No distrito de Braga houve contestação interna no PSD no processo de constituição da lista, com o veto a Hugo Soares, indicado pela secção bracarense. O partido está unido?
R - O PSD, num processo interno e sindicável em relação ao qual não me vou pronunciar, acabou por escolher Firmino Marques, que é vice-presidente da Câmara Municipal de Braga, foi presidente da Junta de Freguesia de São Victor e é uma pessoa que tem uma enorme popularidade e goza de reconhecimento no concelho. Para mim é um privilégio poder contar com ele no segundo lugar da lista.

P - O distrito de Braga foi penalizado em matéria de investimento público nesta legislatura?
R - Eu diria que foi ignorado. Para este Governo foi como se o distrito de Braga não tivesse existido. Em nenhum dos concelhos há algo que se veja no que diz respeito ao investimento da administração central.

P - Como é que os futuros eleitos do PSD e um eventual Governo social democrata pretendem alterar esse cenário que descreveu?
R - Eu falei nos dois pilares, proximidade e afirmação. Afirmação encaixa-se na pergunta que me foi colocada. Este conceito da afirmação pretende tratar o distrito de Braga como uma unidade e não como 14 unidades, um distrito com temas distritais e com capacidade reivindicativa e não como um conjunto de reivindicações meramente concelhias. O distrito de Braga é, a seguir a Lisboa e ao Porto, aquele que no país elege mais deputados.

P - E é também um dos mais fortes economicamente...
R - Temos quase um milhão de habitantes e temos sido um motor económico do país, temos conseguido reconverter-nos. Temos a Universidade do Minho, que é um fortíssimo pilar de afirmação nos domínios científico e académico e temos ainda a experiência do Quadrilátero Urbano (Braga, Guimarães, Famalicão e Barcelos).

P - Não é uma experiência que anda muito perto do falhanço?
R - Anda muito nos limites da experiência.

P - Será o melhor exemplo para dar no que diz respeito à congregação de esforços, tirando o que foi feito no domínio cultural entre as quatro cidades?
R - Eu diria que é uma experiência num patamar institucional mas não formal. A grande dificuldade é o acesso do Quadrilátero Urbano a fundos estruturais devido à existência das Comunidades Intermunicipais do Ave e do Cávado. É preciso haver bandeiras regionais sem prejuízo da incidência local de cada uma delas.

P - Essa forma de ver e fazer política não se enquadra mais num processo de descentralização ou numa regionalização?
R - Enquadra-se claramente.


A intermodalidade em vez da ferrovia


P - As posições do presidente do PSD nesse domínio são conhecidas. Caso o PSD seja Governo, haverá avanços?
R - Acredito. Para podermos falar em patamares regionais, e em descentralização efectiva, temos primeiro de nos organizar, temos de pegar naquilo que nos diferencia a nível local e juntar o que nos une. Não é fácil, porque as mentalidades não se mudam do dia para a noite. Faz-se através de um novo discurso político.

P - Defende uma ligação ferroviária directa entre Braga e Guimarães ou preconiza um outro modelo de mobilidade envolvendo as outras duas cidades do Quadrilátero Urbano?
R - Eu partilho a ideia da intermodalidade na área do Quadrilátero e isso está ao alcance dos respectivos municípios. Não quero comprometer-me com a ferrovia ou o metro de superfície.

P - Numa visita ao Parque Nacional da Peneda Gerês focou a necessidade da descentralização de competências para as autarquias na área da gestão ambiental e do património natural.
R - A autarquia de Vieira do Minho quer recuperar as antigas casas do guardas florestais que se encontram devolutas, mas não pode porque são património do Estado. Em Terras de Bouro, o presidente da Câmara quer desenvolver projectos ao nível do abastecimento de água e do saneamento na zona do Parque Nacional e esbarra na ausência de respostas por parte da administração central.

P - A gestão do Hospital de Braga voltou para esfera do Estado, depois de alguns anos de gestão privada. O que é que o preocupa nesta mudança?
R - Aquilo que interessa são os resultados dos serviços que os hospitais públicos prestam. Que os serviços prestados sejam universais e tendencialmente gratuitos, tal como a Constituição preconiza. Rui Rio tem dito que existem 2,5 milhões de portugueses com seguros de saúde. Significa que 25% da população acha que os serviços públicos de saúde disponibilizados pelo Estado são insuficientes. Ter uma PPP no hospital ou serviços contratualizados de saúde com privados é a mesma coisa, dizer o contrário é uma hipocrisia. Quando metemos a ideologia à frente da prestação de bons cuidados de saúde está tudo ao contrário.

P - As responsabilidades são atribuídas ao Governo de Passos Coelho, que fez cortes financeiros profundos no sector da saúde.
R - É um argumento incrível vindo de quem tem sido incompetente. O que degradou a área da Saúde em Portugal foi a passagem das 40 para as 35 horas de trabalho semanal. Tudo o resto é demagogia.

P - O PSD vai estar atento à gestão pública do Hospital?
R - O PSD vai estar vigilante e não faz disto uma querela ideológica. Senti uma vontade férrea da nova administração em manter os bons índices da PPP na prestação dos cuidados de saúde.

P - Um governo do PSD vai retomar uma PPP no Hospital de Braga?
R - Respondo com o pensamento já expresso por Rui Rio sobre vários assuntos: estabilidade nas políticas. Se a gestão pública estiver a cumprir, não haverá razão para mudanças.

Sustentabilidade ambiental sem radicalismos

P - No plano ambiental, ressalta a polémica criada à volta do impacto da exploração de lítio na região. Qual é a sensibilidade do cabeça de lista do PSD por Braga?
R - Isso entronca numa frase que está no programa eleitoral do PSD e que se calhar até nem é das mais politicamente correctas, mas é rigorosa, verdadeira e resume-se da seguinte forma: no caminho que estamos a fazer para a sustentabilidade ambiental, para a autossuficiência energética, temos de perceber os valores económicos associados - quer os ganhos económicos das medidas ambientais, quer as perdas económicas. Se não fizermos essa análise não estamos a ser sérios.Com radicalismos não vamos a lado algum.

P - O PSD caso vença as próximas eleições e forme governo vai reverter o processo de atribuição de licenças de exploração de lítio, algumas delas para o distrito de Braga?
R - Estamos a falar de um compromisso nacional que pode e dever ser melhorado.

P - Algumas explorações de lítio, pela sua natureza extractiva, podem vir a pôr em causa o património natural da Reserva Mundial da Biosfera.
R - Não podem. Na minha visita ao Parque Nacional da Peneda Gerês, referi a ambição de transformar aquele património natural em Património da Humanidade.

P - Na sua opinião faz sentido o Parque Nacional da Peneda Gerês voltar a ter um director com competências mais amplas do que no passado?
R - Concordo e enquadra-se na resposta que dei sobre as dificuldades do autarca de Terras de Bouro em resolver problemas básicos e mínimos na área do Parque.

P - Esteve no Ave Park, nas Taipas, para o qual continuam a faltar acessos directos à auto- estrada...
R - Tenho dúvidas que avancem. Trata-se de uma obra com um valor financeiro e uma agressividade ambiental elevadíssimos. A via prevista vai passar por uma zona com grandes declives que obriga à construção de pontes e viadutos. Talvez fosse mais razoável repensar a ligação. Não está em causa a sua urgência, mas ela pode ser realizada por menos 15% do valor que está previsto. Uma solução será aproveitar a estrada nacional, requalificando-a.

Economicamente estivemos em ‘guerra civil’

P - O distrito de Braga tem três concelhos (Braga, Famalicão e Guimarães) que estão no topo da lista dos mais exportadores em Portugal. Ainda assim é um distrito que pratica salários baixos. Como é que o PSD pensa inverter esta situação?
R - Se esses três concelhos estivessem unidos economicamente estariam ao nível das áreas metropolitanas de Porto e Lisboa.

P - É curioso o que está a dizer, porque não existe memória dos autarcas destes três municípios fazerem a junção dos números de exportação e com isso ganharem escala.
R - Eu também não, mas gostava de saber o que valem a estes concelhos juntos. Aliás seria interessante saber quanto vale o Quadrilátero Urbano. Quanto à pergunta em concreto, quero dizer que a resposta não é localizada, é de um âmbito mais alargado e tem que ver com uma das principais propostas do PSD que é a de começarmos a discutir salários médios em vez de salários mínimos. O próprio Primeiro Ministro também já fala em salários médios. Não vamos obviamente fixar um salário médio, mas vamos batalhar pelo crescimento da economia como um todo, de modo a ter repercussões no nível de vida dos portugueses. Neste capítulo, o PSD pede meças a qualquer outro partido e perdoem a imodéstia partidária mas tem sido o PSD ao longo da história quem tem aproximado os portugueses dos níveis de vida europeus.

P - Com a excepção dos quatro anos do governo liderado por Passos Coelho.
R - Mas mesmo assim, foi com o anterior governo do PSD que os índices económicos do país começaram a recuperar. Os números que o Governo socialista tem apresentado foram conseguidos com Passos Coelho. Foi preciso fazer um trabalho difícil e de coragem política. Do ponto de vista económico, estivemos no equivalente a uma guerra civil.

P - Mas ainda relativamente aos salários no distrito de Braga, os seus valores são abaixo da média nacional.
R - É uma situação que ainda tem a ver com o peso industrial na região.

P - Mas a subida do salário médio no distrito de Braga para o equiparar ao salário médio nacional não depende mais dos empresários do que de um Governo, qualquer que ele seja?
R - Depende muito mais da economia e do seu crescimento como um todo. Houve uma medida que o líder do PSD já defendeu que é polémica e que passa por fixar empresa a empresa uma percentagem entre os vencimentos dos administradores e o dos trabalhadores. Este modelo pratica-se por exemplo na Suécia.


Perfil

45 anos de idade, é licenciado em Direito, advogado e vereador da Câmara Municipal de Guimarães desde 2009.
Foi deputado municipal entre 2001 e 2009 e líder do PSD/Guimarães de 2010 a 2016.
Foi assessor jurídico na Secretaria de Estado da Juventude, em 2004 e 2005, e conselheiro nacional do PSD, entre 2006 e 2010, cargo que reocupou em 2013.

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