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Entrevistas

2019-05-25 às 13h00

José Paulo Silva José Paulo Silva

é director executivo do Instituto de Ciência e Inovação para a Bio-Sustentabilidade (IB-S) da Universidade do Minho. Em entrevista ao Correio do Minho e Rádio Antena Minho, defende a conciliação do crescimento económico com o desenvolvimento sustentável. Aponta o mar como sector cada vez mais importante na acção do IB-S e projecta a participação no projecto espacial português, a par do desenvolvimento de projectos na área da inteligência artificial.


P – Qual é o trabalho do Instituto de Ciência e Inovação para a Bio-Sustentabilidade (IB-S) da Universidade do Minho?
R – O IB-S tem como objectivo reunir especialistas de várias áreas da Universidade do Minho que trabalhavam isolados em equipas multidisciplinares, para que, em colaboração estreita com o tecido empresarial, possam encontrar algumas soluções que minimizem problemas de sustentabilidade ambiental. O que fazemos é a junção de investigadores de diferentes áreas. Acreditamos que os problemas de sustentabilidade ambiental não se conseguem resolver com uma visão mais holística e integrada. Para que o impacto do que sabemos seja mais directo, estamos em diálogo muito estreito com o tecido empresarial.

P - O tecido empresarial vai tendo essa capacidade em absorver a produção científica?
R - Essa visão é cada vez mais uma realidade. No início da minha carreira académica verificava-se um grande distanciamento entre o tecido empresarial e a academia. Tinham quase vidas paralelas. Acho que a crise a que fomos sujeitos acabou por criar a necessidade de juntar esforços para aumentar a competitividade. Há também uma nova geração de gestores e administradores que percebem a mais-valia que existe no diálogo estreito com a universidade e na inovação. Há muitas empresas em Portugal que perceberam isso.

P - A relação do IB-S com as empresas faz-se muito através do programa Cátedra Empresa, que está está a funcionar pelo menos com um grupo empresarial bracarense. O que é que isso significa na prática?
R - Toda a gente reconhece a necessidade de termos doutorados nas empresas. O número de doutorados nas empresas em Portugal ainda é reduzido, mas tem vindo a crescer, tal como o número de projectos de universidades com empresas. Com programa Cátedra Empresa do IB-S, a empresa faz um investimento durante quatro ou cinco anos na contratação de um investigador para uma área de interesse e que seja também competência da universidade. Esse investigador vai contratar uma equipa de bolseiros e a empresa coloca na Cátedra alguns dos seus colaboradores a fazer doutoramento. Isto torna possível montar uma equipa que durante esses anos vão fazer investigação sistemática. O nosso modelo é muito virada para objectivos, tanto que a propriedade intelectual que é criada é dividida entre a empresa promotora, a universidade e o titular da cátedra. Temos duas cátedras em funcionamento, uma delas com o grupo DST na área da construção sustentável. A segunda é com o grupo Proef e a empresa DSTelecom, relacionada com as redes de telecomunicações do futuro, o impacto do 5-G na nossa vida diária. Estamos em negociações com mais duas empresas, uma delas da área do abastecimento de água.

P - Há já trabalho feito pelo IB-S neste domínio?
R - Sim. Temos grupos de trabalho que trabalham na área da água, sobretudo ao nível da poluição. Ainda a semana passada tivemos um curso avançado de restauro de rios. Por isso é que queremos ter uma cátedra nessa área. Preparamo-nos para criar no nosso edifício um equipamento que será dos poucos na Europa: um rio artificial de grandes dimensões que vai permitir testar o impacto de novos poluentes e de medidas mitigadoras em cursos de água. Estamos a tentar agregar um conjunto de parceiros para financiar esse equipamento que vai ser muito importante para a nossa actividade de investigação como para as empresas do sector.

P - E a outra cátedra?
R - Será área da produção florestal. Temos em Portugal uma indústria muito relevante nesta área, pelo que a investigação é muito importante para o país.

P – A produção de conhecimento e de soluções científicas e técnicas acompanha o crescimento da economia?
R – A grande discussão do momento é se a tecnologia e os avanços científicos que acontecem todos os dias vão conseguir acompanhar a necessidade de protecção ambiental. O problemas das alterações climáticas está na ordem do dia, mas o problema de que se fala menos e que é mais premente é o dos recursos. Temos uma população mundial que ronda os oito mil milhões de pessoas, em 2050 poderá chegar aos 10 mil milhões de euros.
O crescimento demográfico é exponencial. O modelo de desenvolvimento actual permitiu tirar muita gente da pobreza extrema. Isso é bom, mas traz novos desafios ambientais e de gestão dos resíduos. É preciso uma mudança muito disruptiva. A economia circular e de reaproveitamento de recursos está na ordem do dia mas, segundo os números mais recentes, apenas oito por cento da economia mundial é circular. Já não há tempo para medidas que sejam muito lentas.

P - O IB-S está a construir uma relação com municípios, nomeadamente desta região. Há dificuldade em implementar essas medidas mais disruptivas a uma escala local e regional?
R - O que sentimos no IB-S é que a consciencialização ambiental está muito estabelecida a nível político, da academia, das empresas e da população.

P - Mas não há falta de coragem dos poderes em implementar medidas?
R - Não diria que há falta de coragem, ?existe alguma inércia. Os políticos estão perfeitamente alinhados, ao nível governamental e ao nível local, mas há necessidade de uma maior planificação das políticas para a sustentabilidade. Muitas cidades, a nível mundial, têm estabelecidos planos de sustentabilidade a médio e longo prazo. Ou seja, tentam perceber áreas como a mobilidade, resíduos, água, saneamento e fazem um plano com medidas e metas de monitorização. É muito importante fazer isso em Portugal. Algunos municípios como Guimarães estão a fazer esse caminho. O IB-S vai arrancar com o Município de Braga o Plano de Sustentabilidade 2030. O que vamos fazer é reunir um conjunto de especialistas e de entidades, fazer o ponto de situação actual e estabelecer um plano de médio e longo prazo com o qual o Município se possa comprometer.

P - O IB-S participou na candidatura de Guimarães a Capital Verde Europeia. Isso obrigou também à elaboração de um Plano de Sustentabilidade?
R - Guimarães está a fazer esse trajecto. Mais importante que o rótulo de Capital Verde Europeia é o caminho que se fez, que obrigou a tomar iniciativas que, sem esse foco, iriam ficar na gaveta.

P - Com o Município de Esposende há também um trabalho que está a ser feito.
R - Temos um projecto muito relevante com o Município de Esposende, que envolve outros parceiros como o ICNF e a Universidade do Porto, chamado Observatório Marinho de Esposende. Estamos a fazer o mapeamento detalhado do Parque Natural Litoral Norte. No site www.omare.pt já é possível consultar muita informação recolhida. Tenho a visão de que só se consegue gerir o que se conhece. A Universidade do Minho tem um protocolo com o Município de Esposende para o aproveitamento da Estação Rádio Naval de Apúlia e do Forte de S. João Baptista. Na Estação Rádio Naval vai ser criado um centro de investigação que vai abranger várias áreas: protecçãocosteira, biotecnologia, bioeconomia...

P - O mar é uma área de conhecimento que dará um grande salto na Universidade do Minho?
R - Acho que a aposta no mar tem sidomuito reforçada pela Universidade do Minho nos últimos anos. O mar é um dos maiores bens que temos e poder ser uma grande mola de crescimento. Mas esse crescimento tem de ser feito de forma sustentada e com os devidos cuidados para que não se faça uma sobreexploração de recursos. O mar já está muito exaurido e poluído. A sua exploração tem de ser muito pensada e cuidada.

P - O mapeamento do litoral de Esposende foi considerado na elaboração do Programa da Orla Costeira, que teve alguma contestação pública por via de algumas medidas que estão previstas para travar a erosão costeira?
R - As intervenções na orla costeira são sempre alvo de grande discussão. Passámos de uma abordagem baseada em engenharia pesada para uma abordagem de engenharia natural, com intervenções minimalistas e a retirada controlada de populações. A realidade é que são gastos todos os anos milhões de euros na costa e as intervenções e planos são sempre discutíveis. Há medidas do Plano com as quais eu concordo e outras não, mas reconheço que conciliar é muito difícil. A visão do IB-S relativamente à intervenção na orla costeira é que será possível, no futuro, ter medidas mais efectivas do ponto de vista dos resultados. Medidas que sejam uma mistura daquelas duas abordagens, baseadas num conhecimento mais profundo dos fenómenos costeiros. Muitas vezes, as intervenções são baseadas em conhecimentos limitados. A erosão costeira é muito premente e têm de se tomar decisões mais ou menos efectivas. No futuro, teremos medidas inovadoras, baseadas nas medições mais eficazes dos processos costeiros, que vão permitir aos projectistas tomar decisões mais eficientes. Portugal tem um costa muito enérgica, que pode permitir testar soluções que possam ser exportadas para outras partes do mundo. Podemos resolver problemas ambientais com tecnologias que possam ser alavancadas do ponto de vista económico.

P - O IB-S tem também trabalho conjunto com Viana do Castelo. O que estão a fazer em concreto?
R - Temos um trabalho profícuo com o Município de Viana do Castelo nos últimos anos. Temos vários projectos em andamento. O mais emblemático será o Observatório da Biodiversidade, infraestrutura que estamos a montar na Praia Norte. No Observatório será instalada uma equipa de investigação do IB-S para fazer trabalho de campo e, em simultâneo, será criado um centro de divulgação da actividade marinha.

P - O projecto está em desenvolvimento?
R - A estrutura física está construída. O Município de Viana do Castelo conseguiu financiamento relevante para a aquisição de equipamento. O Centro vai ter um aquário de grandes dimensões que traduzirá a realidade do mar no concelho de Viana do Castelo.?Penso que nos próximos meses estaremos em condições de arrancar com este projecto. No próximo ano teremos muitas novidades na relação com o Município de Viana do Castelo.

P - Enquanto investigador e responsável pelo IB-S, como vê o movimento greve pelo clima liderado pela estudante sueca Greta Thunberg. Que efeitos tem este tipo de acções?
R - Tenho muita simpatia e contentamento por esses movimentos. A consciencialização ambiental é fundamental. As novas gerações são muito criticadas pelas suas posições e acções, mas é interessante que esta campanha tenha sido agarrada, de forma tão rápida e profunda, por tanta gente.?Há um conjunto de pessoas que têm uma grande responsabilidade pelos desígnios do mundo, mas a verdade é que a grande mudança é feita em todos nós nas acções diárias. Nós é que temos a capacidade de mudar com pequenos gestos. O somatório das pequenas acções é que vai provocar a mudança. Esses movimentos são muito importantes e agregadores, agora temos de ter a consciência de que a mudança está dependente, em larguíssima medida, da nossa actividade diária. Se todas as pessoas que estão nas manifestações foram coerentes, na sua vida diária, com aquilo que preconizam, vamos ter uma mudança muito rápida.

P - Mas a mudança é possível com líderes mundiais que negam o aquecimento global e outros fenómenos que são visíveis?
R - São sempre importantes as nossas acções do dia a dia. Não devemos ser polícias ambientais, mas exigir que os nossos concidadãos sejam minimamente cívicos. Quando elegemos líderes que são negacionistas ou que colocam entraves a esta transição, temos um problema. Apesar de haver blocos que estão mais preocupados com questões económicas, existem países que estão a fazer o seu percurso de crescimento económico com preocupações ambientais. Gosto de olhar para estes exemplos positivos.

P - Um das áreas do trabalho que se faz no IB-S tem a ver a construção sustentável, a procura de soluções que tornem a construção mais amiga do ambiente. O que é que têm feito?
R - Na área da construção há um grande trabalho a realizar ao nível da eficiência energética, já que uma grande parte da energia que é consumida é gasta nos edifícios. É muito importante reduzir essa factura. Colaboramos com um grupo de investigação que trabalha só em eficiência energética de edifícios. Outra questão importante são os materiais utilizados na construção. A produção de cimento a nível mundial está associada a 8 a 10% das emissões de dióxido de carbono.

P - E é possível fazer uma casa sem cimento?
R - Existe um conjunto de projectos de investigação que visam substituir o cimento como ligante por outros materiais. Ao mesmo tempo, reduzimos a produção e cimento e reutilizamos outros materiais que não vão parar a aterro.

P - Soluções ainda muito dispendiosas?
R - Não tanto. Já construímos um trecho de cem metros de uma estrada com a utilização de um ligante novo. Chegámos à conclusão que estas novas soluções começam a ser competitivas.

P - E em condições de chegar ao mercado?
R - Eu penso que não será necessária uma década para vermos soluções implementadas e estruturas a ser construídas com as novas soluções. Nós estamos a desenvolver projectos com as empresas e estas não investem em soluções que estão demasiado longe do mercado.

P - Vão surgindo notícias de tijolos que são construídos com os materiais dos mais estranhos, à primeira vista...
R - Estive ligados a projectos de investigação que procuraram recuperar processos ancestrais de construção. Por exemplo, a construção em terra. Pode parecer estranho, mas estima-se que 25% da população mundial ainda viva em habitações em terra. São construções muito duráveis. É possível trazer esse material para as construções modernas a custo excelente. O presidente da Câmara Municipal de Esposende construiu a sua própria casa em taipa, que é terra compactada. Eu próprio dei apoio na construção desta solução. Esta casa é quase um ‘case study’. Os materiais naturais trazem muitas vantagens e pode ser uma solução de futuro para habitações unifamiliares e construções de pequena escala com vantagens ambientais e de conforto interessantes.

P – Faz parte da Coligação para o Crescimento Verde e do Grupo de Trabalho de Resíduos do Ministério do Ambiente. Como vê a evolução da situação ambiental em Portugal?
R – Diria que Portugal tem feito um trajecto interessante. A Coligação para o Crescimento Verde foi criada no Governo anterior e continuada, e bem, com este Governo. Reúne um conjunto de especialistas e entidades para definir uma visão ambiental para o País. Portugal tem dado passos significativos e é um exemplo ao nível da transição energética. Somos um ‘case study’ mundial ao nível da produção de energia a partir de fontes renováveis, independentemente da questão polémica das rendas. Também a economia circular foi definida como estratégica para este Governo, tal como a mobilidade eléctrica e a descarbonização da economia até 2050. Recentemente foi publicado um estudo que prova que, em 2018, Portugal reduziu as emissões de gases com efeito de estufa em 9%. Somos líderes europeus. É um número extraordinário. Do ponto de vista do trajecto, Portugal tem estado bastante bem.

P - Não estávamos num ponto de partida muito atrás?
R - De facto, estávamos. Do ponto de vista energético, baseávamos muito o nosso modelo nas fontes fósseis. No que respeita aos resíduos, ainda sou do tempo das lixeiras. Partimos de uma base muito má. Nos resíduos há ainda um caminho a percorrer. Os números da reciclagem estão mais ou menos estagnados nos últimos dois anos e a produção de lixo per capita cresceu ultimamente. O modelo dos ecopontos está relativamente exaurido, são precisas outras medidas como a recolha selectiva ou o sistema PAYT em que a pessoa paga em função do lixo produzido. Há um caminho que tem de ser percorrido, porque estamos num grupo de países que corre o risco de não cumprir as metas europeias.

P - Na zona do Vale do Cávado, o sistema de recolha e tratamento de resíduos está a passar por um processo de reestruturação. Acha que é um momento para os políticos locais repensarem o modelo?
R - Acho que sim. Como a Braval serve vários municípios, é difícil chegar a consensos sob o modelo de exploração. Reconheço a dificuldade em encontrar um modelo que seja bom e consensual, mas a premência da questão dos resíduos convoca a esse diálogo.

P - O IB-S faz alguma investigação ao nível do tratamento e gestão dos resíduos?
R - Trabalhamos, fundamentalmente, soluções para resíduos que tenham interesse económico e que não tenham impacto ambiental. Temos utilizado a nossa influência para alterar questões legislativas. Há resíduos que podem ser matérias primas em determinadas indústrias, mas há questões de classificação e burocráticas que desincentivam essa utilização.

P - Como vê o futuro próximo do IB-S? É um projecto consolidado e assumido pela Universidade do Minho e pela região?
R - Sempre foi uma aposta central da Universidade do Minho. Temos um conjunto de 17 empresas que nos aconselham a definir a nossa estratégia, lideradas por José Teixeira. O IB-S é um projecto que está em fase consolidação. Temos cerca de 10 milhões de euros de financiamento competitivo. O futuro passa por consolidar as áreas de investigação do mar, da economia circular, da bioeconomia, do clima, da construção sustentável. Fomentar ainda mais a ligação com as empresas é fundamental. Vamos abordar a inteligência artificial, que vai ser um ponto de viragem em todas as áreas, e também na ambiental. Vamos apostar também na exploração espacial, fundamentalmente, nos micro e nano satélites. Portugal vai apostar em bases de lançamento de constelações de micro satélites, o que vai ser fundamental para a recolha de informação de fenómenos terrestres e marinhos. Temos um grupo muito forte na área da electrónica e dos sensores e queremos ajudar os satélites que vão ser lançados a terem sensores mais leves. A Universidade do Minho está a instalar um supercomputador, um dos de maior capacidade de processamento de dados a nível mundial. O centro de visualização vai ser instalado no IB-S e nós queremos potenciar esta ligação.

P - O IB-S já está como parceiro activo neste projecto espacial português?
R - Sim, estamos a apostar na área dos satélites, melhorando a capacidade de recolha e tratamento de informação que vai permitir tomar decisões e realizar ac- ções muito mais focadas e eficientes para a sustentabilidade do planeta. As constelações de satélites são uma aposta mundial.

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