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75 anos depois

Ideias

2020-05-08 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

75 anos é quase uma vida toda; a esperança média de vida, à nascença, para Portugal anda pelos 80,08 anos, e tem vindo lentamente a subir. Há 75 anos atrás, no dia 8 de maio de 1945, a Alemanha rendia-se finalmente. O dia V, o dia da Vitória. Para trás, tinham ficado entre 70 a 85 milhões de mortos, entre os causados diretamente pela guerra, e indiretamente por doenças e pela fome. E felizmente Hitler tinha-se já suicidado a 30 de abril de 1945, criando, por essa via, as condições objetivas para acabar com a guerra.

Por estes dias, ainda de relativo confinamento, vale a pena ler As Benevolentes, um livro de Jonathan Littell. O livro está muitíssimo bem escrito, e recebeu vários prémios importantes, mas é terrível. A perspetiva é de um antigo agente das SS, que teve um papel no massacre dos judeus e outros crimes, e dada a frieza com que é escrito, ao ler, quase estamos mesmo lá, no meio daquela loucura e do terror. Mais do que um romance é um documentário, e no fim somos confrontados com muitas, muitas questões de natureza ética. E já agora que falamos de livros, fica aqui também a sugestão da trilogia de Ken Follet, o Século. Em três livros consecutivos, com base na história de cinco famílias, o autor conta a história do conturbado século XX. A Queda dos Gigantes, O Inverno do Mundo, No Limiar da Eternidade – só o título de cada uma das obras fala por si.

Em França, os sinos de todas as igrejas tocaram, em Inglaterra as ruas encheram-se de população e reza a história, ou a lenda, que mesmo a família real veio para a rua festejar anonimamente. Também em Lisboa, e ainda que o país se tivesse mantido neutral, as ruas foram invadidas por uma enorme multidão. O meu pai, na altura jovem estudante da Faculdade de Medicina, contava da enorme alegria que se sentia, que se adivinhava no rosto das pessoas. Salazar, que se manteria no poder por muitos anos ainda, apesar da sua proximidade ideológica com os regimes de Hitler, Mussolini e Franco, tinha já compreendido o sinal da história, e manifestado alinhamento com os Aliados, percetível, por exemplo, na cedência da Base das Lages. E Portugal veio a estar nos países fundadores da NATO, em 1949.

A Europa festejava assim o direito ao futuro, o direito a ter esperança. Para trás, ficavam séculos de conflitos militares constantes, uma história contínua em que o sistema geopolítico tinha uma lógica na linha de Darwin: os países militarmente mais fortes, ainda que menos eficientes em termos económicos, subsistiam. 40% a 80%, ás vezes ainda mais, dos orçamentos totais eram destinados a fins militares.
75 anos depois, pode parecer-nos hoje mero romantismo - mas na verdade, o projeto que levou à criação da União Europeia nasceu exatamente dos ideais de homens e mulheres marcados pela guerra, pela memória de duas guerras. Uma Europa unida, em paz, e próspera. A 9 de maio festeja-se a paz e a unidade da Europa. Onde, de uma vez, o forte peso orçamental das despesas militares cedesse lugar a um sistema de bem-estar social. Ideias e bons líderes conseguiram montar as bases de um projeto arriscado e diferente, numa época em que a Europa estava destruída e tinha perdido o papel dominante nas relações internacionais que detinha desde há séculos.

A 9 de maio festeja-se a paz e a unidade da Europa. Difícil foi sempre, e cada vez mais à medida que o processo se ia tornando mais complexo e profundo, e em que os sucessivos alargamentos passaram a confrontar países muito diversos do ponto de vista económico, político e cultural. O mundo que desde então se foi construindo, dentro e fora da União Europeia, reforçou a dependência que temos uns dos outros, peças de uma série de cadeias de valor globais. A vida hoje, mais do que nunca o foi, revela o “carater coletivo e interrelacionado da vida moderna por detrás da fachada individualista dos direitos e dos contratos” (Coyle, 2020). Como a pandemia está a mostrar, os resultados finais dependem do comportamento de todos e de cada um.

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