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Ideias

2020-01-03 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Há 100 anos atrás, tinha acabado uma guerra mundial absurda, centrada na Europa. Mais de nove milhões de combatentes foram mortos, sete milhões ficaram incapacitados, quinze milhões foram gravemente feridos. Morreram seis milhões de civis. As doenças floresceram: tifo, malária, a gripe espanhola que, por 1918, matou cerca de cinquenta milhões de pessoas por todo o mundo. O mapa da Europa mudou de forma dramática, quatro potências imperiais — os impérios Alemão, Russo, Austro-Húngaro e Otomano — deixaram de existir, perderam parte significativa dos seus territórios, ou foram completamente desmantelados, e na Europa Central foram criados uma série de países novos. A nível global, foi criada a Liga das Nações, antecedente das Nações Unidas, para tentar conter outra guerra do mesmo tipo. Seguiram-se anos de nacionalismo e populismo exacerbado, agravados pela hiperinflação (em outubro de 1923, por exemplo, o aumento dos preços na Alemanha foi de 20,9% ao dia!), e por uma profunda depressão económica, a nível global, desde 1929.

As condições políticas, sociais e económicas tinham-se alterado profundamente. O avanço tecnológico tinha sido significativo, e a produção em massa tornava os novos bens acessíveis à classe média. A guerra tinha induzido comportamentos não cooperativos por parte dos países, os trabalhadores tinham ganho muito poder sindical, o sufrágio era agora universal, a opção pela desvalorização e pelo desemprego enquanto políticas no sentido de garantir a convertibilidade do padrão-ouro passaram a ter custos políticos elevados. Começa assim um período sem regras nem normas claras, marcado pela instabilidade, com flutuações cambiais associadas ao excesso de emissão de moeda e com os países a recorrerem a desvalorizações competitivas e ao protecionismo. Os Estados Unidos emergiam como a principal potência mundial, e introduziram quotas de imigração baseadas na nacionalidade de origem.

O mundo entrava então nos “loucos anos vinte”, uma época de mudança social, uma enorme euforia, consumismo e efervescência cultural. Construíam-se enormes arranha-céus, foram criadas novas instituições financeiras, e introduzidas muitas inovações em termos de organização industrial. O papel das mulheres na sociedade começava, ainda que muito lentamente, a mudar. A baixa da taxa de juro, utilizada como política anti-inflacionista, acabou por potenciar o recurso ao crédito e uma enorme vaga especulativa. Em 1929, os EUA aprovaram uma lei claramente protecionista, que aumentava as tarifas unilateralmente em cerca de 20.000 produtos importados, gerando desconfiança nas relações económicas internacionais e uma onda de retaliações, aumentanto a crise. A generalização de políticas protecionistas contribuiu para o declínio dos preços mundiais das matérias primas, o que agravou problemas nas balanças de pagamentos de muitos países periféricos. Os parceiros comerciais tinham-se tornado rivais relevantes. Os impactos políticos da Grande Depressão e do protecionismo crescente foram sentidos em todo o mundo, trazendo os movimentos fascistas e abrindo a porta ao colapso das “instituições políticas e dos valores intelectuais da sociedade liberal “(Hobsbawm, 1994, pg.114). Os riscos acumulavam-se, abrindo as portas a uma nova, e terrível, guerra mundial.

No início da década que agora terminou, o mundo defrontava-se ainda com a pior crise económica desde 1930. Em Portugal, a escassez de crédito e a crise da dívida soberana levaram o país a pedir, em maio de 2011, um resgate financeiro da ordem de 78 milhões de euros, concedido pela troika, a União Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu. O governo português comprometeu-se a cumprir um plano de austeridade para reduzir o déficit orçamental, que reduziu substancialmente os rendimentos, aumentou o desemprego, congelou investimentos públicos e privados, destruiu bancos e empresas. No resto do mundo, a turbulência financeira já se tinha estabilizado, mas a situação económica mantinha-se também muito complicada. A década foi estranha; politicamente tumul- tuosa, com uma polarização crescente. De novo, nacionalismos e protecionismo, num quadro de tensões geo-económicas cada vez mais clara.

Começamos esta nova década com riscos que a história, e muitos comentadores, têm sublinhado. A volatilidade dos mercados financeiros aumentou, o FMI prevê desaceleração continuada da taxa de crescimento do PIB mundial, o peso da dívida pública global continua a ser superior ao nível antes da crise, os problemas ambientais amplificaram-se, as desigualdades económicas mantêm-se, a coesão social e a confiança diminuíram, corroendo o contrato social e os fundamentos da democracia.
Um ano novo, uma outra década, é sempre bom, uma página em branco onde se pode inscrever a esperança e a solidariedade. É isso que gostaria para a minha família, para todos nós. Mas o pessimismo está colado na ponta dos meus dedos. No caso de Portugal, estudem-se bem as prioridades e as estratégias. Não é possível ter tudo.

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