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2023, ano da descontinuação do humano?

Beco sem saída

Ideias

2015-03-20 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Suponha o leitor que sabemos incontroversamente o que é a inteligência humana, que temos uma ciência completa a seu respeito (ainda que não seja de facto o caso); e suponha também que sabemos tudo o que é necessário para reproduzi-la artificialmente, para implementá-la na sua inteira complexidade em suportes materiais diferentes dos nossos sistemas nervosos naturais resultantes de uma longa história evolutiva (ainda que, igualmente, não seja de facto o caso).

É claro que são duas grandes suposições, mas se ambas se realizarem, argumentam alguns, ficam reunidas as condições para que um fenómeno revolucionário possa ocorrer: a emergência de inteligência artificial super-humana; e pouco depois, sustentam outros, entrar-se-á numa nova era em que o humano ficará obsoleto e rapidamente desaparecerá.

Esta possibilidade foi originariamente sugerida pelo matemático britânico Irving John Good, em 1965, quando profetizou uma “explosão de inteligência” como efeito imediato de tal fenómeno de criação de uma máquina ultra-inteligente, que seria, segundo ele, “a última invenção por seres humanos”.

Foi Verner Vinge, contudo, que mais contribuiu para popularizá-la mediante a introdução em 1983 da expressão “singularidade tecnológica” para referir um momento ímpar na história humana de uma “transição intelectual tão extraordinária como o enleio espaço-tempo no centro de um buraco negro”.

Este conhecido cientista da computação e escritor de ficção científica estadunidense desenvolveu esse conceito no seu bestseller publicado dez anos mais tarde, em 1993, The Coming Technological Singularity (1993). Aí fez a ousada previsão de que no espaço de trinta anos seria possível “ter meios tecnológicos para a criação de inteligência super-humana” e, pouco depois, adviria “o fim da era humana”.

A previsão de Vinge, como facilmente se infere, será verificável em 2023. Temos razões para acreditar que é plausível que ela venha a cumprir-se e ficar inquietos?
Sim, se levarmos em consideração o seguinte. Praticamente ao mesmo tempo, em 2013, foram lançados dois ambiciosíssimos programas de investigação científica, fortemente financiados, no campo das neurociências, com o horizonte de uma década, de um e outro lados do Atlântico.

A União Europeia impulsionou o Human Brain Project (Projeto Cérebro Humano), sedeado em Genebra, Suíça, dirigido pela Escola Politécnica Federal de Lausanne, com o objetivo final de construir um modelo computacional do funcionamento do nosso cérebro na sua totalidade e pleno detalhe para alcançar melhor compreensão a seu respeito.

Nos EUA, a administração Obama pôs em marcha a iniciativa BRAIN, acrónimo de Brain Research Through Advancing Innovative Neurotechnologies (Investigação do Cérebro Através do Avanço de Neurotecnologias Inovadoras) - também aludida como Brain Activity Map Project (Projeto de Mapeamento da Atividade do Cérebro) - que, apoiando-se no Projeto Genoma Humano, visa “mapear a atividade de cada neurónio no cérebro humano”.

Ambos os programas de pesquisa deverão culminar no ano em que a previsão de Vinge se cumpre. Isso significa que poderemos estar mais perto desse acontecimento radicalmente transformador, espécie de Ereignis, para usar um termo empregue pelo filósofo alemão Martin Heidegger, uma vez que se eles tiverem sucesso nos seus propósitos fundamentais, dentro de oito anos disporemos do conhecimento científico e da capacidade tecnológica exigíveis para criar máquinas inteligentes que produzirão outras mais inteligentes que produzirão outras ainda mais inteligentes…

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