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48 Horas

A saúde dos que cuidam da nossa saúde

Conta o Leitor

2019-08-04 às 06h00

Escritor Escritor

Carlos Baptista

Uma trémula luz amarela iluminava a violenta porta de ferro diante de si. Sem janela, relógio ou qualquer outro indicador da passagem do tempo, podia apenas conjeturar quanto havia já passado das 48 horas a que estava destinado a passar ali sob alçada da polícia gaulesa, quase sem direitos, nem sequer ao tão cinemático telefonema para o seu advogado.
Dizem muitos juristas que “dura lex, sed lex”, mas não lhe parecia que se pudesse considerar justo este poder tão autoritário e discricionário que as forças policiais tinham o direito de lhe impor.
Começou por ser mais uma noite - como tantas outras - de diversão em casa de David, um colega de prédio de quem a paixão comum por literatura clássica rapidamente fizera amigo. O habitual seria deixarem-se levar pela tentação do álcool e adormecer a meio da noite, bem já depois de terem perdido a conta às garrafas vazias espalhadas pela casa.
Mas, desta vez, tudo mudou ainda estavam a deliciar-se com a especialidade de David, um magret de canard. Três batidas concisas na porta que ao ser aberta revelou um par de mal encarados agentes policiais. De forma lesta, só ao alcance de quem já está habituado a estes procedimentos, informaram Micael de que estava detido, algemaram-no e levaram-no para o seu próprio apartamento de forma a prosseguirem com uma busca pormenorizada, violando toda a privacidade que a sua casa lhe dava.
Rebuscado e revirado o seu apartamento sem qualquer fruto, foi levado para a esquadra local e colocado numa cela. Sucedeu-se, então, um corrupio de idas e vindas a uma pequena sala de interrogatórios onde um duo de inspetores de meia-idade o inquiriam detalhada e redundantemente.
Pelo meio dos interrogatórios, era ele quem se questionava a si mesmo. Como se tinha permitido chegar a este ponto? Como é que aquele jovem rebelde que encontrara na bicicleta mais que uma paixão, um escape se deixara deslumbrar de tal forma?
Não passara mais que um instante para que a prisão do seu quarto de adolescente se tornasse numa literal cela na esquadra de uma desconhecida terriola do norte de França.
Para o pouco sociável miúdo de 14 anos, o ciclismo fora uma benção. Nos treinos, encontrou uma libertadora solidão, nas provas amigos com a mesma paixão e, acima de tudo, encontrara um caminho na vida. Por isso, quando os seus antigos colegas de escola se penavam por um qualquer emprego à secretária, ganhar a vida a fazer girar os pedais parecia-lhe um sonho.
O pior viera depois. Tinha talento e agora pagava por isso.
Fruto de uma dedicação enorme de que só é capaz quem usa o desporto como escape da sua medíocre vida, e talvez também de uma pequena ajuda genética, rapidamente se tornara um constante vencedor das provas nacionais para juniores e presença indispensável nas raras visitas da seleção nacional ao exterior.
Mesmo aí, com concorrência bem mais agressiva, teimava em não abandonar os primeiros lugares e foi, então, sem grande surpresa que ao passar para profissional uma das equipas espanholas chamasse por ele.
O choque da diferença foi colossal. Não tanto culturalmente, apesar da abordagem mais relaxada, mas intempestiva dos espanhóis, mas na forma de preparação das corridas. Entre suplementos,injeções e outros que tais, deparou-se com a realidade do ciclismo de alto nível. Verdade seja dita, não passava de uma tentativa desesperada de se manterem competitivos. Liderada por um dos poucos resistentes da modalidade, a equipa ia ao limiar do legal para não perder o ritmo de um pelotão abastecido a Eritropoietina.
Não dava para exibições como as dos grandes campeões, mas a equipa conseguia ser competitiva o suficiente para haver quem reparasse neste novo ciclista vindo da Lusitânia e que, apenas dois anos depois, voltaria a subir de patamar, chegando agora a um dos colossos do ciclismo francês.
Chegado ao topo do ciclismo, não havia meias medidas ou considerandos éticos. Era um profissional, demasiado bem pago para não fazer tudo o que pudesse para apresentar resultados.
Para qualquer lado que olhasse, veria um dos seus novos companheiros a alcançar o seu real potencial através de uma simples receita à base de injeções. Seria rapidamente também esse o seu ritual para as principais provas do ano, os seus princípios deitados janela fora a troco de subir umas posições numa corrida de bicicletas.
Quando o órgão de governo do ciclismo finalmente entrou em ação, mais por pressão pública que por interesse dos seus dirigentes, já era tarde demais para para toda uma geração, que não sabia competir de outra forma.
Por mais operações estéticas que tenham sido feitas, o pelotão não passou a andar “a água” de um dia para o outro. Houve necessidade de moderar as doses, alguns aproveitaram para se despedirem e procurar algo mais saudável no qual passar a vida, mas maioria continuou encarcerados no ciclo negro, presos a equipas preparadas para os abandonar à primeira ameaça à sua reputação de ‘limpas’, mas que não aceitavam qualquer descida de rendimento.
A culpa esmagava-o e a modalidade que tanto amara agora somente o enojava. Procurava desesperadamente uma forma lesta de expiação e, finalmente, percebeu o que tinha de fazer. Da próxima vez que o levassem da cela para a abafada sala de interrogatórios, ele falaria.

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