Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Teotónio Santos: Retirar transporte individual da cidade
Casa Fundevila reinventa-se com charme

Teotónio Santos: Retirar transporte individual da cidade

Arcos de Valdevez em encontro com representantes dos Parques Nacionais dos Estados Unidos da América

Entrevistas

2019-04-13 às 09h00

Rui Alberto Sequeira

TEOTÓNIO DOS SANTOS, administrador executivo dos TUB, perspectiva a continuidade de crescimento do número de utentes de transporte público, mesmo numa cidade que foi desenhada para o transporte individual. Em entrevista ao Correio do Minho/Rádio Antena Minho, aponta o objectivo de captar a classe média para o transporte público e confia na gestão do estacionamento automóvel à superfície como fonte de receita importante para a transportadora municipal nesta fase de investimento em frota e instalações.

P - Os Transportes Urbanos de Braga (TUB) tiveram, em 2018, um crescimento de 2,3% do número de passageiros, relativamente a 2017. Este indicador tem tendência a aumentar?
R - 2018 foi um ano em que os TUB apresentaram crescimento de passageiros transportados e de volume de negócios. Pelo quinto ano consecutivo, tivemos um resultado líquido positivo. Pode dizer-se que os colaboradores têm feito um trabalho excepcional, sem comparação com outras empresas de transportes.

P - Transportaram 12 milhões de passageiros. Que metas têm para o futuro, atendendo ao Programa de Apoio à Redução Tarifária (PART)?
R - O objectivo é, claramente, continuar a aumentar o número de passageiros transportados. Queremos chegar aos 15 milhões nos próximos anos e a alterar a classificação modal a favor do transporte colectivo. Precisamos de retirar transporte individual da cidade e, nesse sentido, temos vindo a promover práticas para a mobilidade mais sustentável, criando um ecossistema mais favorável que permita às pessoas aceder à cidade através do transporte colectivo. Uma das medidas que implementámos foi o congelamento dos tarifários. Penso que isso não foi devidamente validado e reconhecido junto da comunicação social e dos não utilizadores. Só agora que o Governo lançou o PART é que as pessoas começaram a consciencializar que o preço tem significado na decisão de escolha do transporte. Nós tínhamos essa certeza quando, no início de 2014, implementámos o congelamento dos tarifários.

P - No início do anterior mandato autárquico foi apontada a meta dos 20 milhões de passageiros em 2025. Ainda é realista essa perspectiva?
R - Essa meta foi retirada da política europeia de transportes públicos. O que constatámos é que a maior parte das cidades nem tem aumentado o número de passageiros. Braga tem conseguido aumentos significativos.
P - 15 milhões até final deste mandato autárquico?
R - Não. Para atingir esse número precisamos de aumentar ainda mais a oferta e ter mais autocarros.

P - Apesar dos cinco anos de aumento de passageiros transportados, a cidade de Braga continua com muitos automóveis a circular. Há muito transporte individual nas deslocações pendulares. Há outras razões para o transporte público não ser a primeira escolha para muitas pessoas?
R - A cidade de Braga nasceu orientada para o transporte individual. Onde moram 100 mil pessoas há cerca de 50 mil lugares de estacionamento de transporte individual. Com o crescimento que teve, a cidade favoreceu a vinda do transporte individual para o centro. Nós temos vindo a contrariar essa perspectiva com algum sucesso. Temos vindo a fazer grandes campanhas de promoção, a sensibilizar para a existência de uma rede de transporte público que tem vindo a melhorar significativamente. Os principais pólos geradores de mobilidade dentro da cidade já estão ligados com frequência de autocarros de 15 minutos.

P - Já há menos desculpas para não usar o transporte público?
R - A oferta dos TUB tem melhorado significativamente nos últimos anos e sem qualquer aumento de tarifário. Por exemplo, tínhamos a zona de Lamaçães praticamente sem oferta e hoje tem duas linhas que representam um novo paradigma de mobilidade, que funcionam todos os dias da semana, com frequência de 20 em 20 minutos.

P - A renovação da frota tem ajudado a criar uma imagem diferente dos TUB?
R - Nós tentamos melhorar a imagem da empresa e a imagem dos autocarros, mesmo os que estão mais envelhecidos. Com o Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos (POSEUR), já executámos o processo de renovação da frota. Seis novos autocarros eléctricos já estão a operar deste Setembro.

P - Qual é o balanço de funcionamento dessas autocarros?
R - O balanço é positivo. Desde o início da operação, executámos 80% dos quilómetros previstos. Isso teve a ver com alguns constrangimentos que foram surgindo fruto de uma tecnologia recente. Um autocarro eléctrico ainda não aguenta um dia inteiro de serviço Estamos numa fase de aprendizagem, daí a nossa opção de não depender de uma única tecnologia. O segundo projecto POSEUR, já aprovado e que vamos começar a executar agora, para estar concluído até final de 2020, inclui sete autocarros eléctricos e 25 a gás.

P - Essa desproporção tem a ver com a maior eficácia dos autocarros a gás?
R - Tem a ver também com a questão do preço. Um autocarro à gás custa sensivelmente metade de um autocarro eléctrico.

P - Os autocarros eléctricos geraram algum incremento de passageiros?
R - As linhas onde operam já estavam em crescimento. Quando os clientes aumentam é por vários motivos.

P - Em termos de operação, os TUB têm ganhos com os autocarros eléctricos?
R - O investimento pesa na operação. Cada autocarro eléctrico custou 425 mil euros. Já estamos com ganhos significativos na operação.

P - Para o corrente ano está previsto um grande investimento dos TUB através do POSEUR.?Quando é que os 32 novos autocarros entram em operação?
R - Não vêm todos ao mesmo tempo. O programa terá de estar implementado até ao final de 2020. Prevê-se um investimento de 9,7 milhões de euros, dos quais 3,6 cofinanciados pelo POSEUR. Ou seja, os TUB vão ter de colocar nesta operação cerca de 6,3 milhões de euros.

P - São autocarros para substituir outros mais antigos, ou haverá crescimento da frota?
R - Nós apontamos duas lacunas ao POSEUR: o financiamento não é assim tão significativo e exige o abate de uma viatura por cada viatura nova que entre. Não prevê o crescimento da frota que iria dar resposta a novas necessidades da cidade, que tem cada vez mais pessoas que vêm para cá estudar e trabalhar.

P - Os TUB tem 147 autocarros. Qual seria o número ideal?
R - Nem todos esses 147 estão operacionais.

P - Quando chegam as primeiras novas viaturas?
R - Estamos a preparar a operação com as entidades financeiras. Até ao final do ano teremos cá os primeiros autocarros.

P - Apesar de resultados operacionais positivos sucessivos, os TUB não têm possibilidade de crescimento da frota, uma vez que os novos 32 autocarros vêm substituir outros mais antigos?
R - Nos últimos cinco anos temos tido resultados positivos, mas o que é facto é que não conseguimos libertar recursos para renovar a frota. Neste momento temos vários desafios. Temos o plano de renovação da frota para executar este ano e no próximo; temos a anexação dos terrenos da Ponte dos Falcões para, numa primeira fase, ampliar, o nosso parque de viaturas, e avançar para o Parque de Material e Oficinas (PMO). As actuais oficinas estão completamente obsoletas.

P - É um projecto para avançar este ano?
R - Sim. Há dois anos apresentámos um anteprojecto, estamos a concluir um projecto que prevê a alteração das oficinas e dos escritórios, Neste momento, estamos a vedar o nosso terreno para, numa primeira fase, ali estacionarmos os autocarros. Como se trata de uma área de reabilitação urbana, pensamos que poderemos estar em boas condições de concorrer ao IFRRU 2020 - Instrumento Financeiro. Reabilitação e Revitalização Urbanas. Trata-se de um terreno bem localizado, que reduz os quilómetros em vazio e o horário dos motoristas, ao contrário do que sucederia se fosse na periferia da cidade.
P -?Há quem sugira essa localização.?Há prós e contras?
R - Em termos de quilómetros em vazio e de horários dos motoristas, seria uma situação gravosa para a empresa e que poderia pôr em causa as contas da empresa.

P - Tem ideia do investimento necessário para o PMO?
R - Estamos a ultimar pormenores com o arquitecto de forma a que possamos ter um parque com qualidade para responder aos desafios da cidade.

P - Está prevista alguma remodelação da rede dos TUB? Acrescentar linhas às que existem, mesmo tendo em conta as limitações da frota?
R - O?PART prevê a utilização da verba alocada a Braga, 782 mil euros, para redução tarifária e melhoria do serviço.?Decidimos utilizar 81% dessa verba para a redução tarifária, implementando uma redução de 16% para toda a população que utiliza passe de carregamento mensal. Os 19% remanescentes vamos utilizá-los na melhoria da oferta, ainda este ano, a partir de Maio/Junho. Em Nogueira, a zona do Hospital privado que, apesar de movimentar mais de duas mil pessoas, está mal servida de transporte público; vamos melhorar a oferta para o Bom?Jesus aos sábados, domingos e feriados, porque a procura turística tem vindo a aumentar nos últimos anos; também aos fins-de-semana, vamos aumentar a oferta da linha Camélias-Hospital público.

P - Algumas pessoas poderão questionar o porquê de os TUB não afectarem à melhoria do serviço uma fatia maior do PART...
R - Queríamos que se fizesse sentir a questão da redução do tarifário. O preço tem relevância na opção pelo transporte público.

P - Já se notaram resultados da redução do tarifário dos passes?
R - É prematuro. Comparativamente com 2017, estamos com mais dois mil passes, mas muitos vêm de trás. Temos de esperar alguns meses para tirar alguma conclusão.

P - Esta redução não se aplica a outros títulos de transporte.
R - Decidimos aplicar a redução aos clientes mais fidelizados ao transporte público.

P - O cliente dos TUB?é muito estudantil e idoso. Há mais alguma parte da sociedade que gostassem de captar?
R - O objectivo que temos vindo a procurar é captar a classe média com melhoria de oferta. Desde 2014 que temos vindo a crescer em todos os títulos de transporte, incluindo o passe normal não bonificado. Queremos que a classe média substitua o seu transporte individual pelo autocarro,

P - O apoio do Programa de Apoio à Redução Tarifária (PART) vai manter--se no próximo ano e seguintes?
R - Esperemos que sim. É um primeiro passo que o Governo deu para promover a verdadeira mobilidade sustentável e que teve, pela primeira vez, impacto fora das grandes áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.

P - A administração dos TUB, na linha do que vem dizendo há muito tempo o próprio poder municipal, também se sente discriminada pelo poder central em relações aos sistemas de transporte de Lisboa e Porto?
R - Sim. Ainda há poucos dias o presidente da Carris dizia numa entrevista que tem vindo a renovar a frota com o apoio do POSEUR, ao mesmo tempo que afirmava que não tem de recorrer à banca para financiar o remanescente. O Governo financia-os por duas vias. Os TUB vão executar este segundo programa do POSEUR com necessidade de recorrer à banca.

P - Isso quer dizer que nos próximos anos não podemos esperar resultados financeiros tão positivos nos TUB?
R - O nosso objectivo é continuar a crescer, a captar mais clientes.

P - Mas será mais difícil manter o equilíbrio de contas com estes novos encargos financeiros?
R - O que esperamos é que os novos autocarros nos permitam reduzir os custos operacionais e continuar a ter a empresa com as contas equilibradas.

P - Os custos operacionais têm um peso grande?
R - Os TUB têm um orçamento próximo dos 12 milhões de euros e cerca de sete milhões são para pagar salários. O segundo maior custo são os combustíveis: cerca de três milhões de euros por ano.

P - A redução dos passes via PART abrangeu 22 mil pessoas?
R - Sim.

P - É um número que fica aquém das expectativas, tendo em conta a população do concelho de Braga?
R - O objectivo é que os utilizadores pontuais do transporte público possam fidelizar-se com a aquisição do passe mensal.

P - O financiamento do PART vai acompanhar um eventual crescimento do número de utentes com passe mensal?
R - Se houver um crescimento muito substancial, poderemos não ver essa verba comparticipada.

P - Não há um financiamento ‘per capita’?
R - Não. O Orçamento de Estado prevê para as áreas metropolitanas de?Lisboa e Porto a grande fatia do PART.?Para a Comunidade Intermunicipal do Cávado foram afectos 1,6 milhões de euros. Temos de viver com o que temos.

P - ‘O School Bus’ é um projecto com sucesso?
R - Sim. Arrancámos no início do ano lectivo no sentido de descarbonizar e de retirar alguns carros do centro da cidade.?Temos seis escolas envolvidas, três públicas e três privadas, e temos tido boa procura e bom ‘feed back’ por parte dos alunos e dos encarregados de educação.

P - Há possibilidade de alargamento no próximo ano lectivo?
R - Estamos a estudar.

P - Quais são as dificuldades?
R - Têm a ver com constrangimentos financeiros, como é óbvio. Servimos seis escolas em zonas críticas da cidade.

R - Disse atrás que a cidade de Braga foi desenhada para o trânsito automóvel particular. Brevemente, os TUB vão ficar com a missão da fiscalização do estacionamento automóvel à superfície. É uma desafio novo para a empresa? Como estão a prepará-lo?
R - Um dos desafios é a gestão de novos negócios. Aqui entra a gestão do estacionamento à superfície. Há cerca de dois meses foi aprovada a alteração dos estatutos para que pudéssemos abarcar outras competências. A empresa tem ‘know how’ e poderá permitir uma gestão mais integrada da mobilidade. Estamos a estudar com a Câmara Municipal um modelo de negócio que apresentaremos muito brevemente.

P- O condutor dos autocarros dos TUB vai ver se os carros estão mal estacionados?
R - (risos) Não!

P - Essa imagem já foi muito usada pelos críticos...
R - Em muitas cidades já existe uma rede de transportes que dá resposta a determinada população. A restante população que não pretende utilizar a rede de transportes vem no seu carro individual e paga o estacionamento. Esse dinheiro reverte para o financiamento do sistema de transportes.?Este modelo pode permitir uma gestão integrada da mobilidade tornar-se um negócio rentável para ajudar os TUB.

P - Isso pode ser importante para o equilíbrio das contas nesta fase de maior investimento?
R - Sim. Nós vamos investir fortemente nos autocarros e no nosso parque. Essa verba pode ser relevante.

P - Quem vai fiscalizar o estacionamento?
R - Teremos uma equipa para esse serviço.

P -Isso acontecerá ainda este ano?
R -Seguramente.

P - Podemos ver nesta opção do Município de Braga uma valorização do transporte público? Os TUB poderão ter alguma capacidade de supremacia sobre o transporte privado em determinadas zonas da cidade?
R - A fiscalização do estacionamento em segunda fila e nas nossas baías de estacionamento dirá respeito às autoridades policiais. Nós simplesmente vamos fiscalizar o estacionamento nos parcómetros.

P - A Câmara Municipal de Braga tem anunciada uma alteração do mapa do estacionamento à superfície e a criação de zonas diferenciadas...
R - Estamos a estudar o assunto em articulação com a Câmara.

P - Mas por essa via poderão reduzir zonas de conflito?
R - Podem ser acrescentadas zonas de estacionamento, podem ser reduzidas outras.?Estamos a estudar também a possibilidade de preço diferenciado por zonas.

P - No início do anterior mandato autárquico, falou-se muito da possibilidade de novas modalidades de transporte público em Braga. Falou-se muito do BRT (Bus Rapid Transit) . É um cenário que a actual administração dos TUB?equaciona?
R - Os fundos comunitários para 2020-2030 prevêem a inserção de BRT em cidades com mais de 100 mil habitantes. Braga insere-se nesse tipo de cidades. São investimentos exigentes e de grande envergadura que exigem fundos comunitários. Em alguns eixos da cidade seria possível implementar um BRT.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.