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A abordagem geo-holística da Ciência do Sistema Terrestre

Por um estado promotor da sociedade civil e do crescimento ecónomico

A abordagem geo-holística da Ciência do Sistema Terrestre

Escreve quem sabe

2021-06-16 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Em 1983 a NASA – agência do governo federal dos E.U.A. responsável pela pesquisa e desenvolvimento de programas de exploração espacial – criou o Comité de Ciências do Sistema Terrestre. Como a sua denominação deixa perceber, isso significou o reconhecimento, a um tempo, da existência de uma nova categoria ontológica, a Terra como Sistema – uma entidade integrada por quatro grandes esferas naturais, nomeadamente a litosfera (terra sólida), a atmosfera (ar), a hidrosfera (água, incluindo oceanos, rios, gelo) e a biosfera (vida), em interação e interdependência, por entre as quais circulam fluxos energéticos e matérias-primas, que provocam alterações climáticas e são afetadas por elas – e da emergência de um novo paradigma epistemológico no estudo do nosso planeta, o das Ciências do Sistema Terrestre (CST).
Essa dupla transformação, no modo de conceber a estrutura e o funcionamento da Terra e no modo de a inquirir, provocou uma revolução científica, em sentido kuhniano, no campo das Geociências. Ela foi-se anunciando com a noção de “Naturgemälde” de Alexander von Humboldt, com a “Hipótese Gaia” de James Lovelock e com o “diagrama de (Francis) Bretherton” – que explorei nos três artigos anteriores –, mas só principiou efetivamente em 1986 com a publicação do relatório Visão geral da Ciência do Sistema Terrestre: Um Programa para uma mudança global e o lançamento do Programa Internacional de Geosfera-Biosfera (acrónimo IGBP em inglês).
Nesse relatório o objetivo da CST foi definido no seguinte modo: «Obter uma compreensão científica do inteiro Sistema Terrestre numa escala global, descrevendo como as suas partes componentes e as suas interações evoluíram, como funcionam e como se espera que continuem a evoluir nas várias esca- las temporais» (p. 5). Correlatamente, na ata da reunião constitutiva do IGBP, ocorrida na Suíça em setembro desse ano, é descrito que o seu propósito fundamental será investigar «(…) os processos físicos, químicos e biológicos interativos que regulam o sistema total da Terra, o ambiente único que ele fornece para a vida, as mudanças que estão a ocorrer neste sistema e a maneira como são influenciadas pelas ações humanas» (p. 3). O IGBP terminou em 2015, muito embora uma parte significativa dos seus projetos venha sendo prosseguida no âmbito da rede de investigação “Future Earth”, criada para, ao longo da década 2012-2022, produzir conhecimento sobre os aspetos ambientais e humanos da mudança global e encontrar soluções para o desenvolvimento sustentável.
Tais esforços dos cientistas para entender a Terra como um Sistema foram descritos por Hans Schellnhuber como uma segunda revolução copernicana. Segundo o fundador e diretor do influente Instituto Potsdam de Pesquisas sobre o Im- pacto Climático, após uma primeira revolução copernicana, ocorrida no século XVI, que colocou o nosso planeta no seu contexto astrofísico correto, encontra-se em curso nas últimas três décadas uma outra revolução copernicana que intenta colocar a Humanidade numa relação apropriada com o seu meio ambiental.
No núcleo das crenças fundamentais do paradigma emergente da Ciência do Sistema Terrestre, fruto dessa revolução, encontra-se a de que o bem-estar futuro da nossa espécie está indissociavelmente unido à governação global inteligente dos recursos naturais e à gestão planetária sustentável dos ecossistemas mais críticos. Espera-se, pois, que ele nos forneça a inteligibilidade suficiente sobre como conseguir tais desígnios, condição indispensável para a nossa continuidade existencial.

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