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Entrevistas

2019-03-23 às 11h00

Rui Alberto Sequeira

As USF trouxeram mais qualidade e melhor prestação no domínio dos cuidados de saúde primários à população bracarense, a opinião é do director do ACeS de Braga. Na entrevista à Antena Minho e ao Correio do Minho, Domingos Sousa sublinha a capacidade de resposta dos serviços de saúde ao fluxo migratório para Braga e o rastreamento oncológico que é feito na área concelhia.

– No concelho de Braga aumentou substancialmente a população inscrita nos centros de saúde e nas Unidades de Saúde Familiar (USF).
R – Temos tido um trabalho árduo nos últimos tempos. Entre 2018 e 2019 houve um aumento de inscrições no Agrupamento de Centros de Saúde (ACeS) de Braga. Foram mais seis mil novos utentes que entraram no sistema.

P – Quantos são os utentes inscritos no ACeS do concelho de Braga?
R – No final de 2017 estavam inscritos 187 mil utentes e em Dezembro de 2018 eram 193 mil os inscritos o que significou um aumento de 3 por cento, obrigando-nos a repensar e a falar com as nossas unidades no sentido de sabermos onde poderíamos colocar estes novos utentes e como é que poderíamos dar-lhes uma equipa de saúde que os acompanhasse de forma adequada.

P – Num curto espaço de tempo houve um aumento significativo que terá a ver com o facto de Braga estar a ser procurada por muitos imigrantes.
R - Sim e neste ano, só de Janeiro a março, já chegaram mais 400 novos utentes ao nosso agrupamento.

P – Qual é capacidade de resposta a este súbito e significativo aumento do número de utentes?
R – Em articulação com a tutela estamos a recrutar mais clínicos para o ACeS de Braga; com as USF onde temos capacidade de espaço, vamos aumentar o número de médicos e de enfermeiros, nas equipas. Estão abertas 1800 inscrições para a USF Saúde Oeste (Cabreiros, Sequeira e S. Julião de Passos) sendo que as obras do novo edifício vão estar concluídas em setembro deste ano. Para 15 de Abril temos prevista a abertura de mais 1800 vagas na futura USF de Esporões que passa de dois para três médicos.

P – Essa era uma zona do concelho de Braga que estava fragilizada na prestação de cuidados de saúde primários.
R – Foi uma extensão de saúde que esteve quase para ser extinta. Durante alguns anos teve apenas um médico a prestar serviço. Tínhamos boas instalações, muita população naquela zona e temos as USF do centro da cidade sobrecarregadas, por isso entendeu-se deslocar três médicos para Esporões. Foi proposta uma Unidade de Saúde Familiar á ARS Norte, está em fase de tramitação e prevê-se que inicie funções a 1 de Julho com mais um clínico, já a partir de Abril vamos inscrever 1800 utentes. Vamos também colocar um médico em Pedralva – a partir de 1 de Abril - porque entendemos que a distância para o centro de Braga justifica o reforço da equipa médica, uma situação que temos articulado com os presidentes de junta das freguesias que cobrem aquela área (Sobreposta, Espinho e Pedralva).

P – Presumo que muita da população imigrante exerça pressão para se inscrever nas unidades de saúde da zona urbana de Braga, apesar da oferta nas unidades mais periféricas?
R – Não é fácil fazer a gestão porque grande parte da população está sediada no centro urbano. A criação da USF de Tebosa - para onde vão dois novos médicos – levou a que dois clínicos, por razões pessoais ficassem no centro da cidade o que permite inscrever utentes em unidades do centro. Estamos a dar mais prioridade á periferia, embora seja uma periferia relativa como é o caso das USF de Esporões ou de “Saúde Oeste”, reservando mais as vagas nas unidades de saúde do centro de Braga para os utentes com menor mobilidade.

P – A USF de Tebosa é para avançar em breve?
R – A candidatura foi feita para 1 de Julho e terá quatro médicos e quatro enfermeiros.

P – No passado mês de Fevereiro o Dr. Domingos Sousa avançava a possibilidade de já em Março ter a população do concelho de Braga toda coberta com médico de família. Mantém esse objectivo?
R – Eu espero que até finais de Abril a situação esteja resolvida. Estamos a fazer a inscrição dos utentes de forma mais racional. Antes deste fenómeno da imigração, praticamente todos os bracarenses tinham médico de família. Com a chegada

de mais população agravou-se um pouco a taxa de cobertura.

P – Podemos concluir que a resposta da rede de cuidados de saúde primários em Braga é suficiente quer em termos de espaços físicos, quer humanos?
R – Depois de todo este processo estar concluído eu penso que vamos ter uma folga para mil utentes que poderão surgir e que ainda terão médico de família. A médio prazo teremos de ponderar muito bem como é que poderemos crescer porque efetivamente ainda temos possibilidade de inscrever utentes em unidades de saúde do centro de Braga. Teremos de articular essa intenção com as USF.

P – Nesta altura decorrem as obras de construção da USF Saúde Oeste, no capítulo dos espaços físicos o ACeS de Braga está bem servido?
R - Sempre fizemos uma grande pressão junto da ARS Norte para que Braga tivesse boas instalações nos cuidados de saúde primários. Em 2018 requalificámos Tadim e Ruães também foi intervencionada. Este ano queremos terminar o projecto de requalificação da USF de Gualtar que tem a ver com acessibilidades e também com alguma reestruturação interna. É uma unidade que é acreditada e é uma prioridade nossa.

P - Pelo que tem dito, 2019 é um ano importante de consolidação dos cuidados de saúde primários em Braga
R - Deixe-me primeiro dizer que todas estas soluções têm sido discutidas em reunião de coordenadores das USF e das Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) mas também reunimos com os representantes do poder local. Já reuni - por exemplo - com os presidentes das Juntas de Freguesia de Tebosa e de Esporões para auscultar opiniões e expectativas.

P - Qual tem sido o ‘feedback’ dos autarcas de freguesia a estes investimentos?
R - Tem sido muito positivo. Freguesias que tinham a prestação de cuidados de saúde em risco de fechar, vêem agora que há investimento nas instalações e nas pessoas.

P - E as autarquias locais colaboram nesse investimento?
R - Não. Está previsto, mas neste momento não.

P - Qual é a opinião do director do ACeS de Braga sobre a transferência de competências na área da saúde, para os municípios?
R - Eu entendo que o estado deve trabalhar como um só. Independentemente de o poder ser central ou local, deve verificar-se uma sinergia de esforços. Se for mais fácil resolver os problemas localmente a nível de procedimentos como reparações, manutenção de equipamentos, colocação de assistentes operacionais, acho que não há nada a opor.

P - Recentemente o presidente de uma Câmara Municipal do distrito de Braga defendia que a autarquia deveria ter competências para definir horários de funcionamento das unidades de saúde.
R - Eu creio que essa competência já se encontra definida há bastante tempo. O ACeS de Braga é composto por um Conselho Executivo onde para além de mim, enquanto director, tem o presidente do Conselho Clínico e também a vereadora Sameiro Araújo que é a representante do Conselho da Comunidade. Temos o regulamento interno elaborado por mim, pelo presidente do Conselho Clínico e pela vereadora Sameiro Araújo, homologado pelo presidente da ARS Norte que enquadra os horários de funcionamento das nossas unidades de saúde. É uma questão de haver diálogo. As competências do Conselho Executivo da ACeS onde o Município de Braga tem assento, são em actividades fundamentais como a contratualização anual com as USF, a contratualização do ACeS com a Administração Regional de Saúde do Norte e no regulamento interno. A autarquia de Braga tem de facto uma palavra a dizer em todos estes domínios.

P – Todos os serviços prestados pelo ACeS necessitam de colaboradores especializados – médicos, enfermeiros – o mercado de trabalho responde a estas necessidades?
R – Nós temos neste momento 559 colaboradores, já somos uma “grande empresa” de prestação de cuidados de saúde.

P – Começam a surgir notícias de carência de médicos.
R – A carreira profissional onde tem sido menos difícil recrutar é nos médicos porque há sempre dois concursos durante o ano. Nas carreiras de enfermagem e secretários clínicos a situação é mais preocupante. Ao nível dos administrativos temos tido uma política de recrutamento através da mobilidade no sector público e de requalificação interna dos trabalhadores.

P – Na sua opinião o que é que explica alguma dificuldade em contratar enfermeiros?
R – Não tem havido concursos, mas as nossas necessidades de enfermeiros resumem-se a quatro ou cinco profissionais.

P – Mas havia pouca aproximação do ACeS de Braga com a UMinho, no passado?
R - Penso que se poderia ter feito mais. A ligação era mais evidente com o hospital, com a própria autarquia e mesmo com a Segurança Social com quem temos parcerias. Parece-me que existem áreas de interesse comum em que todos podemos beneficiar se trabalharmos em conjunto. O estado tem de ser uma rede de colaboração e interajuda e não uma rede de capelas.

P – O Plano de Saúde Local que faz um diagnóstico do setor no concelho de Braga aponta para algumas causas de morte mais preocupantes em matéria de saúde publica: as doenças cardiovasculares, alguns cancros. Como é que os cuidados primários podem responder a estas doenças?
R – De facto as principais causas de óbitos no concelho de Braga foram os tumores malignos, as doenças cardiovasculares e as cardiopatias isquémicas. No caso dos tumores malignos temos respondido através dos rastreios. É evidente que está tudo articulado com o plano estratégico da ARS Norte. Nós temos de rastrear toda a população. Como objectivos operacionais temos a prevenção do tabagismo, diabetes, doenças oncológicas, saúde oral, saúde da visão e a vacinação. Dentro das doenças oncológicas temos vários rastreios de base populacional e tem sido na área do ACeS de Braga que mais população tem aderido a essa prática. Temos a mamografia, o rastreio do Colo do Útero e começámos também a fazer o rastreio do Cancro do Cólon e Reto. O importante no rastreio do Cancro da Mama é que se for necessário há um encaminhamento para o IPO e no caso do Cancro do Cólon e Reto o encaminhamento faz-se para diretamente para o Hospital de Braga.

P – Aposta no alargamento dos rastreios médicos por parte do ACeS de Braga aponta para objectivos mais ambiciosos a nível nacional?
R – Nas mamografias e no rastreio do Cancro do Cólon e Reto, no âmbito da região norte, temos em proporção o maior número de mulheres rastreadas. Entre maio de 2018 e Fevereiro deste ano fizemos 9 377 mamografias. Sabemos que mais de 70% da população está a ser seguida. No que diz respeito ao cancro do Cólon e Reto temos no ano passado 8 221 utentes (mulheres) que fizeram o rastreio. Nos rastreios somos o melhor ACeS da região norte, na prestação de cuidados aos cidadãos e dos resultados em saúde estamos no “Top 5” da região norte.

P – Com o aparecimento das USF e com a sua implantação no território, os cuidados de saúde primários melhoraram?
R - Melhoraram bastante. Consultando os indicadores – que são públicos - através do “sitio” online BI-CSP é possível visualizar de forma transparente o cumprimento dos compromissos que a USF assumiu com o Agrupamento de Centros de Saúde e o desempenho que está a ter. A maneira como as USF se estruturaram e se organizaram tem vindo a aprimorar os indicadores de ano para ano.

P – Ao nível da qualidade dos cuidados de saúde prestados há benefícios para o utente?
R – Temos a Comissão da Qualidade que é coordenada pela Dra. Cláudia Melo. Estamos obrigados a uma série de procedimentos internos no âmbito da Comissão. Temos de produzir, mas temos de produzir bem!

P – No concelho de Braga quantas USF estão implementadas?
R – São 15 Unidades de Saúde Familiares. Em Julho teremos apenas uma Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados em Adaúfe.

P – Essa UCSP em Adaúfe acabará também por se transformar no modelo USF?
R - Já tive essa abordagem com o Dr. Mário Mendonça que é o coordenador da unidade de cuidados de Adaúfe. É uma equipa que apresenta bons indicadores e que tem todas as condições para vir a ser uma USF.
P – Qual é a mais valia de se transformarem em Unidade de Saúde Familiar?
R – É uma estrutura com autonomia de gestão. Se faltar um médico ou um enfermeiro procura-se suprir a ausência. Podem trabalhar mais horas, em regime de exclusividade e são pagos pelas listas de utentes. Por exemplo: se tiverem mais seniores ou mais crianças como utentes, são valorizados nesses aspectos.

P – A constituição em USF é uma imposição da tutela?
R – São os profissionais de saúde - por vontade própria -que se mobilizam, organizam-se e constituem-se como USF. Eu não posso impor a Adaúfe que passe a ser uma Unidade de Saúde Familiar. Gostaria que fosse a equipa daquela UCSP a decidir sobre a sua autonomia funcional.

P – Com a entrada em funcionamento das USF e com a autonomia de que dispõem é previsível que passem a integrar nas suas valências a saúde oral?
R – Não. A saúde oral é um projecto que funciona de forma autónoma. No concelho de Braga, o Município desenvolve em parceria, o projecto “Braga a Sorrir”. Sei que está em negociação entre a autarquia e a ARS Norte uma articulação para a prestação de serviços no domínio da saúde oral.

P – Do lado do hospital há muitas vezes queixas de que os Cuidados Primários não conseguem colocar um travão no acesso de muitos utentes que vão “entupir” as urgências hospitalares
R- É uma situação problemática que não depende do ACeS. Quando assumi funções de direção, uma das primeiras medidas que tomei em agosto do ano passado, foi preparar uma resposta adequada para situações de surto gripal, com reforço de escalas de profissionais de saúde e alterações de horários de funcionamento das unidades de saúde. O recurso do utente ás urgências hospitalares é uma prática que não podemos impedir, nem controlar.

P – Os Cuidados de Saúde Primários por uma questão de horário de funcionamento ou por carência de meios de diagnóstico, não dão a resposta adequada.
R- Tem a ver com esses aspectos certamente.

P – Como é que tem funcionado a ligação entre o ACeS de Braga e o Hospital de Braga (HdB)?
R - Entendemos que é preciso melhorar muito a articulação porque o utente deve ser o centro das atenções no SNS e as instituições têm de pensar no utente. Os manuais de articulação devem ser mais ágeis, mais facilitadores para os Cuidados de Saúde Primários e para o HdB, para que exista clareza na referenciação dos utentes, quando eles necessitam de uma consulta de especialidade ou de uma cirurgia. Não existem manuais de alta, os de referenciação são de 2015 e de lá para cá muita coisa mudou.

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