Correio do Minho

Braga, quarta-feira

- +
Há pouca preocupação com a estrutura dos edifícios
Vitória SC vai à procura dos primeiros pontos na UEFA

Há pouca preocupação com a estrutura dos edifícios

Empresas recrutam alunos de vários cursos da UMinho

Há pouca preocupação com a estrutura dos edifícios

Entrevistas

2019-04-06 às 06h00

Rui Alberto Sequeira Rui Alberto Sequeira

Nos próximos cinco anos, o conhecimento científico relacionado com a segurança do património construído com valor cultural quando submetido a sismos vai ser mais preciso e com menos incerteza. Essa é a expectativa do cientista e professor Paulo B. Lourenço da UMinho, que recentemente recebeu uma bolsa de 3 ME para com a sua equipa desenvolver um projecto global, a partir de Guimarães, destinado a atenuar o risco sísmico nos monumentos.

P – O que é que despertou este seu interesse profissional pelos locais de cultura, pelo património mundial construído?
R – A engenharia é por vezes acusada de excesso de pragmatismo, mas, de facto, a cultura é algo identitário, algo que nos define e sem a qual a civilização não existe. Eu costumo dizer que nós somos, também, aquilo que construímos e de facto se não tivermos memória não temos nação. Para além da componente identitária que somos obrigados a preservar, faz parte da nossa missão preservar o património e entrega-lo às novas gerações em boas condições. Eu acho que de alguma forma esta é uma missão societal.

P – O bom desempenho de um engenheiro civil, neste caso, passa também pela capacidade de ligação a outras áreas da sociedade.
R – Considero importante que a engenharia tenha esses aspectos complementares. Na actualidade fala-se muito nas competências emocionais, na capacidade de resolver problemas complexos, conseguir liderar grupos. A engenharia ligada ao pragmatismo dos números ganha imenso quando associada a outras áreas do conhecimento. A História, a Biologia, a Arquitetura, Ciência dos Materiais, são aspetos importantíssimos na compreensão do património construído com valor cultural.

P – O seu percurso pessoal, profissional, académico conduziu a esta especialização no domínio do património?
R – Parcialmente. Desde muito jovem que fazia turismo cultural com a família, percorremos a Europa e isso de alguma forma pode ter formatado essa disposição. A seguir ao doutoramento - numa ligação muito forte com a Direção Regional de Cultura do Norte (antigo IGESPAR) - comecei a dedicar-me bastante ao património. Apesar de investigador sempre tive uma ligação intensa à componente prática da engenharia. Temos tido a capacidade de ajudar, em todo o mundo. A Catedral de Ica no Perú foi afectada por um sismo e nós estivemos lá a trabalhar até há pouco tempo, com o apoio da Fundação Getty dos Estados Unidos. O nosso trabalho e a UMinho foram referidos numa notícia de página inteira que saiu no ‘New York Times’. Ajustámos a engenharia á capacidade técnica de execução da obra e fizemos algo que é importante, formámos 150 profissionais. Houve um sismo muito forte na Nova Zelândia e nós trabalhámos na Catedral de Christchurh e na Câmara Municipal. Nos últimos tempos também trabalhámos em Mianmar. Temos tido a possibilidade e a competência para transformar a ciência numa aplicação. Ao nível da ciência, o grupo que coordeno – sem qualquer dúvida é o maior do mundo – tem avançado no conhecimento. Gostaríamos de reduzir o nível de incerteza e melhorar a precisão do que temos feito.

Bolsa avalia competência e liderança

P – É nesse contexto que acontece
a atribuição da bolsa de 3 milhões de euros do Conselho Europeu de Investigação (CEI)?
R - Na realidade, as bolsas do CEI – são individuais - avaliam a competência do investigador principal e se este nos últimos dez anos não for um líder científico europeu, não tem qualquer chance de obter financiamento. Quer isto dizer que na última década o grupo que eu coordeno foi capaz de fazer investigação disruptiva, investigação que vai além do conhecimento actual. O reconhecimento ou prémio é para todos os membros do grupo de investigação porque sem eles eu não funcionaria.

P – É um grupo de investigação nacional, tem parcerias internacionais?
R – Metade dos nossos colaboradores são estrangeiros. Na UMinho coordenamos o mestrado europeu nesta área do património que em 2017 recebeu o Prémio Europa Nostra. Neste mestrado europeu 95% dos alunos são internacionais. Temos tido a capacidade, quase única no país, de atrair alunos das melhores universidades dos Estados Unidos.

P – Em concreto esta bolsa de 3ME que lhe foi atribuída pelo CEI é para ser investido em que tipo de produção de conhecimento?
R – Pretende-se fazer uma investigação de muito “alto ganho” e de muito “alto risco”. Todos os anos 250 milhões de pessoas são afectadas pelos desastres naturais. Quase 40% das mortes anuais provocadas por desastres naturais devem-se a sismos. O património monumental foi na sua maioria construído há muitos anos e por isso tem grandes vulnerabilidades.

Somos os médicos dos monumentos

P – No final deste processo podemos antever novas soluções de engenharia que permitam dar mais garantias de segurança do património construído há séculos?
R – Este projecto não tenta desenvolver grandes soluções técnicas, novas. Este projecto é para permitir que seja possível fazer uma avaliação precisa da segurança. O que nós pretendemos é ter a melhor intervenção possível e a melhor intervenção possível passa por uma avaliação cuidada de segurança.

P – Para que se entenda, quando esse equipamento de simulação sísmica es-tiver em Guimarães a equipa do Prof. Paulo Lourenço pode, por exemplo, avaliar em que nível de segurança sísmica está o Castelo de Guimarães?
R – O objectivo é permitirmos que qualquer monumento possa ter a avaliação da capacidade de resistência sísmica e a partir daí tomarem-se decisões que têm implicações na visitação do monumento e nos custos de uma intervenção de engenharia.

P - Este projecto de avaliação é para ser executado em todo o mundo?
R - Este projecto não é focado em Portugal e pretende dar respostas a problemas. Queremos definir uma metodologia integrada e inovadora para a avaliação de segurança e isto é aplicável em todo o planeta. Nós estamos em boas condições para o fazer devido à internacionalização do nosso grupo de trabalho.

P - Estamos a partir no zero na avaliação da segurança sísmica dos monumentos?
R - Não. O nosso grupo trabalha neste domínio há muito tempo e tem as competências para desenvolver este projecto. Esta visão integradora que nós temos, que junta uma quantidade enorme de dados fundamentais com ferramentas matemáticas muito avançadas, com simulações em computador muito avançadas e com a transferência do conhecimento para a comunidade técnica é totalmente inovadora, caso contrário não teria sido financiado. Esperamos que dentro de cinco anos a fonteira do conhecimento actual se tenha movido.

P - Os 3ME que a sua equipa vai receber nos próximos cinco anos é suficiente para a realização do projecto?
R - Fomos financiados na exacta medida do nosso pedido. Vamos investir meio milhão de euros no simulador de sismos. Estou convencido que em 2020 teremos este equipamento a funcionar e depois vamos ter oito investigadores exclusivamente dedicados a este projecto.

P - É possível ter através das ferramentas existentes actualmente, uma avaliação da capacidade de resistência sísmica dos monumentos em Portugal e no resto do mundo?
R - Nós somos capazes de prever quando existe um sismo com determinada magnitude, qual é o valor económico dos prejuízos, quantas pessoas vão morrer, quantas vão ficar feridas. Saber tudo isto é essencial para se dar uma resposta adequada. No caso do património monumental o processo é bem mais complicado porque tem um valor único - por exemplo nunca mais ninguém fará uma Sé de Braga como a que existe, mas se calhar haverá muita gente a construir réplicas de centros históricos. Os modelos que temos reproduzem, já com alguma razoabilidade, os danos ao nível do património corrente, quando se trata de património monumental - daquilo que é absolutamente único - os modelos existentes não funcionam. Nós precisamos de estudar com muito mais detalhe cada um deles.

P - Nos centros históricos sendo propriedade de privados, na reconstrução podem ser melhorados com outras condições de resistência aos sismos.
R - É relativamente simples definir tipologias para os edifícios dos centros históricos. No caso de património monumental único, os edifícios são todos diferentes e são mais vulneráveis. As ferramentas que existem para uma avaliação rápida não são aplicáveis ao património monumental único.

P - Perante um monumento que esteja numa situação mais delicada em matéria de segurança é possível aplicar soluções que reforcem a sua resistência sem lhe retirar originalidade?
R - A obra onde trabalho há mais tempo é na Sé do Porto. Uma das intervenções que ali fizemos e que nos deu imenso gosto, foi nas torres, durante três anos. Estivemos a reparar quase mil anos de problemas. Quando tirámos os andaimes era comum ouvir-se dizer “estiveram aqui tanto tempo e não fizeram nada” (risos). Só para dar uma ideia, foi colocado um anel de cintagem pelo interior da Sé do Porto porque as torres estavam a separar-se. Saindo da construção monumental e observando o património corrente antigo, o investimento enorme com preços de venda violentíssimos e em que o valor da construção é quase residual; verifica-se uma grande preocupação com a estética, o consumo energético ou a acústica e a quase inexistência de preocupação com a componente estrutural dos edifícios, ou seja, com a segurança das pessoas. Em zonas com perigosidade sísmica mais alta e estamos a falar do centro do país para sul, é incrível a ligeireza com que muitas destas intervenções estão a ser feitas. É algo que é difícil entender.

Simulador sísmico em Guimarães

P – Às vezes existe alguma relutância em mexer no património.
R - Não é apenas um prurido, são também dificuldades técnicas e científicas. Eu quando actuo no património edificado, se ele tem valor cultural, a minha actuação pode retirar-lhe valor e por isso a intervenção tem de ser mais cuidadosa. Como esse património não foi pensado para uma acção extrema e para uma acção que é dinâmica, nós temos dificuldades científicas. O que vamos fazer é desenvolver uma infraestrutura experimental, nova, que será instalada em Guimarães, no pólo de Azurém da UMinho. Esse equipamento fica a funcionar durante quatro anos em contínuo, a reproduzir sismos e a partir dessa observação experimental vamos criar um manancial de informação que conseguimos tratar do ponto de vista matemático no domínio do caos, com métodos relativamente sofisticados .Depois vamos juntar os nossos modelos de simulação computacional, vamos associar a modelos analíticos simples e vamos transformar isto em ferramentas que a engenharia comum possa utilizar.

P - Nos centros históricos das cidades e vilas do pais estamos a assistir a um aumento muito significativo de recuperação de edificado privado. Na sua opinião essas questões de salvaguarda não estarão a ser tidas em conta?
R - Na minha opinião é parcialmente uma oportunidade perdida. Tem-se dado pouca atenção no sentido de assegurar uma segurança sísmica adequada.

P - Na maioria são alunos estrangeiros que estão a frequentar o mestrado no âmbito da reabilitação do património. Onde é que eles estão?
R - Este mestrado vai no décimo segundo ano de existência e já teve 400 alunos de 70 países. Itália e Grécia, Estados Unidos, Canadá serão os que fornecem mais formandos. Nós neste momento temos uma rede de antigos alunos espalhada pelo mundo. Queremos uma rede universal que nesta área do conhecimento tem capacidades fantásticas.

P – No final deste processo podemos antever novas soluções de engenharia que permitam dar mais garantias de segurança do património construído há séculos?
R – Este projecto não tenta desenvolver grandes soluções técnicas, novas. Este projecto é para permitir que seja possível fazer uma avaliação precisa da segurança. O que nós pretendemos é ter a melhor intervenção possível e a melhor intervenção possível passa por uma avaliação cuidada de segurança.

P – Para que se entenda, quando esse equipamento de simulação sísmica estiver em Guimarães a equipa do Paulo Lourenço pode, por exemplo, avaliar em que nível de segurança sísmica está o Castelo de Guimarães?
R – O objectivo é permitirmos que qualquer monumento possa ter a avaliação da capacidade de resistência sísmica e a partir daí tomarem-se decisões que têm implicações na visitação do monumento e nos custos de uma intervenção de engenharia.

P - Este projecto de avaliação é para ser executado em todo o mundo?
R - Este projecto não é focado em Portugal e pretende dar respostas a problemas. Queremos definir uma metodologia integrada e inovadora para a avaliação de segurança e isto é aplicável em todo o planeta. Nós estamos em boas condições para o fazer devido à internacionalização do nosso grupo de trabalho.

P - Estamos a partir no zero na avaliação da segurança sísmica dos monumentos?
R - Não. O nosso grupo trabalha neste domínio há muito tempo e tem as competências para desenvolver este projecto. Esta visão integradora que nós temos, que junta uma quantidade enorme de dados fundamentais com ferramentas matemáticas muito avançadas, com simulações em computador muito avançadas e com a transferência do conhecimento para a comunidade técnica é totalmente inovadora, caso contrário não teria sido financiado. Esperamos que dentro de cinco anos a fronteira do conhecimento actual se tenha movido.

P – Existe a possibilidade de comparação entre o estado do nosso património e o de outros países europeus?
R – O património não monumental histórico em Portugal esteve abandonado muito tempo. O caso de Guimarães foi diferente da generalidade. Eu não diria que o nosso património monumental está em péssimo estado. Temos, de facto, feito um investimento assinalável na sua recuperação. A conservação preventiva e a sua manutenção é que são um problema.

Faz parte da nossa missão preservar o património

P – O Paulo Lourenço integra a comissão de candidatura do Mosteiro de São Miguel de Refojos em Cabeceiras de Basto a Património Mundial da UNESCO. Como é que enquadra esse objectivo?
R – As candidaturas a património mundial precisam de dossiers e estudos complexos porque é preciso identificar o que é que distingue aquilo que permite designar um valor de excepção universal e isso não é fácil. O processo passa por uma aprovação nacional e depois por uma aprovação internacional. O que nós sabemos é que metade dos monumentos classificados como património mundial da UNESCO encontram-se na Europa e isso parece excessivo porque houve grandes civilizações em outros locais. A Europa vai ter dificuldades em classificar monumentos de forma isolada. Actualmente tenta-se fazer a ligação entre o património material e o imaterial, a classificação da U.de Coimbra é disso exemplo e nesse contexto a classificação isolada do Mosteiro de São Miguel de Refojos poderá não ser muito fácil.

P - Apesar de não estar relacionado com a candidatura do Bom Jesus, mas pelo conhecimento directo que tem do que sucede em outras partes do globo, vê nela algo excecional?
R – É sempre difícil dar a opinião sem conhecer, mas quer o elevador pelas características técnicas, quer a escadaria que é distintiva, são impressionantes. Se isso é suficiente para ser classificado como algo de exceção ou com valor universal, eu sou incapaz de opinar de forma científica.
.
P – Esteve pelo menos em sete locais do Património Mundial da UNESCO, qual é que mais o impressionou?
R – É muito difícil. O que me impactou mais foi a India da primeira vez que lá fomos. Nós trabalhámos no “Qutb Minar” que é o minarete de tijolo mais alto do mundo em Nova Deli. A India do ponto de vista cultural é um choque grande por muitas coisas que se vêem e que não são agradáveis. Do ponto de vista monumental quando trabalhamos num local diferente vamos ser postos à prova. Aquilo que nós sabemos muitas vezes é insuficiente porque vamos confrontar-nos com situações diferentes e eu adoro isso do ponto de vista da investigação. Esse desconhecimento é essencial para o avanço do conhecimento.

P – E em relação ao estado em que se encontra o 1º de Maio?
R – A UMinho está a apoiar a Câmara. A autarquia está preocupada e tem motivos para estar. É visível que o estádio precisa de trabalhos de conservação. A questão é sempre a mesma: o tempo que os estudos demoram e a capacidade financeira para resolver a situação.

P – É codiretor do Instituto para a Bio Sustentabilidade (IB-S). Como que se harmonizam engenharia e biologia?
R - É uma grande aventura que começou há uns anos com os colegas da biologia, mas que inclui também a física e a matemática. O IB-S é muito mais que engenharia civil e biologia é tentarmos balancear o ambiente humanizado com o ambiente natural. Temos duas Cátedras no Instituto. Uma tem a ver com energia e a outra com a transformação digital e a construção e vamos ter uma terceira relacionada com a floresta.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.