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“10 palavras no caminho? Apanho todas. Um dia construo uma ponte.” RESILIÊNCIA

Histórias de vida quem não as tem...

“10 palavras no caminho? Apanho todas. Um dia construo uma ponte.” RESILIÊNCIA

Escreve quem sabe

2020-12-29 às 06h00

Cristina Palhares Cristina Palhares

Serendipidade, Espanto, Otimismo, Resiliência, Humor, Liderança, Talento, Conhecimento, Excelência e Felicidade. As 10 palavras desta caminhada que partilharei neste espaço, durante 10 meses. Nos meses anteriores, SERENDIPIDADE, ESPANTO, OTIMISMO.
Hoje: RESILIÊNCIA. Uma palavra tão incisiva quão pertinente neste fim de ano que se aproxima. Ano difícil que testou a nossa capacidade de resiliência. E que nos convida a entrar no Novo Ano com esta capacidade reforçada. Iremos continuar a precisar dela, da resiliência, e, da melhor notícia: da possibilidade de ser aprendida e desenvolvida, tal qual como qualquer capacidade. E se a resiliência, tal como descrita em muitos dicionários da psicologia é a capacidade do indivíduo lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas, ela será então a competência mais importante nesta entrada num NOVO ANO. Continuaremos com tempos adversos resultantes da pandemia vigente e esta nossa capacidade de resiliência permitirá (ou não) enfrentar de forma mais saudável (ou traumática) estes mesmos tempos. Mas, para lá da nossa resiliência, nossa, professores e adultos enquanto atores num palco de vida pandémico, existe um outro contexto onde diariamente esta capacidade se espelha e é espelhada: a escola. A resiliência a aprender, minha, enquanto professor, enquanto pessoa, e a resiliência a ensinar, a desenvolver no outro, enquanto professor também, enquanto pessoa em contexto com outras pessoas, num ambiente de aprendizagem. Deixamos de ter alunos, somos sim todos estudantes. Nós, porque desenvolvemos a nossa capacidade de resiliência e nós, enquanto promotores do desenvolvimento desta capacidade de resiliência nos nossos alunos. Mas, como muitas vezes venho refletindo nestas crónicas, o professor ensina muito mais de si do que dos seus conteúdos. Daí a importância não do que ensina mas do que é quando ensina. A resiliência é estudada através de oito esquemas básicos de crenças: autocontrole (condição de serenidade diante da adversidade), leitura corporal (modo de lidar com as reações somáticas que surgem quando a tensão ou a ansiedade se tornam elevados) otimismo para com a vida (olhar a vida com esperança, alegria e sonhos), análise do ambiente (identificar e perceber precisamente as causas, as relações e as implicações dos problemas, dos conflitos e das adversidades presentes no ambiente), empatia (não é ''colocar-se no lugar do outro'' mas sim a capacidade de sentir o mesmo que o outro sente), autoconfiança (ter convicção de ser capaz e eficaz nas ações propostas), alcançar e manter pessoas (vincular-se às outras pessoas sem receios ou medo de fracasso) e sentido de vida (entendimento de um propósito vital de vida na experiência vivida como adversa). Estes esquemas básicos são estruturados desde a infância pelo que somos resilientes desde que nascemos, mas, à medida que crescemos, as emoções complexificam-se e a nossa capacidade de resiliência vai perdendo “flexibilidade”. Saber como se é, através do desenvolvimento destes ítens ajudar-nos-á a perceber como poderemos ajudar os nossos alunos a serem quem são. Muitas crianças são até resilientes no que ao talento diz respeito. Mesmo na maior das adversidades (pouco estímulo, ausência parental de (in)formação, professores “distraídos”...) desenvolvem os seus talentos. Um dos livros que tenho “em mãos”, literalmente, editado em agosto deste ano, “Cá dentro - o lugar da escola nos nossos miúdos” de Rui Correia, professor de História e vencedor do Global Teacher Prize Portugal 2019, ressalta uma ideia que conjuguei com a resiliência: a ideia de “pegada ambiental do aluno”. “Pegada ambiental do aluno”, a biografia de cada um deles, a sua identidade, que devemos fazer prevalecer como elemento central do sistema educativo, não porque aluno mas sim porque pessoa. “Todo o educador sabe disto: existem miúdos e miúdas com dez, doze anos que estão completamente convencidos de que nunca serão ninguém na vida; e que isso de ser “bom aluno” é coisa para os outros”, como diz Rui Correia. “Garotos com expectativas pessoais completamente destruídas por adultos que conseguiram convencê-los de que o seu destino não andará muito longe daquele que ficou miseravelmente reservado aos seus pais.” Que adultos os convenceram? Nós, professores? Claro que sim! Porque perdemos flexibilidade e criatividade, e tornamo-nos rígidos e rotineiros. Porque perdemos serenidade e tornamo-nos ansiosos. Porque deixamos de rir e sonhar, para sermos sérios e formatados. Porque não conseguimos sentir o que os nossos alunos sentem, desconhecendo a sua pegada ambiental. Porque somos resignados e não resilientes. “Porque dilapidamos os nossos diamantes em vez de os lapidar”. Ainda bem que este ano está a acabar. Que o novo ano traga as melhores ferramentas da resiliência para que possamos melhorar a nossa técnica de lapidação dos diamantes que povoam a escola: e porque são diamantes, todos importam.

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