Correio do Minho

Braga, sábado

10x10

Investir em obrigações: o que devo saber?

Voz às Escolas

2015-01-29 às 06h00

José Augusto

Como dar espaço à criatividade dos alunos e tornar as aulas mais desafiantes com tantas metas curriculares a cumprir? Mergulhados numa rotina difícil e desgastante, os professores têm pouco tempo para ensaiar novas ferramentas pedagógicas e estratégias alternativas para “dar a matéria”. O 10x10 é um projeto piloto que envolve professores, artistas e alunos no debate e na experimentação de novas soluções para tornar o currículo mais estimulante para quem ensina e para quem aprende. Atualmente na terceira edição, o 10x10 foi testado no Norte através da colaboração d’A Oficina, de Guimarães e do Teatro Nacional São João, do Porto.
O parágrafo anterior é uma citação da brochura de apresentação do projeto 10x10 (dez por dez), promovido pelo Programa Gulbenkian Descobrir. Mobilizando 10 artistas, 10 professores e 10 turmas, esta iniciativa organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian, procura promover a inovação pedagógica, em diversas disciplinas, enriquecida pelas abordagens, técnicas e linguagens das artes performativas e expressivas. Na presente edição estão envolvidas quatro escolas, duas da Lisboa, uma do Porto e, de Guimarães, a nossa Escola Secundária de Caldas das Taipas. No final do último ano letivo, as duplas estiveram envolvidas num trabalho preparatório em residência artística. Após o início das aulas, numa dinâmica que também contou com a participação das famílias, as duplas desenvolveram o trabalho com os alunos, em contexto de aula. Um trabalho desenvolvido em co-autoria alargada, com os alunos a assumir progressivamente o papel de criadores e de sujeitos ativos da ação e da construção do seu conhecimento. O projeto 10x10 culmina na apresentação pública dos resultados, num formato que designam por “aulas públicas”, em que as turmas e as duplas de professores e artistas descrevem processos e resultados, apresentam produtos e opiniões, partilham as emoções sentidas nos percursos, as dificuldades, os sucessos, as aprendizagens e os ensinamentos colhidos na experiência.
No passado fim-de-semana, tive o privilégio de assistir a algumas dessas “aulas públicas” na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. No próximo sábado, parte delas serão de novo apresentadas no Teatro Carlos Alberto, no Porto. Depois, em 21 de fevereiro, algumas das “aulas públicas” estarão em apresentação e debate na “Black Box” da Plataforma das Artes e da Criatividade, em Guimarães. As apresentações são abertas ao público em geral, com entrada livre e sucedem-se ao longo de todo o dia, seguidas de debates. Pelo que testemunhei, nestes tempos cinzentos de desânimo em que nos vamos arrastando, são momentos radiosos e imperdíveis que nos fazem refletir e voltar a acreditar.
As “aulas públicas” mostram e demonstram a beleza e o poder das coisas simples. Mostram o que pode acontecer quando permitimos que os alunos levem para dentro das salas de aula as pessoas que são e as emoções que contêm. Mostram que, quando os educadores reconhecem “as pessoas que moram nos alunos”, o ato educativo alcança outro nível de complexidade e de significado. Nesse patamar, o ato educativo deixa de ser mensurável por testes, provas ou exames. Passa a ser mensurável pelo impacto transformador em que, passando uns pelos outros, ninguém continua igual e todos seguem mais humanos e mais ricos em conhecimento. O ato educativo revela-se como interação humana que não prescinde, não pode prescindir, de ser livre. A libertação das dimensões expressivas e emocionais no ato educativo coletivo confere espessura e solidez ao ato individual da aprendizagem. Ora, dos jovens, ouvimos nas suas aulas públicas que “estudar é muito mas pensar é tudo” ou como aprenderam a valorizar o estudo da “poesia como provocação do pensar” e acabaram a “descobrir a poesia em nós”. O aluno torna-se sujeito ativo e elege-se enquanto pessoa como foco da construção da sua aprendizagem, por isso deu ao seu caderno o título “À procura da poesia em mim” ou afirma “hoje sou capaz de sentir os poemas”.
Bem sei no que estarão a pensar. Os tempos não estão para isto! Sim, este é o tempo em que avança, qual rolo compressor, uma conceção “taylorista” da educação escolar. São os programas, os indicadores e as metas. É uma lógica do ensino como linha de montagem, fragmentada num encadear pré-definido de ações sequenciais e repetidas.
Organizado como montagem estandardizada de conteúdos (matérias) que vai dando forma a recetáculos inertes a que, cada vez mais, se chamam formandos. Um sistema que não dispensa o controlo regular de defeitos, medidos por testes, provas e exames, que se fazem para verificar o que os alunos não sabem.
Controlando a evolução da construção massificada e uniforme dos ativos conformes às necessidades da economia, esses exames não visam a recuperação mas apenas a eliminação dos “produtos” defeituosos. Mas… E se houver alguém que resiste? E se houver alguém que diz não?
Fica o convite, vão assistir às “aulas públicas”.

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