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Entrevistas

2019-05-11 às 06h00

Rui Alberto Sequeira

A corrupção, o federalismo e o politicamente correcto são três razões que explicam o aumento de radicalismos na Europa, diz o cabeça de lista do CDS/PP ao Parlamento Europeu (PE). Nuno Melo, ao Correio do Minho e Rádio Antena Minho, assume ser a voz da direita portuguesa e defende que cada estado-membro deve decidir sobre se acolhe, ou não, imigrantes. Nuno Melo recandidata-se para o terceiro mandato de eurodeputado.

P – Recentemente, foi considerado num ‘ranking’ como um dos eurodeputados portugueses com pior desempenho. Uma avaliação que lhe tem provocado mau estar.
R – Eu vi tudo isso como uma indignidade que devia apoucar quem se aproveita dele. Quem desde logo publica o tal ‘ranking’ deveria perceber o que ele é, e ele é uma fraude. Não se sabe se quem o faz é uma pessoa atrás de um computador, não se sabe se é uma ONG, se é um partido, se são os russos. Esse ‘ranking’ para mim é o equivalente às ‘fake news’. É um ‘ranking’ que recebe dinheiro de eurodeputados – não estou a dizer que é de eurodeputados portugueses. Tenho um documento que prova que assim é: recebe dinheiro de eurodeputados. Questionei essa dita entidade sobre quem são, não respondem; não me dizem qual é o órgão de fiscalização, recusam-se a dizer quem lhes paga. Depois há algo extraordinário: em todos os critérios que o ‘ranking’ enuncia eu estou à frente da maior parte dos eurodeputados, mas depois fico atrás deles.

P – Há uma manipulação dos dados estatísticos?
R – Não há manipulação, há uma fraude. E depois não é um ‘ranking’, é uma página que está num computador. No caso de Paulo Rangel, não existe um único critério em que esteja à minha frente e depois o tal ‘site’ coloca o cabeça-de lista do PSD em sexto e eu vou para 19º. No caso de Maria João Rodrigues, do PS, só está à minha frente no critério das presenças, porque eu tenho responsabilidade nacionais e locais no CDS. Ela está em 9º e eu 19º. Outro caso: Fernando Ruas tem mais trabalho produzido do que outros eurodeputados do PSD, está abaixo de mim no tal ‘ranking’. E mesmo em relação ao primeiro da lista (José Manuel Fernandes), em 80 % dos critérios - excepção feita aos relatórios e presenças – eu estou á frente. Não aceito que assassinem dez anos do meu trabalho, fazendo eu coisas que mais ninguém fez no PE, na base de ‘fake news’. Eu organizo o ‘Melhor de Portugal em Bruxelas’, que se transformou na maior acção promocional do sector agroalimentar português. O Congresso dos Jovens Agricultores, que junta mais 800 jovens em Bruxelas, feito por mim, não conta para nada?

P – Lidera a lista do CDS/PP ao PE , procura uma terceira reeleição e, por outro lado, nestas eleições temos novamente o CDS/PP a ir a votos sozinho, depois de, em 2014, ter surgido coligado com os social democratas.
R – O nosso objetivo é claro. Repetir os resultados das europeias de 2009 e eleger dois representantes do CDS/PP no PE. Dez anos depois, precisamos de mais votos com a mesma distribuição para elegermos dois eurodeputados, porque Portugal elege 21, ou seja, menos um parlamentar na globalidade do que em 2009. Acredito ser possível conseguir esse resultado no dia 26 de Maio.
P – As recentes sondagens nem sempre têm sido favoráveis ao CDS.
R – Eu diria que têm sido extraordinárias, porque, em 2009, as sondagens, invariavelmente, diziam que o CDS/PP não iria eleger qualquer representante. No final, o PS perdeu essas eleições e nós elegemos dois eurodeputados. Tendo em conta que agora as sondagens dão ao CDS/PP um ou dois deputados, significa que são boas tendo em conta o nosso objectivo. As recentes sondagens têm dado resultados muito díspares em pouco tempo.
Se dependesse de mim as sondagens não se publicavam antes das eleições. Acho uma indecência que se publiquem sondagens que falham tanto entre elas, num mesmo momento e falham tanto quando as eleições acontecem, excepção para as realizadas à boca das urnas. Condicionam resultados e os empates técnicos criam um efeito artificial de apelo ao voto útil. Em 2009, acredito que o CDS poderia ter ainda um melhor resultado nas europeias se não fossem as sondagens. Não tenho dúvida.

P – Estas eleições são ‘um contar de espingardas’ para as legislativas?
R – Quem afirmou que as europeias eram umas primárias das próximas legislativas foi o Primeiro Ministro. António Costa esconde o cabeça-de-lista do PS. Acho que o PS está com um problema com o seu candidato. Nestas eleições eu quero falar da Europa. Neste momento há diversos dossiês complicados que não existiam há uma década atrás, mas o secretário-geral do PS quer falar da política nacional. Eu por mim encantado, porque acho que este Governo merece ser censurado.

P – Na sua opinião esta campanha eleitoral está condicionada por esse posicionamento do PS?
R- O PS é o partido do Governo e quer avaliar a sua governação. Eu percebo uma razão ‘pré-traumática’ do Primeiro Ministro. António Costa só é líder do PS porque, em 2014, os socialistas venceram como ele classificou por “poucochinho”, mas que na altura serviu para apear António José Seguro da liderança do PS. Imaginem o que acontecerá se António Costa perder as próximas eleições europeias ou vencer por muito pouco.

P – O CDS/PP irá capitalizar a nível interno uma penalização do PS?
R – Vamos confiantes para estas eleições e eu acredito que o CDS/PP, pelo que percebo nos contactos de rua, e esse é o meu maior barómetro, está a entrar bem no eleitorado. Para mim é importante que a direita cresça e dentro do centro-direita, nós tenhamos o melhor resultado possível.

P – O facto do CDS/PP voltar a apresentar-se sozinho em eleições de âmbito nacional exige um esforço maior ao Nuno Melo para recuperar o eleitorado do centro direita?
R – Nas europeias de 2014 mais do que se justificava a coligação com o PSD, porque os dois partidos estavam juntos no Governo. Actualmente, o PS está no Governo, as lideranças no CDS/PP e no PSD mudaram e há diferenças mais nítidas que levam a que cada força partidária apresente os seus projectos. Eu não tenho dúvidas que o CDS/PP é hoje a única escolha possível em Portugal para quem é de direita. O PSD foi um partido que se recentrou ideologicamente, certamente para disputar o centro político com o PS. Os eleitores de direita têm de ter voz e nós assumimos sem nenhum constrangimento que somos um partido de centro-direita. O PSD é, com Paulo Rangel, um partido profundamente federalista, o CDS/PP não é federalista e defende uma União Europeia de estados. O PSD defende o fim da unanimidade, nós defendemos que a unanimidade é fundamental, isto é, o direito de veto é vital para os estados. A unanimidade, hoje, não é regra nos tratados. A unanimidade é a excepção, a regra é a maioria qualificada. A unanimidade na União Europeia surge em áreas residuais: política fiscal, política externa, adesão de países e nas políticas de cidadania. Há interesses vitais estratégicos que os estados têm e que devem ser preservados. Através de António Costa e da Representação Portuguesa em Bruxelas, Portugal veio dizer que estava disponível para acabar com a unanimidade em matéria fiscal e na política externa. Isto é um crime de lesa pátria. Temos uma macrocefalia de Bruxelas com técnicos, que nem sequer são políticos eleitos, a quererem impor, de forma administrativa, um futuro que os povos recusaram em referendo.

P – Receia que se caminhe para um aumento de impostos decididos em Bruxelas?
R – Não tenho dúvidas. É um dos casos que está em cima da mesa. Eu não sou daqueles que acham que a inovação na política se faz com mais impostos. Hoje é o imposto sobre o digital, transacções financeiras e carbono. Amanhã será um outro imposto qualquer, sob pretexto de um financiamento do déficit do orçamento que acontecerá por causa do ‘Brexit’. Sob esse pretexto, querem consagrar impostos que nós, no CDS/PP, não queremos.

P - O CDS/PP defende um aumento do orçamento da UE. Como é que compatibiliza esse aumento sem outras contribuições como os impostos?
R - Dizem que temos de poupar os contribuintes. Nós perguntamos em quanto? Se defendermos a proposta do Primeiro Ministro português estamos a falar de um reforço de 1,2 % do PIB na dotação portuguesa para a União Europeia. Se de- fendermos a proposta, estamos a falar de um reforço de 1, 3%. No primeiro caso, são 360 ME e, no segundo, cerca 700 ME. A renacionalização da TAP custou aos cofres públicos 100 ME; reverter a PPP no Hospital de Braga, 40 milhões; em nomeações este Governo gasta muitos milhões de euros. Só com estas verbas tínhamos a prestação portuguesa quase paga. Temos uma dívida pública que aumenta todos os dias 100 ME. Com três dias de dívida, pagávamos o que falta da prestação portuguesa. Em Portugal, quem quer uma visão federalista da Europa encontrou no ‘Brexit’ e no orçamento, o pretexto para lançar impostos europeus. Se houvesse preocupação com os contribuintes portugueses, PS e PSD não tinham acordado em transferir para Bruxelas as verbas provenientes das multas aplicadas à violação das regras de concorrência e que capitalizam o Orçamento de Estado.

P - O CDS/PP tem como principal frase de campanha para as eleições de 26 de Maio ‘Mais Europa, menos Bruxelas’.
R - É uma ideia do político sueco Carl Bild. Foi assumidamente plagiada e significa aquilo em que eu efectivamente acredito. Eu defendo políticas europeias ou nacionais em respeito pelo princípio da subsidiariedade. A União Europeia deve estar e fazer onde os estados não façam melhor. Não quero trocar soberania por burocracia e muito do que acontece hoje em Bruxelas é burocracia.

P - Como é que explica o aparecimento e o crescimento de populismos e de radicalismos em alguns países da UE?
R - Há três causas fundamentais. O primeiro é a corrupção. A corrupção é a miséria das democracias e dinamita os pilares do projecto europeu. As pessoas estão cansadas de votarem em partidos ditos moderados e depois nada mudar. A segunda razão é o federalismo. O federalismo está a matar o projecto europeu, porque quer impor aos povos aquilo que eles não querem. Em terceiro lugar temos a incapacidade dos partidos moderados em tratarem no debate político temas fundamentais com receio do politicamente correcto.

P - Quando tratou alguns desses temas, nomeadamente a questão das migrações, defendendo políticas de maior fiscalização, foi acusado de extremista à direita.

R- Todos os países do mundo têm leis de imigração e só é acolhido quem estiver de acordo com os requisitos das leis. A Europa não tem de ser diferente. No caso dos migrantes, não temos recursos do ponto de vista material, do acompanhamento e laboral para receber toda a população que legitimamente quer melhorar as suas condições de vida. O que eu digo é que os migrantes têm de ser submetidos às leis e não tem de ser Bruxelas a dizer quantos migrantes é que cada estado membro deve receber. Eu continuo a defender a velha máxima do Governo do CDS/PP com o PSD: ‘rigor na entrada, humanismo na integração’. A Europa precisa de gente que queira ser integrada, não precisa de pessoas que nos fazem sentir sequestrados dentro do nosso país. A menos que queiramos implodir o nosso modo de vida, a nossa identidade judaico-cristã, tudo aquilo que somos. O que teremos um dia é um outro mundo, que não é o que eu desejo para os meus filhos, porque já não é a cultura ocidental, é sermos transformados por quem não respeitou o nosso modo de vida e nos obrigou a destruir o que somos, para aceitar compulsivamente o que eles são. Quem trata isto com romantismo destrói a Europa e abre portas aos extremismos.
P – Na sua opinião, o que é que explica alguma paralisia da União Europeia nestas matérias mais delicadas? Receio de actos terroristas, de represálias?
R – Houve uma total falta de lucidez nas últimas décadas que transformou sociologicamente países como a França, a Alemanha ou a Bélgica. A Hungria está a reagir para não chegar à mesma situação. Eu não distingo nenhum migrante pela cor, pelo credo ou pela convicção, mas entendo que à entrada dos países deve existir um compromisso de adesão e essa entrada deve ser condicional. Quem cumpre fica, quem não cumpre vai embora. Eu continuo a dizer que o problema das migrações, diferente dos refugiados para os quais existem tratados internacionais, não deve estar sujeito ao tal princípio da subsidiariedade.

P – Enquanto eurodeputado, apercebe-se se esses extremismos estão também a contaminar o Parlamento Europeu?
R – Os extremismos existem na Europa e estão a crescer

P – E vão crescer eleitoralmente nas próximas europeias?
R – Em 2009, quando fui eleito pela primeira vez, estes extremismos tinham muito pouca expressão e nas urnas os resultados eram incipientes. Faziam-se discussões académicas sobre o tema. Dez anos depois esses partidos disputam eleições.

P – Em Portugal o político Nuno Melo fica incomodado quando o tentam colar a essas forças?
R - Não me sinto nada incomodado, porque eu, ao contrário de algumas personalidades, digo o que penso, seja onde for.

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