Correio do Minho

Braga, terça-feira

Sou uma mulher de esquerda e católica
São João convida tudo e todos para a rua

Sou uma mulher de esquerda e católica

Executivo municipal inaugurou 1ª fase das obras de requalificação do Campo de Jogos Dr. José de Alpuim Sobrinho

Entrevistas

2019-05-04 às 06h00

Rui Alberto Sequeira

O distrito de Braga volta a ter um candidato em lugar elegível na lista do PS para o Parlamento Europeu. A professora da UMinho, Isabel Estrada Carvalhais apresenta-se como uma mulher profundamente católica, mas de esquerda e está preocupada com os populismos que ameaçam a construção europeia. Na entrevista à Antena Minho e ao Correio do Minho promete ser uma voz em defesa do mundo rural.

P - Integra o décimo lugar a lista do Partido Socialista (PS) às eleições europeias do próximo dia 26 de maio. É a sua primeira grande participação política num acto eleitoral que, por via da sua actividade enquanto docente universitária e investigadora lhe diz muito, a temática relacionada com a Europa.
R - Quando tive o convite para fazer parte da lista do PS aceitei com grande entusiasmo e sentido de responsabilidade. Entusiasmo pelo projecto que me foi apresentado e porque acredito que pode haver uma diferença positiva no Parlamento Europeu (PE), reforçando a voz socialista.

P - Teve antes, uma participação na candidatura presidencial de Sampaio da Nóvoa. Depois de muito estudo e investigação sobre a ciência política sente já uma atracção pela militância política?
R - A experiência nas presidenciais foi muito enriquecedora. Conheci pessoas extraordinárias, contactei com outras que já conhecia, mas com quem não tinha grande proximidade, como a saudosa Margarida Vilarinho, e vi o lado bom das pessoas, o entusiasmo e o empenho. O que mais me marcou nessa experiência política foi estar com as pessoas, ouvir o que têm para dizer, as suas preocupações, as suas inquietações. Para mim, a política não pode ser feita sem o contacto com as pessoas. Não foi por causa dessa experiência que me senti atraída para a militância política, para mim, talvez em virtude da minha área de ensino, estar na política é estar na ‘Polis’, é um entendimento de serviço publico.

P - O convite para integrar lista do PS para o Parlamento Europeu foi uma surpresa?
R - Completamente. Há momentos que são únicos e irrepetíveis na vida de uma pessoa. O convite surgiu no dia do meu aniversário (risos)...

P - Foi um presente!
R - Foi uma prenda. Também devo dizer que se o convite viesse de uma outra área partidária, ideológica, eu não aceitaria. Existe da minha parte uma identificação com aquilo que é o projecto do PS. Sempre assumi ser uma pessoa posicionada politicamente à esquerda. Uma esquerda moderada, de tolerância, de aceitação e de pluralidade. Abomino tudo o que sejam radicalismos. Eu identifico-me como uma mulher profundamente católica, mas de esquerda. Há quem pense que isto é contraditório.

P - Traçando ainda um pouco do seu perfil de católica praticante, na última páscoa participou no Compasso.
R - Sim, mas não o fiz por estar empenhada nas eleições europeias. Já participo há três anos, com muito gosto. Eu não tenho vergonha da minha fé e com a minha família, gosto muito de participar na paróquia de Santo Adrião.

P - Dessa passagem da teoria política à prática política, mencionou a importância do contacto com as pessoas como algo muito relevante da actividade política. O que é que lhe é transmitido pelas populações nestas eleições para o PE que apresentam sempre índice abstencionistas muito elevados?
R - É preciso fazer a distinção entre o abstencionista convicto e o indeciso. São cidadãos completamente diferentes. Muitas vezes a atitude do abstencionista convicto não é muito diferente da do populista porque o que está no cerne do seu argumento é a ideia que “os políticos são todos iguais ou isto é sempre o mesmo” etc. A diferença é que o populista vota. Isto é muito diferente de ser-se indeciso. Neste caso é o cidadão que está atento, mas que ainda não foi convencido pelos diferentes argumentos sobre qual o seu sentido de voto.

Ultranacionalistas querem acabar com a UE

P - Mas as pessoas continuam a manifestar desinteresse e distanciamento em relação à Europa dos 28 e às decisões políticas que ali são tomadas?
R - Quando falamos com elas e explicamos que o PE é uma assembleia com capacidade efectiva de decisão, que 60% da legislação interfere no nosso quotidiano, as pessoas interessam-se porque muitas vezes não tinham essa consciência.

P - Mas porque é que essa imagem da capacidade de influenciar do PE muitas vezes não chega ao cidadão? Responsabilidade dos políticos em cada um dos países ou dos apelidados ‘eurocratas’?
R - É uma corresponsabilidade de vários actores. Os próprios políticos reconhecem que ao longo dos anos os sucessos negociais foram apresentados como retumbantes vitórias políticas dos governos nacionais; quando surgem os obstáculos as responsabilidades são imputadas às instituições europeias. Este cenário apresentado durante várias décadas acaba por fazer uma pedagogia errada junto das populações porque as leva a ver a Europa como um conjunto de instituições distantes que só servem para dificultar a vida. Do lado das instituições europeias existe um esforço para criar uma imagem positiva junto das pessoas, mas eu entendo que ainda falta fazer muito mais. A União Europeia (UE) não conseguiu entrar na intimidade do raciocínio político dos cidadãos.

P - Estas eleições para o PE, surgem meses antes das legislativas e a tentação é transformá-las numa avaliação ao governo e centrar o debate em questões internas?
R - É uma postura incorrecta porque nunca é demais falar da Europa, falarmos da UE. A União Europeia tem sido um projecto de paz de que não há memória na história da Europa. Os que são verdadeiramente europeístas têm sempre memória da ‘Guerra dos Balcãs’ porque este conflito é importante para fazer recordar que nada é garantido. Este projecto da União Europeia tem trazido desenvolvimento, aproximações importantes entre os povos da Europa. Em relação aos populismos eles sempre andaram por aí, tanto os encontramos à esquerda, como à direita. Aquilo que torna especialmente gravoso os populismos associados à extrema direita é a ‘mundivisão’ que eles apresentam e em que não há espaço para a UE, representa um regresso ao fecho de fronteiras, é voltar ao discurso ultranacionalista de onde no passado derivaram todos as guerras e conflitos na Europa.

P – O ‘Brexit’ é o resultado de populismo
R – Sim. Tivemos em 2014 nas últimas eleições para o PE uma vitoria política do UKIP (Partido da Independência do Reino Unido), de Nigel Farage, que a nível interno pressionou o governo de David Cameron no sentido de fazer um referendo. O ‘Brexit’ é o que sucede quando não temos políticos sintonizados com o interesse coletivo e mais sintonizados com a insensatez, com os tais populismos.

P – Participou num estudo universitário sobre a ‘crise e o euroceticismo’. O que é que ele revela?
R – O estudo foi realizado pelo Instituto de Relações Internacionais da Letónia no qual eu e a minha colega Sandra Fernandes, também colaborámos. No caso de Portugal o euroceticismo tinha uma dimensão instrumental, ou seja, alguns partidos foram accionando o discurso eurocético não por serem contra o projecto europeu, mas sobretudo numa dimensão de discurso político para tentar pressionar determinadas políticas de governação interna num determinado momento. O euroceticismo em países de leste tem a ver com uma cultura política e com uma visão das próprias populações que as leva desconfiar da Europa ocidental.

P – Disse recentemente que a Europa atravessará a crise mais grave de que há memória.
R – Quando dizemos que a Europa está sob fortíssimas ameaças é porque está mesmo e não se trata de um apelo circunstancial ao voto. Os grupos ultranacionalistas querem de facto acabar com a UE. A sua expressão eleitoral, tudo indica, tenderá a ser cada vez maior no PE. No PS temos procurado ter um discurso positivo, construtivo. O PE tem desde 1999 um peso político maior do centro- -direita e isso ajuda a explicar - em especial na última década – os comportamentos de quebra de solidariedade dentro do PE e da Comissão Europeia. Essa quebra de solidariedade não foi apenas no domínio económico, mas também em matérias como a gestão das migrações e dos refugiados e explica o facto de haver no espaço na sociedade para aumentarem as frustrações, o descontentamento das popu- lações e para vermos as pessoas a aderirem aos movimentos populistas que vivem dos momentos de crise.

P – Teme que a onda populista vá entrando também na sociedade portuguesa?
R – As pessoas devem entender que existe uma diferença abissal entre o orgulho que temos na nossa identidade nacional – que é perfeitamente legítimo – e o discurso nacionalista que prima por apresentar uma relação de inconciliação entre ‘nós e o outro’. Este pensamento é terrível numa Europa plural, de grande diversidade cultural. É um discurso que vemos passar com mais facilidade nas redes sociais. Não estamos a salvo do populismo porque ele já está entre nós.

É vital dignificar o mundo rural

P – Qual é sua perspectiva da coesão social na UE?
R – A Europa não precisa de ser reinventada, mas de se reencontrar com a sua identidade inicial. A grande matriz deste projecto que é a União Europeia é a solidariedade. O que tem acontecido nos últimos anos é a um afastamento da UE da sua matriz. Reencontrar o caminho da solidariedade não se faz só com discursos. No caso do manifesto do Partido Socialista está muito nítido que um objectivo central é apostar em acções, em medidas em programas que possam recuperar a solidariedade.

P – Um novo contrato social?
R – Exactamente. Por exemplo a defesa de um programa europeu de políticas de habitação. No distrito de Braga para além dos quatro municípios do Quadrilátero Urbano temos outros com problemas de desertificação. Quando falamos de desertificação, falamos de fixar populações e estas não se fixam se não tiverem emprego, é necessário que haja programas que incentivem a criação de emprego com base nas valências locais, a expansão da rede digital.

P – Tem sublinhado a valorização do mundo rural.
R – O distrito de Braga tem uma dimensão rural considerável e se há coisa que eu não suporto é ouvir dizer: “ainda somos um distrito com concelho rurais”, como se a ruralidade fosse um defeito. O mundo rural vai ser muito importante neste século, mas tem de se adaptar com uma agricultura competitiva aliada á sustentabilidade ambiental e á inovação tecnológica. É vital dignificar o mundo rural.

P – Se for eleita eurodeputada como é que pensa contrariar a lógica de em Portugal os fundos comunitários serem esmagadoramente direccionados para as áreas metropolitanas?
R – Estarei no PE com a minha voz reforçando o contingente de eurodeputados do distrito de Braga para lutar pela importância da nossa região, do nosso distrito e pela dignidade da sua dimensão rural. Em boa verdade também se deve reconhecer que os nossos eurodeputados, independente das suas ideologias, ao longo dos anos têm feito uma luta muito grande para que Portugal não seja prejudicado em matérias como a PAC. Só para as pessoas terem uma ideia para onde vai o dinheiro aplicado no mundo rural, no distrito de Braga temos um sistema de regadio (Cabanelas-Sabariz) que é fundamental. Representa um investimento na ordem dos 8 ME que beneficia mais de 400 explorações agrícolas. No total só em sistema de regadio no distrito de Braga foram investidos nos últimos anos 9,7 ME.

P – O discurso que ainda existe na sociedade portuguesa de que há uma má utilização dos fundos comunitários revela um discurso populista?
R – Eu diria que sim porque o populismo vive de caricaturas. Nós podemos olhar para o “copo meio cheio ou meio vazio”, eu prefiro a primeira opção. Nos últimos quatro anos do programa Norte 2020 foram aprovados mais de 6 mil projectos que em termos de investimento global representam 3,5 mil milhões de euros, sendo que a contribuição europeia rondou os 2 mil milhões de euros.

P – Enquanto investigadora e professora universitária, sem apoios comunitários Portugal seria radicalmente diferente em termos científicos e educativos?
R - A UE tem sido vital para a dinamização do ensino superior – e não só – em Portugal. Na construção e apetrechamento de equipamentos fundamentais, mas também no apoio á investigação científica.

P – As políticas de integração europeias têm contribuído para que os jovens estudantes portugueses alarguem os seus horizontes?
R- Ainda há pouco tempo tive a possibilidade de arguir uma dissertação de mestrado sobre a participação dos jovens portugueses no programa Erasmus. Nesse estudo Portugal aparecia em nono lugar no contexto dos 28 países da UE. Um dos problemas do programa Erasmus, e a União Europeia tem consciência disso, é no próximo quadro comunitário ser fundamental o reforço do programa Erasmus, no sentido de ser mais inclusivo. Muitas vezes os jovens equacionam a sua saída para outro país como parte do seu projecto de vida.
P – Apesar da visão optimista do espaço europeu muitos jovens não votam nas eleições para o PE.
R - Eu acho que eles querem mais e melhor informação. Recordo-me de um estudo do Eurobarómetro junto dos jovens e umas preocupações principais era o que fazer com a informação que recebiam no dia-a-dia, o receio das ‘fake news’. É natural que perante tanta informação haja uma tendência para se retraírem. Não vejo que exista desinteresse dos jovens pela política, há é uma postura mais critica em relação á política, mais exigente. Tenho a convicção que muitos vão votar nestas eleições.

P – Se for eleita eurodeputada pretende assumir o seu lugar no Parlamento ou vai continuar a carreira académica?
R – Neste momento estou focada na campanha eleitoral porque o que está em jogo é muito importante. Eu tenho orgulho em estar em décimo lugar na lista do PS e não acho que seja desrespeitoso para o distrito de Braga. O mais importante é que as pessoas votem.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.