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O congresso é um contributo para a saúde mental portuguesa
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O congresso é um contributo para a saúde mental portuguesa

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O congresso é um contributo para a saúde mental portuguesa

Entrevistas

2019-11-16 às 06h00

Rui Alberto Sequeira Rui Alberto Sequeira

A Associação Recovery IPSS, em Barcelos, tem desenvolvido um projecto diferenciado na área da saúde mental, reconhecido pelos prémios conquistados. Em Dezembro acontece o primeiro congresso internacional Recovery que o presidente da IPSS diz ser um contributo para a saúde mental em Portugal. Miguel Durães afirma que a saúde mental tem sido o parente pobre da saúde, mas acredita que a aplicação do plano nacional vai trazer mudanças positivas.

P - A Associação Recovery IPSS vai realizar nos próximos dias seis e sete de Dezembro, no auditório municipal de Barcelos, o seu primeiro congresso internacional, dedicado à saúde mental. É um acontecimento que pretende trazer uma nova visão para a saúde mental em Portugal?
R - Em primeiro lugar quero dizer que só é possível organizar um congresso desta dimensão - com alguns dos nomes mais importantes a nível mundial - porque temos como ‘main sponsor’ o Grupo Fidelidade, temos a Câmara Municipal de Barcelos como coorganizadora que nos cedeu os auditórios e deu apoio logístico e temos ‘media partners’ como o ‘Correio do Minho. Contamos com o alto patrocínio da DGS e do Programa Nacional para a Saúde Mental. Estamos a falar da área da saúde mental que é muitas vezes apelidada do parente pobre no setor da saúde. No congresso participam especialistas estrangeiros que vão abordar a área da infância/adolescência e dos adultos e vêm dizer como é que fizeram nos seus países as reformas no domínio da saúde mental, como é que se pode melhorar o que está bem feito e minimizar os danos do que está menos bem executado, apontando e dando força às reformas em Portugal que necessitam, sobretudo, de apoio politico e investimento público.

P - A quem é que se dirige este Congresso Recovery Portugal?
R - Para quem trabalha na área da saúde, da saúde mental, na área social, para quem é estudante, para quem é familiar ou cuidador ou até mesmo utilizador, terá todo o interesse em participar no nosso Congresso. Vamos ter a Ingrid Daniels, a finlandesa Mia Mannikko presidente da Confederação Europeia das Famílias, temos a Marianne Farkas que é a directora do Centro de Reabilitação Psiquiátrica nos Estados Unidos, Adrian Leff autor de um documentário sobre Julius Leff que fez a reestruturação dos serviços de saúde mental no Reino Unido. Temos ainda o psiquiatra espanhol Enrique Baca-Garcia que vem falar das novas tecnologias na saúde mental. As inscrições podem ser feitas através da página http://recovery.pt/congresso/ .

P - O que é que este Congresso significa para o trabalho da Recovery IPSS.
R - Este Congresso é um desafio que me foi lançado diversas vezes por colegas meus no estrangeiro, por congressistas que vão estar presentes, por delegados. A Recovery IPSS vai concretizar este congresso pela saúde mental portuguesa, sem contrapartidas. Conseguimos os apoios necessários para sentar á mesa as pessoas necessárias para que se atinjam acordos, para que se consigam fazer as pontes que ás vezes são necessárias no nosso país. Eu dou um exemplo: o último painel do congresso ‘Responsabilidade Social em Portugal - que Futuro’, vai ter o presidente honorário do BPI e curador da Fundação La Caixa, Artur santos Silva. Vai ter o director executivo da Fundação Manuel António da Mota e o Grupo Fidelidade.

P - Integra a Comissão Consultiva do Programa Nacional para a Saúde Mental da Direcção-Geral de Saúde. Estamos em que patamar no que diz respeito á saúde mental em Portugal
R - Nós somos o segundo país com a taxa de prevalência da doença mental mais elevada no mundo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) refere que 31% da população mundial está afectada por uma perturbação psiquiátrica ou psicológica, num dado ano. De acordo com o Livro Verde, enquanto documento oficial da União Europeia, são cerca de 27% dos europeus, o que dá uma estimativa de 80,9 milhões de pessoas num universo 300 milhões. Portugal tem 23% da população a sofrer de perturbações mentais sendo que 19% destes são situações muito graves com alta incapacidade - estamos a falar de esquizofrenias, perturbações de personalidade, depressões ‘major’. Nas primeiras dez principais causas de incapacidade, cinco são perturbações psiquiátricas ou psicológicas. Estamos a falar da maior causa de reformas antecipadas, de atribuição de pensões de invalidez, ‘baixas’ no trabalho, de levarem mais de um milhão de dias de produtividade por ano, de afectarem a economia, o aumento do consumo de ansiolíticos.

A metodologia da Recovery não é prescritiva

P - Na sua opinião o que é explica essa enorme prevalência de perturbações mentais em Portugal?
R - Um das razões para o aumento do consumo de antidepressivos e de ansiolíticos tem muito a ver com a globalização e com facto de entrarmos num novo paradigma da tecnologia 4.0. É algo que é muito bom para a economia de mercado como ferramenta de trabalho. Mas é uma economia que está muito focada no objectivo final. O foco não é o caminho. A depressão - por exemplo - já é a maior causa de morbilidade nos países desenvolvidos e de incapacidade. Já mata mais gente que os acidentes de viação.

P - Portugal está numa posição pouco simpática.
R - Eu queria dizer o seguinte: Portugal está com cerca de 40 anos de atraso relativamente áquilo que são as reformas estruturais que foram concretizadas pelos países mais desenvolvidos na saúde mental. Tenho de reconhecer que o governo tem dado passos no sentido de colocar no terreno reformas muito importantes. Nós temos um plano nacional para a saúde mental com um excelente diretor, um plano que é internacionalmente reconhecido pelos organismos competentes nesta área como a OMS ou a ‘World Federation for Mental Health’, mas que está difícil de ser aplicado na sua totalidade. São precisas 500 camas de cuidados continuados na área da infância/adolescência até 2020 e 1000 camas para adultos. Neste momento temos 17 camas na área da infância /adolescência.

P - Por isso afirmou que a saúde mental tem sido o ‘parente pobre’ da saúde em geral.
R - Tem sido. O Estatuto do Cuidador foi outra das grandes lutas. Fizemos uma petição e colaborámos com o governo e com todos os partidos no parlamento. Já se avançou para o reconhecimento de que o Estatuto do Cuidador Informal existe. Daqui temos de partir para aquilo que são os apoios que são necessários. Acredito que é com pequenos passos que se alcançam os objectivos. Mas é preciso fazer mais. Não podemos no Ministério da Saúde, 3% do seu orçamento destinado á saúde mental, quando temos países que investem 11 ou 12 por cento.

P - Essa seria, também no caso português, a percentagem adequada do orçamento?
R - Seria o urgente dado o atraso que temos em Portugal em matéria de investimentos na saúde mental. O Hospital de Braga tem dois pedopsiquiatras quando os referenciais do Ministério da Saúde dizem que no mínimo deviam ser 13 para dar resposta ao aumento de cerca de 30 % de pedidos de primeira consulta em pedopsiquiatria: A Recovery IPSS não substitui estas necessidades está é a reivindicar, no bom sentido, uma atenção dife- rente para o Minho.

P - Isso acontece por falta de especialistas ou por dificuldades orçamentais?
R - Eu acredito que por cada euro investido na prevenção na infância e adolescência, poupa-se 100 euros no futuro. Poupa-se em futuros doentes mentais graves que afetam a economia, a produtividade; poupa-se na medicação que é cara, poupa-se no sistema educativo que tem de dar respostas específicas aos jovens com perturbações. É sobre isto que temos de refletir.

P - Há um estigma em relação às pessoas portadoras de doenças mentais e por outro lado uma subvalorização por parte do estado em relação a essas patologias, como se pode constatar do pouco investimento ao longo de décadas.
R - Sem dúvida. Relativamente a prevalências, o mais preocupante é o fato do último relatório da OMS e da Federação Mundial para a Saúde Mental, cuja presidente Ingrid Daniels vai estar presente no nosso congresso, explicitar que 20% das crianças e jovens estão afectadas por uma perturbação de desenvolvimento, emocional/ comportamental. Isto significa que numa turma de 28 alunos, oito tem aquele tipo de problema.

P - Essa é também a realidade portuguesa?
R - Diria que provavelmente a realidade portuguesa apresenta piores resultados. O diretor da OCDE para a educação dizia que ‘os jovens mudaram muito, as escolas pouco mudaram’. Basta fazer uma comparação intergeracional. Hoje em dia vemos crianças a comer a sopa com um ‘tablet’ à sua frente. O mundo está a mudar muito rapidamente e questiono-me sobre o que é que leva um jovem, nos dias de hoje, a entrar no meu consultório com uma sintomatologia depressiva, só porque não teve um telemóvel. Os jovens representam demograficamente 18% da população portuguesa mas são 100% do futuro do nosso país. É preciso existir capacidade, resiliência, ter estratégias para fazerem face aos problemas e desafios que vão enfrentar no futuro e num mercado de trabalho altamente volátil - porque saber das novas tecnologias não é saber usar as redes sociais.

Portugal no segundo lugar da prevalência da doença mental

P - Referiu-se à pouca sintomia entre a realidade dos jovens e do modelo de ensino. A escola também tem de se adaptar para preparar melhor os jovens para a vida?
R - Estamos a viver nas escolas o paradigma da educação inclusiva. O decreto-lei 54/2018 criou equipas multidisciplinares de apoio à educação inclusiva que trata desde logo os alunos de forma igual. A nível da saúde mental, estamos numa situação intersectorial em que a segurança social, o trabalho e a solidariedade social têm que trabalhar os determinantes sociais. Temos de acabar com aquilo que ainda existe na saúde mental em Portugal e que já não sucede em outros países que é o sistema de ‘porta rotativa’. Vou dar um exemplo: uma pessoa tem um surto psicótico. A família não está preparada nem informada para lidar com a situação e recorre aos cuidados de saúde primários e é encaminhado para psiquiatria ou pedopsiquiatria. Se a pessoa estiver a trabalhar provavelmente corre o risco de perder o emprego, de se divorciar; se tiver filhos pode ter problemas de regulação das responsabilidades parentais porque ainda existe o estigma relativamente a situações de perturbações psíquicas, que não são visíveis como é uma perna partida. Uma pessoa que se veja na situação de perder trabalho, o casamento, os filhos volta muitas vezes a ser dependente dos seus pais - por isso é que o Estatuto de Cuidador Informal é importante. A pessoa passa a ter consultas no Serviço Nacional de Saúde (SNS) de seis em seis meses - se tiver sorte - são reformados antecipadamente ou recebem uma pensão de invalidez que a maior parte das vezes mal chega para a medicação porque a comparticipação para os antipsicóticos já não é a 100%, desde 2009. Uma das propostas que está no Plano Nacional para a Saúde Mental é que a comparticipação volte a ser total.

P - O Serviço Nacional de Saúde (SNS) não preparado para situações de pessoas que têm esse tipo de problemas psicóticos?
R - Está preparar-se, tem um plano e tem reformas, precisa é de avançar com essas reformas. O Congresso da Recovery serve para "empurrar" essa reforma. Os hospitais devem tratar os casos agudos e depois temos de criar as estruturas comunitárias entre as famílias, os hospitais e os utentes para que sejam alvo de reabilitação psicossocial e voltarem a integrar-se na sociedade. A Associação Recovery IPSS quer que esta metodologia seja disseminada por todo o país.

Portugal tem 40 anos de atraso na saúde mental

P - A Recovery IPSS é a única instituição que dá respostas nesse domínio?
R - As únicas unidades de cuidados continuados integrados de saúde mental na infância/adolescência são as nossas sendo que a Recovery tem a valência de ambulatório. Na zona de Lisboa há uma instituição que trabalha só com internamento. A Recovery é uma IPSS sem fins lucrativos. O nosso lucro é reabilitar as pessoas. Diminuir para metade a toma de medicação, diminuir até 0% os reinternamentos nos adultos, fez com que chamássemos a atenção pela positiva. As primeiras unidades de cuidados continuados integrados de saúde mental da infância/ adolescência, a de internamento e a de ambulatório atingiram a sua capacidade a um nível em que fomos considerados ‘os bons alunos’ desta reforma da saúde mental e foi por isso que em Abril deste ano o governo prorrogou o acordo para um aumento de capacidade instalada, das nossas duas unidades.

P - A Recovery tem uma metodologia muito própria no tratamento da doença mental.
R - O nosso modelo não é prescritivo, baseia-se mais no drama existencial da pessoa. O Recovery é a designação do paradigma da saúde mental no mundo. Há diversos aspetos que distinguem o trabalho da Recovery IPSS. Temos um terapeuta de referência, acaba a burocracia para a família e para o utilizador que é o termo que usamos em vez de utente, ser utente é para toda a vida e utilizador é alguém que está de passagem para chegar a algum lado. A Recovery IPSS não usa batas, os utilizadores elegem-se e têm representantes que assinam os planos, os orçamentos e os relatórios de contas. Reúnem uma vez por semana com a equipa técnica, têm uma palava a dizer no plano de reabilitação semanal. A nossa metodologia que é ‘gerar percursos na sociedade’ foi premiada pelo Alto Comissariado da Saúde e o prémio deu origem á construção da unidade de adultos Paul Adam Mackay em homenagem a um dos fundadores desta instituição.

P - Em que moldes é que a Recovery IPSS presta assistência?
R - Todas as unidades que nós temos têm acordos atípicos, feitos à medida da população que estamos a assistir, grande parte em situação de desvantagem social e económica. Temos fundações que são nossos ‘padrinhos’, parceiros institucionais e conseguimos cativar o autofinanciamento porque as ipss não devem ter só o estado como ‘chapéu-de-chuva’ e devem ser criadas pela força da à necessidade das populações. Esta instituição nasceu pela necessidade das famílias que não encontravam respostas na sociedade para os seus problemas. As pessoas não vão voltar a ser o que eram mas vão ter ,certamente, a oportunidade de terem um novo inicio de vida.

P - A Recovery IPSS dá resposta a todos os tipos de perturbações mentais?
R - As crianças e adolescentes podem entrar nas nossas unidades a partir dos 11 anos até aos 18 anos - a faixa etária mais critica neste momento - desde que não tenham consumos e desde que não tenham uma deficiência intelectual ou mental porque para esses casos há outras instituições vocacionadas para as acolher. Nós estamos a falar de doença mental - na anorexia, comportamentos alimentares, depressões, comportamentos autolesivos - que estão na moda. Tivemos os primeiros casos de vício em videojogos que é uma nova perturbação classificada nos manuais de perturbações psiquiátricas e psicológicas. Nos adultos os critérios são idênticos.

P - Como é que as pessoas chegam até á Recovery IPSS?
R - Na unidade de adultos - como é um acordo de cooperação atípico - qualquer pessoa que se apresente com os critérios de inclusão pode ter apoio, se tivermos vaga. Nós não só apoiamos os 28 utilizadores que temos contratualizados diariamente, como também aqueles que já se encontram no mercado de trabalho. Na infância e adolescência fazemos parte da rede nacional de cuidados continuados integrados como qualquer noutra unidade, isto é, estamos no SNS e por isso é o Estado que é ‘dono ‘ dos lugares. Nós tratamos da admissão, do acolhimento e dos planos individuais de intervenção, o Estado trata da referenciação. No ambulatório da unidade de cuidados continuados integrados para a infância e adolescência temos 10 jovens por dia e no internamento passámos de seis para sete utilizadores.

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