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10 palavras no caminho? Apanho todas. Um dia construo uma ponte.

Histórias de vida quem não as tem...

10 palavras no caminho? Apanho todas. Um dia construo uma ponte.

Escreve quem sabe

2020-10-06 às 06h00

Cristina Palhares Cristina Palhares

Serendipidade, Espanto, Otimismo, Resiliência, Humor, Liderança, Talento, Conhecimento, Excelência e Felicidade. As 10 palavras desta caminhada que partilharei neste espaço, durante 10 meses. No mês passado SERENDIPIDADE. Hoje: ESPANTO. Palavras em que fui tropeçando, que fui apanhando, construindo, não um castelo, fechado e imponente, mas uma ponte, aberta e simples. E será esta ponte o espaço entre nós, o espaço da generosidade, da equidade, da aceitação, da celebração – aquele espaço que, na escola, nos coloca em relação com os alunos. Há cerca de 10 anos, aqui mesmo neste espaço e nestas crónicas, conversamos sobre o espanto aristoteliano que não mais me cansei de referir. Nessa altura falávamos da importância da aprendizagem, de quando, no confronto cognitivo suscitado numa aula, um aluno é capaz de perceber o que até ali não era percetível, de aprender o que até ali era desconhecido, de integrar o que até ali estava solto, ou seja, quando revelava a verdadeira capacidade de se espantar. Espantar, sim. O espanto de quem passa de simples repositório do ensino para sábio, para entendedor. Saber é compreender. E compreender acontece quando existe espanto. O espanto de quem compreende. Isto sim, leva o ensino, da simples arte de ensinar, para a nobre arte de aprender. O professor ensina, mas é o aluno que aprende. E ele só aprende na medida em que se espanta... O espanto ouve-se, normalmente. É um sopro interior, de dentro para fora, normalmente acompanhado de um som: “Aaaah....”.

Que todos já experienciamos, sem dúvida. E que continuamos a fazê-lo, não fosse a vida, ela própria, uma sucessão de compreensões e aprendizagens, e nós, uns eternos aprendizes a caminho da sabedoria. Mas também já nessa altura, este sopro interior, de dentro para fora, e tantas vezes audível (“Aaaaahh!!”) se ouve pouco na sala de aula. Tudo é ensinado de tal forma que poucas vezes leva à compreensão de quem aprendeu. Os alunos vão sendo depósitos cheios de conhecimentos, e vazios de sabedoria. Não aprendem muito não, porque não se espantam muito... Porque a sabedoria é interna, é provocada sempre que um espanto aristoteliano é emitido, levando o aprendiz a sujeito da sua própria aprendizagem. Não é o professor que ensina mas o aluno que aprende. Aaaaahh…. e sabem? A capacidade de nos espantarmos é diretamente proporcional à capacidade de admiração.

“Quem muito admira, muito se espanta”. Sim, sem dúvida. Então… fácil se torna o ensino quando desenvolvemos a capacidade de admiração. E o professor é então, aqui, a pedra basilar de quem leva a admirar. De quem nos lembramos ontem: neste mesmo dia 5 de Outubro, em 1994, a ONU quis homenagear todos os que contribuem para o ensino e para a educação da sociedade, chamando assim a atenção para todos aqueles que escolheram o ensino como forma de vida. E que terá sempre a melhor homenagem: a que vem dos seus alunos. Daqueles que todos os dias se sentam à sua frente para o ouvir, para lhe responder, para lhe mostrar, para aprender com ele… para viverem com ele algumas horas dos seus dias. Dia após dia. E são estes alunos que normalmente, anos volvidos, o reconhecem, lhe agradecem, lhe são gratos para a vida. “Claro que o mérito foi todo da minha diretora de turma, que apostou em mim!”. “Se não fosse o meu professor de francês…”.

“Hoje estou na universidade porque o meu professor de matemática sempre me incentivou. Ele acreditou em mim”! A escola sabe, desde sempre, que para lá de todos os recursos materiais exigidos e exigíveis tem sempre em permanência o maior recurso que qualquer aluno merece: o professor. O professor que será sempre o maior, o melhor, o único recurso que não se gasta, que não sai de validade, que não precisa de tinteiro, que não precisa de corrente eléctrica, que não precisa de manuais, que não precisa de paredes nem tão pouco de teto. É-se professor em qualquer lugar do mundo. E é este professor que tem na sua agenda uma excelente máxima: entusiasmar os meus alunos a tirar prazer do seu espanto desenvolvendo-lhes a capacidade de admiração. Para admirarem o mundo que os rodeia, as relações que estabelecem, as pessoas com quem partilham o seu dia a dia. E assim ouviremos expressões como esta, que têm e dão um significado especial à arte de ensinar: “- Aaaaah... já passa da hora, stora!” O espanto do tempo que já não é mais o mesmo tempo. Provocar o espanto nos nossos alunos: a sabedoria de quem ensina, de quem leva a admirar. 

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