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Braga, sábado

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7 anos

Lenha, lenha, lenha para São Vicente

7 anos

Escreve quem sabe

2020-11-06 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

Há um relógio em Nova Iorque que está em contagem decrescente para o fim do planeta. Cada tic-tac é menos uma oportunidade para nos levantarmos. Temos o cano da pistola apontado. Sete anos é quanto nos resta para reverter este tenebroso caminho que insistimos em percorrer. Além do metrónomo que conta, em números vermelhos, quanto tempo temos até esgotar o nosso orçamento de carbono, o relógio tem um segundo número, a verde, que contabiliza a energia fornecida por fontes renováveis em todo o Mundo.
A balança do tempo revela que respiramos ar moribundo. Está engelhado. Caso continuemos no camarote da inércia, a temperatura sobe a ponto de tornar insustentável a vida na terra. A sentença é clara: ou mudamos, ou morremos de asfixia.
Este aporte tem espelho no recente documentário de David Attenborough intitulado “Uma Vida no Nosso Planeta”. Um ser com quase um século de vida – grande parte a observar e narrar os mais recônditos paraísos naturais – que mostra a insaciável marcha para o desastre. Um Mundo virgem que está a acabar. Um Jardim do Éden, descrito nos livros do Gênesis e de Ezequiel, que virou caricatura à custa de escolhas que envergonham o criador.
Há números que cortam a face. Por exemplo, saber que três biliões de árvores tombaram nos últimos anos, feito que faz perigar a biodiversidade. Um declínio que esfola o Holoceno, isto é, a estabilidade que precisamos para garantir a sobrevivência humana. Attenborough defende que temos que “renaturalizar o Mundo” sob pena de o perdermos. Até porque, diz, “se cuidarmos da natureza, ela cuida de nós”. O impacto deste projeto foi de tal ordem que a conta de Instagram deste naturalista bateu um novo recorde nesta rede social. Foram necessárias apenas quatro horas e 40 minutos, para este britânico convencer um milhão de seguidores.
O simbolismo do número é um ligeiro toque na consciência. Apenas um sopro embora não retire o louvor. Porém, este viver que encobre o rosto, tem no olhar uma natureza que sangra. A manter-se este torpor, os bolsos da economia mundial terão que desembolsar, até 2070, a gigantesca soma de 4,6 biliões de euros para acudir aos estragos das alterações climáticas. As contas – explanadas num relatório recente assinado pela Carbon Disclosure Project (CDP) e pela University College London (UCL), ambas do Reino Unido – mostram ainda uma redução de 10% da taxa de crescimento do PIB mundial até 2050 e de 25% até 2100.
Tudo parece claro. Está tudo explicado. Basta deslizar o tempo para esbarrar com o que andamos a fazer. Saber que a humanidade consumiu nos últimos 70 anos mais energia do que nos 12 mil anteriores, é argumentar sem glória. A mesma impotência em ler que 80% de todo o plástico descartado acaba nos oceanos. Em redor, o selvagem é domesticado. A gaiola é o grito surdo de quem caiu nas garras do homem, o único que consegue imaginar o futuro. Enquanto o além sobrevive em nuvem, a natureza mostra as dores. Uma mãe que abriga, mas que tem o direito de chorar.
Volto a agulha para a pátria e leio que vem aí o Programa Nacional de Investimentos 2030 (PNI 2030). Quem manda na pasta climática, garante que do bolo de 43 mil milhões, 26 mil estão locados nas áreas da Mobilidade Sustentável, Sustentabilidade Ambiental e na Transição Energética. Por outras palavras, o dinheiro será gasto em projetos que beneficiem da redução de emissões, promovam a transição energética, a mobilidade sustentável, a circularidade da economia e a promoção de biodiversidade e valorização do território. A fazer fé no que lemos, as metas passam por obter uma maior eficiência energética, uma melhor qualidade ambiental, nomeadamente das massas de água, uma transformação dos resíduos em recursos e uma redução em 50% da área ardida até 2030.
Vamos esperar que o relógio tenha um aguilhão que espante a tentação do lobismo. Que bata cada minuto ao sabor do vento despoluído. Que haja horas de dever cumprido. Dias sem frete. Meses onde as próximas gerações garantam bilhete para viver. Anos de céu azul. Ainda vamos a tempo.

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