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Gestão pública do Hospital de Braga traz incógnitas
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Gestão pública do Hospital de Braga traz incógnitas

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Gestão pública do Hospital de Braga traz incógnitas

Entrevistas

2019-03-09 às 06h00

Rui Alberto Sequeira Rui Alberto Sequeira

O novo director do ICVS, Jorge Correia Pinto, entrevistado na Radio Antena Minho e no Correio do Minho espera que a mudança na gestão do hospital bracarense não coloque em causa o interface com a Escola e adianta que o ICVS vai continuar a criar pilares de financiamento que assegurem a investigação. A robotização da medicina e a preocupação com emprego cientifico são outros temas tratados.

P – O que é o Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) da Escola de Medicina da Universidade do Minho (UMinho) e que importância é que tem na área da medicina?
R – O instituto é o laboratório de investigação que dá suporte à Escola de Medicina (EM) da UMinho. Numa abordagem clássica, as faculdades de medicina por vezes têm vários grupos de investigação que nem sempre conhecem o trabalho uns dos outros. Na EM da UMinho, de um ponto de vista estratégico, desde o início que ficou decidido que a investigação deveria estar num só instituto. O ICVS abrange todas as temáticas e todos os grupos de investigação.

P – Essa concentração da investigação num só instituto tem-se revelado profícua?
R – Permite uma gestão mais inteligente de recursos comuns e por outro lado permite que as pessoas envolvidas na actividade de investigação conheçam melhor o que está a ser feito por outros investigadores.

P – O ICVS tem quatro grandes áreas de investigação, porquê estas?
R – A formação desses domínios de investigação tinha muito a ver com a especialidade dos investigadores e dos professores que foram recrutados para a EM da UMinho, há cerca de 20 anos. Houve uma clara evolução e acabaram por se definir três grandes domínios: “Neurociências”, “Microbiologia e Infecção” e “Ciências Cirúrgicas”. Mais recentemente, quase de forma natural, decidiu-se criar uma quarta linha temática de investigação que é a “Saúde das Populações”. Uma Escola de Medicina deve também fomentar este tipo de investigação.

P – O Professor Jorge Correia Pinto está mais ligado à área curativa.
R – Estou e talvez por essa razão reconheça a importância da prevenção. É com a prevenção que temos alcançado grandes resultados em matéria de saúde populacional. Reparem o que se conseguiu com as vacinas, por exemplo na pediatria, em que a prevenção de uma série de patologias foi muito melhor do que o melhor tratamento mundo.

P – A medicina curativa está mais desenvolvida do que a preventiva?
R – Até agora eu diria que o desenvolvimento tecnológico associado à saúde virou-se muito para a curativa. Mas, curiosamente, nos anos mais recentes há muitas iniciativas do foro tecnológico no sentido da prevenção. Hoje através de um telemóvel é possível monitorizar muitos parâmetros vitais com a vantagem de os registar continuamente. Esta contribuição tecnológica traz consigo uma oportunidade de prevenção, de tratamento precoce enorme, com mais-valia para o paciente.

P – A Escola de Medicina da UMinho foi criada em 2001 e o ICVS em 2003. De que forma é que o instituto tem contribuído para o reconhecimento da escola?
R – A EM é uma área de formação pré-graduada, mas também de formação pós--graduada. Quem dá suporte, quem dá “músculo” à formação pós-graduada é um instituto de investigação subjacente. O que depois faz a diferença em comparação com outras Escolas não é apenas o que se passa em termos pré-graduados é o que acontece nos seus laboratórios associados.

P – O percurso do ICVS confunde-se em parte com o novo modelo de gestão do Hospital de Braga (HdB). Transparece de declarações de responsáveis das duas entidades que tem existido uma boa relação.
R – Nós temos um laboratório de interface entre a Escola de Medicina e o Hospital que é o Centro Clínico Académico (CCA) e que contra o pensamento de muitos resultou demasiado bem.

P – Porque é que resultou demasiado bem?
R – Resultou porque houve o empenho da direcção da EM, mas também existiu o acreditar da direcção do HdB. Sendo o Hospital uma entidade com gestão privada foi mais fácil chegar a um acordo.

P- A actividade do ICVS está muito à espera de decisões políticas relativas à gestão do HdB ou tem uma vida própria que lhe permite não estar condicionado a essas decisões?
R – O ICVS está expectante. Tudo o que se passar no hospital reflecte-se no instituto e vice-versa. Se algo acontecer de muito bom no HdB, o ICVS vai beneficiar. Eu espero que esta transição para a gestão pública seja o mais suave possível.

P – Receia que com o fim da PPP e a reversão da gestão do HdB para a esfera pública, o trabalho do CCA possa ser afectado?
R – Gostaria de poder responder a essa pergunta, mas não consigo. Neste momento nós também ainda não sabemos muito bem o que vai acontecer. Eu - sou funcionário no HdB - e os meus colegas ainda não sabemos o que irá suceder a partir de 31 de Agosto deste ano.

P – Mas o CCA vai continuar a trabalhar?
R – Vai continuar porque tem já uma dimensão e um conjunto de actividades que tornam impossível pensar de outra maneira. Ele é essencial não apenas para o ICVS e para a EM, como é vital para os médicos que são essencialmente clínicos no hospital, mas que também fazem muita investigação. No CCA nós testamos e pomos em prática em pacientes, atitudes, medicamentos mais recentes que foram descobertos no nosso instituto ou em outros.

P – No CCA faz-se apenas a validação de novos fármacos ou também de novos equipamentos e dispositivos?
R – Sim fármacos e dispositivos. A área dos dispositivos médicos é muito interessante, está ligada à engenharia e a desenvolver-se no Minho.

P – Podemos falar de um “cluster”.
R – Exactamente e para o qual o instituto já colaborou.

P – Esteve na génese da constituição do primeiro laboratório de investigação endoscópica e cirúrgica, em termos práticos falamos da cirurgia minimamente invasiva. Essa técnica surge em Portugal, em Braga, na UMinho e no hospital.
R – Sempre que é preciso fazer uma intervenção cirúrgica colocam-se diferentes problemas e um deles é sempre o acesso seja à cavidade torácica, seja à abdominal. Se o fizermos de forma minimamente invasiva, o desconforto pós-operatório é significativamente reduzido e isso é uma mais-valia para os doentes. Mas porque é que isso não se implementa? Não se implementa porque normalmente exige dos cirurgiões um treino adicional e, portanto, só há uma maneira de resolver essa situação: é treinar em laboratório. O ICVS no domínio das ciências cirúrgicas percebeu essa oportunidade há cerca de 10/15 anos. Existia uma necessidade no mundo médico de locais para este género de treino e na Europa até nem havia tantos como isso, no instituto - resultado de uma colaboração com uma empresa implementada na comercialização desses materiais - verificou-se que Braga podia ser o sítio perfeito para instalarem o laboratório, não só para investigação, mas também para treino.

P – No caso do HdB há muitos pacientes a beneficiarem desta tecnologia?
R – Há. O Minho beneficia em quase todas as especialidades cirúrgicas. Nós na área da cirurgia pediátrica somos um exemplo nacional, mas também europeu. Muitas pessoas vêm até Braga para aprender a fazer estas técnicas, mas não só na pediatria, na urologia, na cirurgia geral, na área da ortopedia. Há muitos bons exemplos. O hospital na última década deu um salto enorme na aplicação destas técnicas.

P – O facto do Hospital de Braga ter uma gestão privada facilitou a implementação destas técnicas?
R – Eu creio que a velocidade de tomar a decisão é maior. Mas também é preciso dar argumentos que convençam a administração da mais-valia da compra destes equipamentos, que são caros. Hoje há já um avanço neste tipo de cirurgias que é no domínio da robótica.

P – No ICVS já estão a treinar com robôs?
R – Com a robótica a necessidade de treino de um médico, diminui porque um robô faz muito daquilo que nós teríamos de aprender.

P – Mas estamos a falar do presente?
R– Em Portugal ainda só em hospitais privados.

P – Vamos ficar nas mãos de robôs?
R – Em termos médicos vai ser uma realidade, mas nós temos de pensar que um robô é sempre um instrumento que funciona a mando do médico.

P – O Professor Jorge Correia Pinto está a começar um mandato de quatro anos à frente do ICVS, a robotização vai ser uma área em que o instituto vai apostar?
R – No domínio das ciências cirúrgicas estamos a fazer um esforço para atrair as empresas que estão a desenvolver esta tecnologia para lhes mostrar que Braga pode ser um centro de formação, que pode ser um centro de desenvolvimento porque temos bons engenheiros biomédicos. Mas o instituto é muito mais do que isto.

P – Do seu currículo faz parte a fundação da ISurgical3D uma ‘Spin-Off’ da UMinho.
R – É o exemplo de que uma investigação pode começar para solucionar um problema. Na minha actividade clínica a tratar um conjunto de pacientes que têm o chamado ‘peito escavado’ e em que havia uma cirurgia que estávamos a importar dos Estados Unidos que usava uma prótese para reparar essa situação, mas que tinha de ser moldada no próprio bloco de operações. Sempre entendi o processo um pouco arcaico e lancei esse desafio a uma serie de engenheiros de diversas áreas e em ano e meio tínhamos um software e um hardware para fazer o molde e construir a prótese para o paciente. O projecto foi bem-sucedido e deu origem á spin-off que faz próteses para muitos países.

P – Como é que analisa a evolução da medicina em termos tecnológicos.
R – A evolução da medicina vai-se fazer muito por investigação de associação. Hoje em dia o desenvolvimento da ciência em todas as áreas faz com que a saúde e a medicina não fiquem à parte deste processo e de repente estamos a ter contributos de todas as áreas científicas e temos a vantagem de a medicina ter sempre valor acrescentado. Todos os ‘players’ têm interesse em se associarem a projectos de saúde. Por exemplo: Se produzir bolachas normais elas têm um preço, mas se trouxerem algo que as relacione com saúde o seu valor é mais elevado.

P - O Laboratório 3B´s e o INL desenvolvem linhas de investigação e desenvolvimento tecnológico que têm a ver com o bem-estar e a saúde.
R - Nós percebemos que existia um conjunto equipamentos tecnológicos que não tínhamos e que estavam ali ao lado, por exemplo o caso do Laboratório 3B´S do professor Rui Reis ao qual o ICVS se associou. Cada um com as suas especialidades, complementam-se. O Laboratório de Nanotecnologia é também uma oportunidade única para o instituto. No país não existe melhor nessa área. A relação com o INL não é tão formal como acontece com o 3B´s, mas tem sido muito profícua. Há hoje linhas de investigação em comum no domínio da oncobiologia, das neurociências, microbiologia e também na monitorização tecnológica de parâmetros vitais. Alguns projectos não são ainda realidade, mas podem vir a ser no futuro próximo.

P - Com tanta tecnologia desenvolvida e outra em vias de o ser no âmbito da saúde, o médico não se arrisca a perder algum estatuto?
R - O médico tem sempre uma componente que não pode perder que é a parte humana. Tudo isto faz sentido, mas depois o tratamento ou o acto médico não se cinge à tecnologia. A componente humana ajuda a minimizar o sofrimento associado à doença, eventualmente na prevenção. A empatia médico/doente também é terapêutica e não acredito que um robô possa substituir o médico nessa relação. Ainda assim tenho colegas na Europa a desenvolverem robôs - médicos e enfermeiros - que fazem visitas de manha aos pacientes que geram expressões e que criam empatia com os pacientes. Mas o acto médico é sempre um acto humano.

P - Apesar de ser de uma especialidade diferente, a taxa de mortalidade infantil em Portugal aumentou em 2018. Encontra uma explicação?
R - Não conheço os dados com detalhe para dar uma resposta muito sólida. A mortalidade que ainda vai existindo é muito associada à prematuridade ou ás malformações congénitas. Vamos ter de continuar a desenvolver estas especialidades embora os ganhos sejam cada vez mais difíceis de conseguir porque os índices de insucesso já são muito reduzidos porque estamos num estado de quase excelência.

P - Existe a ideia que se faz menos investigação médica para problemas nas faixas etárias mais jovens, ao contrário do que sucede para uma população mais envelhecida. Corresponde à verdade?
R - Eu seria tentado a dizer que sim, fruto da minha actividade médica, mas posso formular de outra maneira essa ideia. Se apresentar um projecto de investigação relacionado com doenças do envelhecimento, hoje em dia parece ser mais fácil obter financiamento do que se for na área da infância.

P - Porque é que isso sucede?
R - Quem avalia está mais próximo de ser velho (risos) do que ser novo. Parece que existe um interesse próprio que não é consciente, mas que está lá, subliminarmente. É verdade que os investigadores apresentam muito mais projectos de investigação na área do envelhecimento porque sentem isso como um problema, mas claro que também há muita investigação de qualidade no domínio da pediatria.

P – São quatro as áreas de investigação no ICVS, Neurociências, Microbiologia e Infecção, Ciências Cirúrgicas e Saúde das Populações.
R – Na Microbiologia e Infecção o ICVS conseguiu dar um contributo muito significativo no sentido de identificar factores de susceptibilidade a uma infecção.

P – Temos a área das Neurociências que têm um impacto muito visível nas sociedades actuais.
R- É difícil concentrarmo-nos num trabalho porque eles têm muitos. A maior parte das doenças neurológicas não têm solução e precisam de encontrar uma terapêutica. O ICVS e o seu domínio nas Neurociências têm feito um esforço colossal contribuindo para a resolução de problemas.

P – É uma área que vai continuar a captar muito investimento?
R – Como é um problema real que está em cima da mesa, haverá mais instituições que se dispõem a financiar a investigação nesse domínio.

P - O ICVS da Escola de Medicina da UMinho tem cerca de 250 investigadores. Consegue perspectivar a realidade daqui a quatro anos, quando terminar este seu primeiro mandato como director do instituto?
R - Quase 100 são investigadores doutorados. Nós não temos, por agora, uma preocupação de crescimento. Queremos continuar a ter renovação e capacidade para recrutar os melhores, mas também reter aqueles que pelo seu desempenho e mérito mostraram-se os mais capazes. Em ciência existe um problema sério que é o do emprego científico porque não se pode facilmente garantir a estabilidade.

P - Já se vai falando de dificuldades de empregabilidade para os licenciados em medicina. Há um número crescente de jovens que por via dessa dificuldade optam pela investigação?
R - Quem faz o curso de medicina normalmente quer ser médico, mas também é verdade que muitos têm o ‘bichinho’ da investigação. A EM da UMinho está à frente em criar oportunidades. Na Escola temos uma iniciativa que permite aos futuros médicos quando chegam ao quinto ano, interromperem o curso, irem fazer três anos de doutoramento fora do país, preferencialmente aos EUA, depois regressam concluem o curso de medicina e quando estão aptos a exercer já são doutorados. Vai ser muito interessante verificar o impacto na prestação de cuidados de saúde nos hospitais onde vão trabalhar.

P – A investigação é valorizada em Portugal?
R – Na academia é valorizada, na carreira médica não é tanto quanto devia ser. A investigação dá muito trabalho e não traz associada mais financiamento ou mais rendimento para quem a faz, mas transporta mais-valias para o serviço e para os pacientes e, assim sendo, devia ser valorizada em carreira. Como se sabe hoje existe uma grande indefinição em relação às carreiras médicas e outras.

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