Correio do Minho

Braga, segunda-feira

SYnergia: uma associação de Braga sem fronteiras
Musealização das ruínas romanas das Carvalheiras cria parque urbano

SYnergia: uma associação de Braga sem fronteiras

Garfe: criar um museu dos presépios é o sonho do padre Luís Fernandes

Entrevistas

2018-11-10 às 09h00

José Paulo Silva

A mobilidade internacional, o espaço TOCA e o novo Centro de Artes e Desporto Inclusivo (CADI) marcam o percurso da Associação Juvenil SYnergia . Ricardo Sousa, presidente desde a fundação, disse à Antena Minho e ao Correio do MInho que é tempo de reflectir sobre os novos rumos do associativismo juvenil que podem passar pela economia social.



P - A Associação Juvenil Synergia existe há 14 anos em Braga. Regista um percurso pontuado por uma intervenção multifacetada que tem vindo a ser ampliada.
R - O Synergia começou como uma típica associação de jovens que tinham interesses comuns e para dar resposta a áreas de pouca visibilidade em Braga. Era o caso do apoio às bandas emergentes da cidade e às artes urbanas. Passados 14 anos, sentimos que a Synergia está consolidada e conseguiu responder às dificuldades que a juventude nos apresenta.

P - Nestes 14 anos de existência, as necessidades e as exigências dos jovens foram-se modificando, fruto das próprias alterações na sociedade...
R - A nossa transformação deveu-se a uma necessidade dos jovens: a mobilidade internacional. Quando sentimos que tinham interesse em conhecer novas realidades, decidimos apostar num departamento ligado ao programa Erasmus. A partir daí há uma mudança na estratégia do Synergia.

P - Tem ideia de quantos jovens estão envolvidos nestes programas de mobilidade europeia?
R - Nos projectos desenvolvidos pela Synergia recebemos, anualmente, entre 500 a 800 jovens. Em termos de envio de jovens para iniciativas pontuais, os números são idênticos. Depende dos projectos aprovados, mas são sempre entre 500 e os 1 000 os jovens que conseguimos enviar através de alguns programas.

P - Em diversos países, a vertente do voluntariado no currículo dos jovens é valorizada. Em Portugal as empresas têm em conta essa componente?
R - Fazer voluntariado traz competências e valências de conhecimento que não se adquirem na sala de aula. Ir durante sete meses para um país onde as condições de vida são muito precárias e mostrar capacidade de adaptação, espelha, para quem quer contratar, uma pessoa capaz de ultrapassar obstáculos dentro de uma empresa.

P – Pode dar exemplos de projectos que tenham vagas em aberto para jovens portugueses?
R – Nós estamos com um projecto em Cabo Verde, numa parceria com a Ordem Franciscana de Porto Novo. Temos o apoio de um casal, que são ex-voluntários europeus do programa Erasmus, através do Synergia e que decidiram continuar neste ramo de apoio social

P – Como é que os jovens participam neste projecto?
R – Nós abrimos o Centro Jovem de Porto Novo. Há actividades diárias e uma série de oficinas de educação não formal - oficinas de artes, musicais, curso de inglês – e foi criado um festival que durante quinze dias envolveu diferentes gerações. O impacto foi tão positivo que o Município de Porto Novo assegurou a realização de um festival de maior dimensão no próximo ano. Estamos a participar em projectos na Indonésia, nas Filipinas e na Grécia, que replica nesses países aquilo que é a Synergia. É para nós uma satisfação que outros países venham ‘beber’ da experiência que resulta de um trabalho de 14 anos da Synergia em Braga.

P – Este projecto é repetido em outras zonas de Portugal?
R – Temos alguns municípios a convidar para nos deslocarmos até eles e abrirmos pólos nos respectivos concelhos.

P – Essa é uma possibilidade concreta?
R – É, porque o nosso papel será de facilitador. Aproveitar os jovens, as associações, sentar todos à mesma mesa, pensar projectos em conjunto e fazer as coisas acontecerem.

P - Fica a ideia de que os jovens portugueses não arriscam muito neste tipo de intercâmbios.
R - A participação no voluntariado internacional é difícil. Estamos com projectos muito dinâmicos ligados a países que se encontram numa fase de adaptação á União Europeia. Recebemos centenas de jovens por ano que vêm conhecer uma realidade diferente dos seus países de origem.

P - Os jovens de outros países têm mais apetência para o voluntariado?
R - Muitos países fazem questão de que a experiência de voluntariado conste no currículo dos jovens.

P - Na sua opinião, porque é que os jovens portugueses são menos propensos ao voluntariado?
R - Numa primeira fase, o desconhecimento do próprio projecto. Depois, acho que tem também a ver com aquilo que somos enquanto portugueses, muito ligados à família, ao nosso espaço, ao nosso conforto e com dificuldade em prescindir de tudo isso. Estes projectos de voluntariado são para zonas onde esse conforto é mínimo ou nem existe.

P – Houve um salto qualitativo e quantitativo quando criaram o espaço TOCA (Trabalhos de Oficina Cultural e Associativa), ocupando salas de cinema no Centro Comercial Avenida. O projecto continua válido?
R – Continua. O TOCA foi criado a pensar numa rede cultural e tem-se mantido dentro desse prisma, ou seja, é um espaço cedido às associações que o queiram usar. Há muita dinâmica nesta altura, mas precisamos de resolver alguns problemas relacionados com as infra-estruturas físicas que são antigas e que não são de fácil resolução. Houve constrangimentos que obrigaram a fazer a readaptação do projecto TOCA, mas dentro da óptica de rede cultural tem funcionado bem.

P – Na altura que em Braga se discute a revitalização de alguns edifícios como o antigo cinema São Geraldo e a Fábrica Confiança, o exemplo TOCA poderia ser, na sua opinião, replicado em outros espaços que estão subaproveitados?
R – Penso que há mais alguns espaços que poderiam funcionar através da dinâmica associativa. Acredito que é uma boa solução para dar vida a alguns equipamentos que estão parados, sem ser necessário grandes investimentos municipais. O espaço TOCA funcionou muito assim, com um associativismo á moda antiga, com a determinação dos jovens que ajudaram a recuperar, a pintar. Temos um excelente exemplo que é o da Fábrica ASA em Guimarães.

P – Na sua opinião, a Fábrica Confiança poderia ter esse tipo de aproveitamento, albergando associações?
R - Dava para muitas TOCAS (risos). Eu espero que quem ficar com a ‘Confiança’ aproveite ao máximo as capacidades e as informações históricas que o edifício encerra. Um espaço cultural ali seria óptimo. Se tal não for possível, que se desenvolva um projecto que respeite a história da antiga fábrica.

P – Voltando ao TOCA...
R – O TOCA é um espaço alugado, o que cria algumas dificuldades.

P- É um projecto para consolidar naquele local?
R – Vamos abrir o Centro de Artes e Desporto Inclusivo (CADI), que responderá a muito daquilo que se faz no TOCA. O objectivo é conciliar, mas teremos também de olhar para a nossa saúde financeira. O investimento no CADI é muito grande.

P – De onde vem o dinheiro, não apenas para o CADI, mas para o desenvolvimento de todos os outros projectos da Synergia?
R – A gestão associativa vive de milagres! Temos uma gestão muito rigorosa. Fazemos muitas candidaturas a projectos, mas essa é uma questão importante que nos obriga a reflectir acerca da sustentabilidade nos próximos anos. Não podemos depender tanto de projectos. Já conseguimos reduzir essa dependência dos 90% para os 70%. Este ano, provavelmente vamos conseguir baixar a dependência para os 60%.

P – O caminho passa pela associação ser uma prestadora de serviços na área da juventude?
R – Desde que as respostas sejam de qualidade, com preços que permitam às pessoas usufruir das actividades, acho que cumprimos o nosso papel social.

P – O projecto do CADI é um investimento significativo.
R – Começou por ser um investimento tripartido. O Instituto da Juventude comprometeu-se com 50 mil euros, o Município de Braga com 100 mil e a Synergia também com 100 mil euros. É uma estrutura que vai dar abrigo a projectos de 42 organizações. Para conseguir os nossos 100 mil euros recorremos a alguns parceiros e apelámos à responsabilidade social. O nosso apelo tem tido uma grande aceitação, porque não estamos a pedir financiamento, mas materiais.

P – Pelo que disse, o CADI não vai ser apenas da Synergia
R – Queremos um espaço que seja verdadeiramente inclusivo, em que as modalidades normais partilhem o espaço com as modalidades do desporto adaptado. Não sei se é utópico, mas vamos tentar que todos partilhem o espaço em igualdade.

P - A previsão é a abertura do CADI no Verão do próximo ano?
R - Queremos inaugurar a 12 de Agosto de 2019, Dia Internacional da Juventude e porque foi num dia 12 de Agosto que inaugurámos a nossa sede.

P - Que tipo de valências é que o CADI vai ter?
R - Vamos ter duas salas polivalentes e algumas sensoriais para trabalhos mais individualizados com pessoas que apresentam necessidades especiais. Nas salas polivalentes queremos estimular o teatro, a dança e alguma performance artística com instituições (Novais e Sousa, Cerci Braga, APPACDM) com quem já temos feito alguns trabalhos. No desporto tradicional queremos manter as actividades que temos e convidámos associações para estarem connosco.

P - Têm projectada uma segunda fase para o CADI?
R - Vamos criar um parque intergeracional com uma junção de jogos recentes e outros mais tradicionais, teremos depois uma área sensorial vocacionada para a música, uma biblioteca de jardim que será gerida por professores aposentados e que inclui uma zona de conto.

P - E para esta segunda fase do CADI já existe financiamento?
R - Temos o compromisso de algumas empresas com responsabilidade social. É preciso que o Município também comparticipe no quadro de uma responsabilidade partilhada. Estamos a negociar com a autarquia a natureza desse investimento. O apoio financeiro da Câmara de Braga é na ordem dos 72 mil euros e conseguimos 100 mil euros através da responsabilidade social das empresas.

P - Vai ser colocado à venda um livro que tem a ver com a função do CADI.
R - O livro tem uma matriz educativa. Leva os mais jovens a reflectirem sobre o que é a inclusão das pessoas com deficiência motora. Vai ser colocado à venda a partir de 21 de Novembro. Desafiámos uma empresa de Braga que se dedica á edição de livros de cariz educativo. Trata-se de mais uma parceria e é o contributo deles para o CADI. A receita da venda vai directamente conclusão da obra, nomeadamente a parte que é da Synergia.

P - O CADI significa um salto em frente da associação, à semelhança do que sucedeu quando se dedicaram a projectos ligados à mobilidade dos jovens?
R - O CADI pode ajudar a criar mais postos de trabalho, e isso ajudará a associação a desenvolver-se. Teremos obrigatoriamente de dar o exemplo, inserindo pessoas com necessidades especiais para trabalhar connosco no Centro.

P - O CADI pode contribuir para uma maior autonomia financeira da associação?
R - Pode e deve. Queremos que as pessoas, as instituições sintam que estão a contribuir para uma causa que é de todos.

P - A Synergia gere o Centro de Medicina Desportiva de Braga, em parceria com a autarquia, e recentemente assinou um protocolo com a Câmara de Terras de Bouro para a abertura de um outro centro naquele concelho. É também a pensar na sustentabilidade financeira?
R - Não é o projecto mais indicado para esse fim. O preço das consultas é muito social. O Centro de Medicina Desportiva de Braga funciona em instalações cedidas pela Câmara no antigo hospital. As nossas equipas deslocam-se aos clubes. Desenvolvemos também o projecto ‘Saúde Escola’ através do qual realizamos os exames médico-desportivos nos estabelecimentos escolares. No caso de Terras de Bouro, foi o Município que nos desafiou a abrir um Centro de Medicina Desportiva que poderá vir a ter outras valências que sirvam os interesses da população.

P - Este ano lectivo, o Synergia começou a gerir iniciativas no âmbito das Actividades de Enriquecimento Curricular (AEC).
R - Posso adiantar que há outros municípios que marcaram reuniões connosco para projectarmos o próximo ano lectivo. Nós apresentámos uma metodologia de educação não formal nas AEC, depois as escolas só têm de escolher o projecto que mais lhes interessa.

P - O que é ‘Braga Cidade Europeia do Desporto 2018’ traz de mais valia para o concelho.
R - Creio que despertou a comunidade para uma prática desportiva constante que espero se mantenha no futuro.

P - Com a sua experiência de dirigente associativo, entende que existem condições para manter esta dinâmica?
R - A Capital Europeia da Juventude operou uma transformação muito positiva no movimento associativo juvenil de Braga, que começou a estar mais presente. No caso do desporto, observei um envolvimento de todos os clubes, uns mais do que outros, mas tudo o que foi concretizado teve um balanço positivo. No essencial Braga está de parabéns.

P - Braga quer ser Capital Europeia da Cultura em 2027. O que é que pensa deste desafio, dado que a Synergia trabalha também a vertente cultural?
R - Fico contente, porque esse objectivo faz como que se trabalhe desde já áreas fundamentais para que a candidatura seja bem-recebida.

P - Que défices é que encontra no processo cultural em Braga?
R – Braga ainda tem um longo caminho a percorrer até chegar Capital Europeia da Cultura, não apenas em matéria de equipamentos, mas acima de tudo em termos de mentalidade.

P – Qual é a radiografia que faz do movimento associativo juvenil em Braga?
R – Acho que está a trabalhar bem, mas pode obviamente fazer muito mais. Nós temos uma das maiores universidades do país e uma fatia de juventude em Braga que é única.?Temos de aproveitar esse potencial.

P – As associações trabalham em rede ou estão de costas voltadas?
R – Trabalhamos em rede na apresentação de candidaturas, mas depois há situações no dia a dia em que podíamos estar mais unidos. A nova Lei do Associativismo Juvenil está muito focada nas idades dos dirigentes e aponta para que o apoio anual do IPDJ só seja atribuído se os presidentes tiverem menos de 30 anos. É algo que está em reflexão com muitas críticas.

P – A Synergia tem também intervenção na integração de comunidades migrantes e de grupos minoritários dentro da sociedade bracarense.
R - Estamos com um projecto na Junta de Maximinos, o ‘Empreender sem Fronteiras’. Inicialmente, era uma formação vocacionada para imigrantes islâmicos, mas houve mudanças e agora damos apoio á comunidade brasileira, fornecendo ferramentas para a inserção no mercado de trabalho. Estamos também a desenvolver este ‘Empreender sem Fronteiras”‘ em Bragança, numa parceria com a autarquia.

P – No âmbito do Orçamento ‘Tu Decides’, o Synergia tem apresentado projectos que têm sido financiados
R - O ano passado, fomos apoiados para realização do festival de música ‘Braga Sounds Better’. Este ano voltámos a ser apoiados. Já replicámos este conceito de festival em outras cidades.

P – A Synergia ultrapassa as fronteiras de Braga?
R – A metodologia de intervenção da Synergia já não cabe naquilo que é somente uma associação juvenil. Sugerem-nos que sejamos uma Organização Não Governamental, que devemos avançar para outros patamares.

P – Mas existe a perspectiva de uma mudança estatutária para se adaptar?
R – O secretário de Estado do Desporto de Juventude alertou-nos para o facto de não nos encaixarmos naquilo que é o associativismo juvenil. Eu digo que nos encaixamos, porque o associativismo juvenil está a desenvolver-se e a procurar outros rumos.

P – Teria de haver uma mudança legislativa para alargar a capacidade de intervenção das associações juvenis?
R – Exactamente. Mas é algo que não se encaixa na actual proposta de Lei do Associativismo Juvenil

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.