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25 de Abril, regionalização e livros

Mitos na doença mental

25 de Abril, regionalização e livros

Ideias

2019-04-23 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

“Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir”
(George Orwell)

O25 de Abril, a data que marcou indelevelmente gerações de portugueses, está aí à porta: depois de amanhã celebram-se precisamente 45 anos do dia em que o Movimento dos Capitães, generosamente, libertou o país de um regime ditatorial que sobrevivia isolado do resto do mundo, oprimindo e silenciando todo um povo.
Agora, quase meio século depois, muitas das diferentes comemorações que assinalam a data, quando ainda acontecem, mais não são do que meras manifestações festivas completamente desligadas, nos planos ideológico e na sua práxis, do espírito que norteou o Movimento das Forças Armadas. Ao longo dos anos, e também mercê da inexorável mudança geracional que se foi operando nos diversos níveis do Poder, as celebrações transformaram-se completamente e são hoje meras evocações festivas comparáveis àquelas que nos fazem recordar efemérides demasiado longínquas no plano temporal e afectivo.
Obviamente, nada tenho a opor a essa forma de celebração e até penso que é melhor fazê-lo assim do que esquecer a data, como sucede por exemplo com a Câmara de Braga. Mas creio que o 25 de Abril e tudo que essa data representa para nós, portugueses, mereceria outra atenção, outro empenho dos responsáveis políticos, ou seja, deveria apostar-se na proximidade, através de maior envolvimento das pessoas. Esquecer a data festiva ou transformá-la numa rotineira manifestação é contribuir para aumentar o distanciamento, é contribuir para a cingir a um mero mausoléu evocativo de uma qualquer efeméride que o tempo se encarregará inexoravelmente de atirar para os livros de história.
Todos temos plena consciência de que Abril ainda não está cumprido na sua totalidade. Mas também não ignoramos o muito que já foi feito, não esquecemos que o Portugal de 2019 pouco tem a ver com o país que existia em 1974.
Por muito que alguma direita ressabiada e sarrafeira tente convencer-nos do contrário, a avaliação global é francamente positiva, como de resto facilmente se constata através dos dados estatísticos de diferentes organismos internacionais mas também, e principalmente, pela prova real que é o quotidiano da esmagadora maioria dos portugueses.
Claro que, do ponto de vista eleitoral, a demagogia de que tantos usam e abusam, contribui para a obtenção, com maior frequência do que seria desejável, de resultados que, de outra forma, dificilmente seriam atingidos. Sempre foi assim e daí os demagogos continuarem a fazer o seu caminho. Aliás, o processo à volta do referendo à regionalização (quem se recorda?) constitui um exemplo perfeito de que a demagogia consegue autênticos milagres.
Ao vermos agora a conversão de muitos dos que na altura – há mais de duas décadas – se colocaram na primeira fila do grupo que rejeitava a implementação daquele preceito constitucional, só nos resta saudar a sua nova opção política e lamentar o tempo que entretanto se perdeu.
Creio que a fundamentação do memorando subscrito o mês passado por cerca de uma centena de personalidades representativas de entidades do Norte, desafiando os partidos a avançar com uma nova consulta popular tendo em vista a regionalização, é bem clara, não deixando qualquer margem para dúvidas. "Uma vez demonstrada a ineficácia do modelo centralista no combate à desertificação do interior e das periferias, assim como na promoção da correção de assimetrias e da coesão territorial, pelos 45 anos de políticas cada vez mais centralistas que o país experienciou, é tempo de introduzir um modelo de organização administrativa que respeite as diferenças, que valorize o que é endógeno, que tenha as con- dições necessárias para corrigir erros passados e promover discriminação positiva e que tenha a força que a legitimação pelo voto lhe empresta", pode ler-se no documento.
Como os subscritores do memorando, não tenho quaisquer dúvidas de que a regionalização é “uma etapa decisiva" na consolidação do processo de afirmação da autonomia do poder local. Mesmo assim, importa sensibilizar os mais renitentes para as vantagens que a implementação desta importante reforma trará ao país e, mais do que isso, há que criar as melhores condições para o tão necessário quanto desejável debate na sociedade civil portuguesa.
Todos sabemos que a pedagogia, o esclarecimento e o debate de ideias são processos morosos que nem sempre frutificam com a velocidade desejável. As comemorações da Revolução dos Cravos da próxima quinta-feira podem ser a ignição de que o processo carece para a tal discussão franca e aberta do processo que conduzirá à implementação da regionalização em Portugal.
Celebra-se hoje o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, efeméride que visa, por um lado, o reconhecimento da relevância dos livros e, por outro, incentivar hábitos de leitura na população.
Instituído em 1995 pela UNESCO, o Dia Mundial do Livro assinala 23 de abril como uma data simbólica para a literatura, uma vez que neste dia desapareceram importantes escritores como Cervantes e Shakespeare, entre outros. Contudo, a ideia da comemoração terá surgido na Catalunha, região onde a 23 de abril, dia de São Jorge, é oferecida uma rosa a quem comprar um livro. Mais recentemente, a troca de uma rosa por um livro tornou-se uma tradição em vários países.
Dispenso-me, obviamente, de lembrar que os livros são um veículo essencial de transmissão de cultura e informação, tendo de igual modo um papel determinante no processo educativo. Mas não quero deixar de enfatizar que a literacia é inversamente proporcional ao analfabetismo e, assim sendo, manifestar a minha profunda convicção de que com mais leitores o país poderia estar bastante melhor. Provavelmente até já teríamos as regiões administrativas.

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